
Capítulo 695
Assassino Atemporal
(Planeta Juxta, ponto de vista de Charles)
Charles estava na ponte superior da torre de comando, com o olhar fixo nas dezenas de naves de carga maciças que se erguiam lentamente rumo ao céu escuro. Seus cascos reluziam sob a iluminação forte do hangar, os motores Rugiam enquanto enfrentavam a atração gravitacional de Juxta.
*Vrrrmmmmm*
A barreira planetária acima trepidação por poucos segundos, abrindo-se apenas o suficiente para permitir que a frota passasse. Logo após a última embarcação deixar a brecha, o escudo brilhante se fechou novamente, selando o planeta sob sua cúpula de luz.
"Vai em frente… não olhe para trás," murmurou Charles, observando até as naves se distanciarem em pontos minúsculos no horizonte.
Aquelas embarcações transportavam mais do que apenas riquezas. Levavam relíquias, planos, remédios, arquivos — tesouros que Juxta não podia perder se o pior acontecesse. E entre elas, um pequeno sapo com duas lâminas nas costas e uma carta na bolsinha.
Dumpy faria sua parte. Charles tinha certeza disso.
'Tudo está acontecendo conforme o planejado…'
Ele exalou pelo nariz, usando a manga para limpar a poeira de seu uniforme enquanto sua mão ficava momentaneamente suspensa sobre o comunicador na cintura.
'Só falta uma coisa agora. Depois disso, acabou. Então poderei focar apenas na luta que vem pela frente.'
Pensou isso, enquanto se virava do deck de observação e marchava ao longo da passarela de aço, com as botas ecoando a cada passo.
Soldados o cumprimentaram com militares ao passar, embora ele mal os notasse. Sua mente já se concentrava na missão à sua frente.
A Estação de Transmissão Geral do Cultia se ergia no final do corredor, suas portas pesadas guardadas por dois sentinelas que se endireitaram ao vê-lo. Charles fez um pequeno gesto com a cabeça, e eles abriram as portas sem hesitar.
Dentro, o som de cristais e matrizes preenchia a câmara, monitores emitindo luz azulada suave, a rede já pronta para transmissão planetária, enquanto os funcionários ajustavam câmeras, iluminação, e indicavam o local onde Charles deveria se sentar.
*Tossido*
Tossindo suavemente, Charles ajustou a gola do uniforme e tomou seu assento, encarando diretamente a câmera principal e iniciando seu discurso.
"Senhores e senhoras, cidadãos do Culto… peço desculpas por interromper sua transmissão habitual, mas esta mensagem não pode esperar."
A voz de Charles ecoou firme na transmissão, suas mãos cruzadas atrás das costas enquanto a tela acendia em milhões de lares.
Por um momento, só se ouvia o leve zumbido da transmissão, até que suas palavras retumbassem novamente.
"Enquanto falo, um número sem precedentes de naves inimigas, soldados e guerreiros de elite estão se dirigindo para Juxta…
Em poucas horas, é possível que eu seja comprometido e fique cercado pelas linhas inimigas, lutando numa batalha que manchará nossos céus de vermelho."
Ele fez uma pausa, deixando o silêncio se prolongar, forçando cada homem, mulher e criança a compreender o que aquilo significava, enquanto seus olhos, normalmente tão calmos e zombeteiros, agora refletiam a gravidade de alguém que conhece o preço de cada palavra dita.
"Como Vice-Sectário, tenho a obrigação de assumir o controle deste Culto em tempos de crise, sempre que Lorde Soron estiver ausente em suas próprias missões. E hoje… com grande pesar, devo informar que o Lorde Soron realmente está fora."
Sua voz abaixou, não vacilando, mas carregada de peso.
"Isso me torna seu Chefe de Seita Temporário. E, no entanto… um Chefe de Seita interino não pode lutar de trás das linhas inimigas. Portanto, preciso fazer o que meu dever exige e nomear Leo Skyshard, nosso Dragão Sombrio, como meu sucessor, e este será o líder temporário do Culto até o retorno de Lorde Soron."
As palavras cortaram na transmissão como aço, deixando claro não haver espaço para dúvidas.
"Peço a todos vocês, não, imploro… ponham sua fé nele. Sigam-no. Perseverem por meio dele, pois os tempos que virão não serão fáceis, mas esse garoto carrega em si a força para nos guiar onde eu não posso."
Então, ele inspirou fundo, fechando os olhos por uma fração de segundo antes de reabri-los, com uma determinação endurecida.
"O Exército do Culto existe há mais de 2.200 anos, protegendo nossas terras na escuridão e no fogo. E, ainda assim, nesta noite, talvez não consigamos prevalecer."
"Hoje à noite, o inimigo pode ganhar força, e os pilares do nosso antigo Império podem ser abalados até o âmago. Mas não é o fim, apenas um crepúsculo antes de nossa retomada."
Charles se inclinou para frente, sua voz agora carregada de mais fogo, seu tom mudando de anúncio a promessa.
"Vamos resistir, porque nossos dragões resistem. O Dragão Sombrio Leo Skyshard, e o Messias do Culto, o Dragão Aegon Veyr, serão nossos faróis de esperança neste momento sombrio, e por meio deles, nossa história não terminará aqui, mas será reescrita."
Ao se aproximar da câmera gravadora, suas últimas palavras ficaram mais suaves, quase pessoais, como se falasse direto ao coração de cada cidadão.
"Para o povo de Juxta… fiquem em casa. Protejam suas crianças. Abracem uns aos outros.
E aos meus irmãos, irmãs e soldados pelo universo — mantenham viva a chama de nossa rebelião. Carreguem-na adiante, a qualquer custo, até chegar o dia em que governaremos o cosmos novamente."
A tela piscou uma vez, o olhar de Charles fixo, antes que a transmissão se encerrasse, deixando-o envolto por uma estranha sensação de calma.
*Suspiro*
Inspirou profundamente, aceitando sua situação.
Aquela paz que só vem quando o homem aceita sua morte bem antes que a lâmina toque seu pescoço.
Há anos carregava títulos, responsabilidades, expectativas mais pesadas que ferro, mas com poucas palavras transmitidas pelo cristal de transmissão, tudo aquilo escorregou de seus ombros.
A partir daquele momento, não tinha mais decisões a tomar. Nenhum peso restante para carregar.
Somente a batalha final, e a liberdade que ela traria.
*Estalos*
*Estalos*
Flexionou os dedos, estalando as articulações uma a uma, até girar o pescoço e deixar a tensão escapar, restando apenas o silêncio.
"Agora… estou livre," murmurou, com os lábios torcidos num sorriso cansado.
Com nada mais a perder, Charles saiu da sala de transmissão, sentindo-se como um soldado comum, pronto para enfrentar seu destino de cabeça erguida.