Assassino Atemporal

Capítulo 743

Assassino Atemporal

(O Jardim Eterno, Ponto de Vista de Veyr)

Por muito tempo, nem Veyr nem Kaelith disseram uma palavra.

O vento se movia entre eles em suaves espirais, carregando o sal do mar distante e o sussurrar tênue das folhas douradas, mas até a natureza parecia hesitar na sombra dos dois, que estavam no coração do jardim.

O olhar de Kaelith permanecia fixo em Veyr em silêncio, não como um captor estudando um prisioneiro, mas como algo muito mais frio, como um escultor examinando uma estátua rachada, indeciso se deveria repará-la ou deixá-la se despedaçar de vez.

Veyr podia sentir aquilo, aquela quietude perturbadora por trás dos olhos do Grande Deus.

Não havia ódio, nem pena, nem mesmo interesse — apenas uma curiosidade desconcertante, do tipo que fazia Veyr questionar se Kaelith o via como um homem de verdade, ou apenas como um brinquedo para se divertir.

Quando o Deus finalmente falou, sua voz tinha um volume tão baixo que quase se misturava ao som do mar.

"Diga-me, filho," Kaelith falou, com um tom calmo, mas carregado de algo que fazia a espinha de Veyr ficar rígida, "como está meu irmão no Culto?"

Os dedos de Veyr apertaram a borda do manto, a pergunta cortando a frágil tranquilidade entre eles.

Ele levantou lentamente os olhos, encontrando o olhar de Kaelith, a reflexão da luz dourada do jardim refletida em suas pupilas, como brasas reacendendo.

Não conseguia acreditar que Kaelith tivesse a ousadia de perguntar sobre a saúde de Soron.

Não depois da traição que arquitetou há dois milênios.

*Suspiro*

Kaelith respirou fundo, como se já tivesse lido a mente de Veyr antes mesmo que o Dragão dissesse uma palavra.

No entanto, ao invés de ficar na defensiva, limitou-se a dar de ombros, como se não se importasse, e disse—

"Diga o que quiser, ou não diga. Não estou implorando por isso, nem forçando você a colaborar.

Decisão sua.

Perguntei porque, ao contrário do que você pensa, eu realmente me importo com a saúde do meu irmão e com o Culto..."

Kaelith falou, enquanto Veyr começou a rir alto diante de suas palavras.

"Ha… Hahahaha…"

"Você? Você se importa com Soron? Com o Culto?"

A risada de Veyr ecoou pelo jardim, dura e incrédula, quebrando a calma sagrada do ar divino.

"Por favor…"

Ele zombou, levantando uma mão trêmula até o rosto, meio incrédulo, meio tentando esconder o sorriso torto que se desenhava nele.

"É como dizer que o açougueiro se importa com o animal que ele despedaça todo dia. Que piada," disse, com a voz carregada de veneno, enquanto os ombros dele sacudiam de risada zombeteira. "O líder da Facção Righteous, o fundador da Aliança Anti-Cult e o homem que tentou assassinar seu próprio irmão diz que se importa com eles. Que patético."

Os cantos dos lábios de Kaelith se curvaram levemente, embora seus olhos permanecessem imóveis, indecifráveis.

"Sim," ele falou suavemente. "Sim, eu me importo."

A risada de Veyr vacilou.

Kaelith deu um passo lento à frente, sua voz calma, porém inacreditavelmente firme, como uma verdade antiga que se recusa a se dobrar. "Só porque seu cérebro mortal não consegue entender isso, não quer dizer que não seja verdade. Meu relacionamento com Soron e com o Culto é... complicado. Mas, do meu jeito, eu me importo muito mais com eles do que você jamais poderia."

A sinceridade na voz dele atingiu Veyr com mais força do que qualquer lâmina poderia. Silenciou-o — não com medo, mas com descrença. Pela primeira vez desde o começo desse encontro, o Dragão não encontrou palavras imediatas para zombar.

"O que você quer dizer?" ele perguntou, por fim, com tom cauteloso, medido, como se estivesse em dúvida se esperava uma homilia ou uma confissão.

Kaelith virou levemente, olhando em direção ao horizonte onde a névoa dourada se encontrava com o mar infinito. "Ande comigo," disse simplesmente.

Sem esperar resposta, o Deus começou a caminhar pelo caminho de mármore que se entrelaçava entre a flora radiante, seu ritmo nem rápido nem lento, mas preciso, como um ritmo que o próprio mundo era obrigado a seguir.

Veyr hesitou, mas seguiu, o leve tilintar de suas vestes de prata ecoando atrás de si.

"Nunca antes compartilhei minha versão da história com um mortal," disse Kaelith durante o percurso, sua voz profunda e constante, carregando pelo jardim como o som da maré. "Mas hoje, vou te fazer companhia. Tente interpretar como quiser."

"Diga-me, Dragão," Kaelith começou, com tom baixa, os olhos fixos à frente, "você já teve alguma coisa prometida desde que nasceu? Algo por que treinou a vida toda? Algo que lhe disseram que era seu destino… e que foi arrancado sem aviso?"

Veyr franziu a testa, sem entender para onde a conversa ia. "Do que você está falando?"

Kaelith parou de andar. Seu olhar virou para o céu, e pela primeira vez, Veyr viu alguma rachadura naquela perfeita compostura divina.

"Fui o primogênito," disse lentamente Kaelith. "O homem destinado a se tornar o próximo Mestre do Culto da Ascensão. Eu era a mão direita do Pai, aquele que conquistou cem e oito planetas em nome dele, o herdeiro que todos esperavam."

Seu tom endureceu a cada palavra, como se as próprias memórias tivessem dentes.

"Toda a minha vida foi uma lição de contenção. Me ensinaram a me comportar, falar com graça, esconder minhas emoções, nunca agir por impulso. Fui criado para ser o sucessor perfeito. Um símbolo de disciplina e força."

Ele virou um pouco a cabeça, a luz das árvores douradas refletindo na linha aguda do seu perfil. "Mas, enquanto eu era forçado a viver por essas regras, meu irmão não. Soron fazia o que bem entendia. Lutava quando queria, recuava quando queria, vivia entre os comuns, dormia entre eles, bebia com eles, ria com eles… e o Pai nunca o repreendeu por isso. Porque Soron, entende, nunca foi destinado a ser o Mestre do Culto."

Os olhos de Veyr se estreitaram, já percebendo o gosto amargo na fala de Kaelith.

"E, ainda assim, ele virou."

Kaelith prosseguiu, os lábios pressionados numa linha fina, enquanto sua raiva inflamava.

*Escuridão*

*Tremor*

O céu acima escureceu e o chão começou a tremer enquanto Kaelith falava de novo, a voz mais baixa, fria e vingativa.

"O dia em que o Pai declarou Soron seu sucessor foi o dia em que as estrelas ficaram negras para mim. Lutara guerras em nome dele. Enterrei amigos, sacrifiquei séculos da minha vida pelo futuro do Culto. E, no fim, tudo me foi roubado porque ele—" A compostura de Kaelith quebrou, e sua voz se rasgou pela primeira vez—"porque ele sentiu mais. Porque o Pai afirmou que Soron carregava 'o espírito do povo,' melhor do que eu."

A atmosfera ao redor deles tremeu suavemente, rippling na névoa divina. O odor tranquilo das flores começou a desaparecer, substituído por um leve cheiro de ozônio.

"Disseram-me para sorrir," continuou Kaelith amargamente. "Para recuar com graça, abençoar meu irmão mais novo enquanto ele levava tudo pelo que eu lutei. O Pai dizia que eu era rígido demais, frio demais, que eu lembrava demais dele… e que o Culto precisava de alguém melhor para governá-lo agora… alguém mais humano…"

"Mas foi ele quem me fez assim."

Disse Kaelith, enquanto as veias no pescoço dele começavam a saltar de raiva.

Passaram mais de 2400 anos desde essa conversa com o pai, e, mesmo assim, ela ainda ressoava vívida em sua mente, até hoje.

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