Assassino Atemporal

Capítulo 684

Assassino Atemporal

(Planeta Tithia, arena de treinamento privada do Primeiro Ancião)

Os dias se misturavam, cada sessão mais difícil que a anterior, enquanto Leo e Veyr apoiavam um ao outro no ciclo interminável de golpes, poções e ilusões, aprendendo lentamente a separar sombra de substância, até que a paranoia deixasse de dominá-los e eles começassem a reagir mais como lâminas afiadas do que como animais acuados.

Até o quinto dia, ambos finalmente conseguiam ficar de pé mesmo sob a névoa, respirando com mais calma, os olhos mais claros, as mentes aprendendo a aceitar os alertas instintivos sem serem engolidas por eles.

Claro, os alarmes falsos ainda aconteciam — sussurros de morte que nunca se concretizavam — mas agora podiam piscar uma vez, respirar duas, e decidir em quais confiar e quais ignorar.

Entretanto, o Primeiro Ancião não estava satisfeito.

"Paranoia é coisa de criança," disse o Ancião, com um sorriso sutil enquanto fazia um gesto para o assistente, que colocava uma pilha nova de punhais sem corte aos seus pés. "Chegou a hora de vocês aprenderem a diferença entre ilusão e realidade."

*Whoosh*

Um punhal cortou o ar em direção ao peito de Veyr. Seus instintos gritaram para que se move-se, mas sua mente hesitou, lembrando-se das inúmeras halucinações de lâminas voadoras que esquivara nesses dias, todas falsas — e ele não se moveu novamente.

"Veyr, esse aqui pode ser real!" incentivou Leo, mas já era tarde demais, pois Veyr congelou por meio segundo demais, o punhal atravessando suas costelas antes de ricochetear no chão, deixando-o gemendo de dor enquanto cambaleava para trás.

"Errado," falou friamente o Primeiro Ancião. "Você hesitou. Questionou. E isso significa morte."

*WOOSH*

Outro punhal cintilou, desta vez em direção a Leo. Ainda que ele o visse vindo, Leo não se moveu, pois não percebia uma intenção detrás do ataque, presumindo que não fosse real.

Porém, estava enganado.

*Thud*

A arma bateu no ombro dele, a dor surda se espalhando pelo braço enquanto ele amaldiçoava sob a respiração.

"De novo errado," disse o Ancião, com os lábios curvados para cima. "Não tente entender com o Skyshard, confie em seus instintos, aprimore-os até que se tornem sua arma mais confiável."

"No final, informações podem ser falsas, mas instinto não,"

*Whoosh*

*Whoosh*

*Whoosh*

Punhais vinham um após o outro, alguns assobiando pelo ar apenas para desaparecerem no meio do voo, ilusões feitas para testar os nervos, enquanto outros acertavam forte e certeiro, castigando quem errasse.

Veyr rosnou, sangue escorrendo do lábio onde havia mordido até feri-lo, quase se esquivando de um real, seus movimentos arritmicos, divididos entre pular de susto pelos fantasmas e confiar na leve vibração do seu instinto.

"Filho da puta tá usando jogo psicológico," pigarreou, o peito arfando, o suor escorrendo da testa. "Como diabos a gente vai saber qual é real?"

"Você já sabe," respondeu o Ancião. "Só não quer ouvir. O instinto sussurra baixinho. O medo grita. Aprenda a distinguir, não é tão difícil."

Outro punhal voou na direção deles, o ar assobiando com sua velocidade enquanto os músculos de Leo se tensionavam, mas desta vez, ao invés de reagir, ele fechou os olhos por um instante, ouvindo o silêncio no caos.

'Não é real.'

Ele ficou parado, e, de fato, o punhal difumou-se a um pé antes de chegar nele, dissolvendo-se em fumaça.

Veyr viu também, os olhos se arregalando.

"Parece simples, mas é uma droga difícil superar décadas de cautela encravada nos ossos. Eu não consigo, não nasce naturalmente em mim," reclamou Veyr, enquanto o treino exaustivo continuava por horas, os punhais acumulando-se no chão, seus corpos machucados e roxos por erros, mas aos poucos seus movimentos passaram de tentativas desesperadas para respostas calculadas, seus instintos começando a atravessar a tempestade de ilusões.

Porém, ainda não era suficiente. Os dois acertavam aproximadamente 20% das vezes, tendo um longo caminho pela frente até poderem orgulhosamente dizer que dominavam a técnica.


(Enquanto isso, ponto de vista de Raymond)

Depois que Mauriss descobriu seu segredo, o Grande Enganador lhe deu um prazo de 150 dias para resolver seus assuntos e formular uma estratégia para atacar o Culto, enquanto deixava Kaelith treinar seu filho para combater um monstro como Soron.

'Nem consigo prever de onde virá o ataque... pois, embora perceba a quarta dimensão, não consigo manipulá-la como o Pai —' pensou Raymond, enquanto os pelos da nuca se arrepiavam de aviso, mas seu corpo já estava lento demais, a lâmina cortando seu antebraço e enviando faíscas de dor até o ombro enquanto ele cambaleava, a pegada na espada titubeando por meio segundo a mais.

* Corte *

* Passo *

* Estalos *

Os ataques vinham não como movimentos, mas como inevitabilidades: Kaelith surgindo e desaparecendo em fragmentos espelhados do espaço, atacando de ângulos impossíveis, um corte vindo de cima e atingindo de baixo, um punho da esquerda quebrando costelas da direita. Embora os instintos de Raymond clamassem por movimento, seu corpo não conseguia acompanhar o ritmo da batalha, pois a manipulação das dimensões destruía cada tentativa de defesa.

'Ele nem luta de verdade... está brincando comigo, mostrando a diferença entre percepção e controle, lembrando que ver outra camada da realidade não significa nada se não consigo dobrá-la à minha vontade,' pensou Raymond, cuspindo sangue no chão e se jogando à frente com uma investida desesperada. Mas a figura de Kaelith se dividiu em três, uma recuando, outra desviando para o lado, e a verdadeira pivoteando dentro de sua guarda para dar uma palmada no peito dele, que explodiu como um martelo e o fez escorregar pelo chão quebrado.

* Trovão *

* Respiração pesada *

Todos os ossos estremeceram no corpo dele enquanto se levantava tremendo, os joelhos bambos, os braços ardendo, a visão embaçada e se fragmentando em mosaicos psicodélicos enquanto os espelhos se misturavam.

"Não consigo acompanhar... cada ataque parece vir de todos os lados ao mesmo tempo," sussurrou, a lâmina tremendo na mão enquanto os pulmões clamavam por ar, os pensamentos mais rápidos que o coração desviante.

* Whoosh *

Uma lâmina de força dimensional roçou sua bochecha, o corte superficial mas gelado, como se o espaço tivesse queimado nele, e Raymond soube que, se Kaelith quisesse, sua cabeça já estaria no chão.

"Instinto sem controle é como uma vela em tempestade," a voz de Kaelith sussurrou das paredes, do teto, do chão, sua presença sufocando enquanto Raymond girava, procurando, atacando às cegas contra ilusões que se dissipavam em fumaça e luz.

* Estalos *

Um joelho bateu suas costelas, uma voadora abriu seu lábio, e uma rasteira o derrubou de novo, seu corpo uma boneca de pano na tempestade de golpes.

'Consigo perceber a distorção do espaço... vejo os ângulos se curvando... mas toda vez que tento reagir, ele já está três movimentos à minha frente, esperando pelo lugar que achei seguro,' pensou Raymond, à medida que a frustração e o desespero se misturavam numa amargura na garganta, corpo lento demais, mente inexperiente, e a única coisa que o mantinha de pé era sua vontade.

* Passo *

* Passo *

Por fim, Kaelith apareceu casualmente vindo da parede, como se estivesse saindo de névoa, sem um arranhão, expressão calma e indecifrável enquanto Raymond cambaleava para trás, com a espada meio erguida, o peito arfando, rosto machucado e ensanguentado, todo o corpo gritando de dor.

"Você luta como uma criança que ganhou uma arma que não consegue levantar," disse Kaelith, com tom neutro enquanto olhava para a postura destruída do filho. "Se mal consegue se defender desses ataques simples, então não vai durar cinco minutos contra seu tio, isso é certo..."

Ao ouvir aquilo, Raymond sentiu seu peito afundar em desespero.

Se pudesse, realmente não desejaria lutar contra seu tio.

Porém, não tinha escolha.

Se não lutasse contra ele, seria seu próprio pai quem acabaria com sua vida, e tudo o que lhe restava era se preparar da melhor forma possível para a batalha final.

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