
Capítulo 683
Assassino Atemporal
"No final das contas, você sempre esteve destinado a caminhar sozinho..."
Aquelas palavras atingiram Leo com mais força do que qualquer espada ou ferimento de treinamento, fazendo parecer que sua própria alma tivesse sido arrancada de dentro dele.
Sempre soubera, lá no fundo, que, a longo prazo, seu talento e sua capacidade de transcender os limites mortais eram mais uma maldição do que uma bênção. Enquanto seu corpo permanecesse jovem e sua força intacta por séculos, aqueles que ele mais prezava inevitablemente murchariam e desapareceriam, suas vidas escapando uma a uma, até que, no final de tudo, sobrasse apenas ele, sozinho, carregando apenas memórias que o tempo recusara-se a poupar.
"Eu não quero isso...não quero a imortalidade, só quero ser o mais forte para poder proteger todos vocês pelo tempo que suas vidas durarem,"
Leo murmurou, enquanto voltava à realidade e via Veyr ao seu lado, amaldiçoando o Primeiro Ancião por envenenar o próprio ar que ambos respiravam.
'Huh? O ar ao meu redor está realmente envenenado?'
Leo se perguntou, e assim que esse pensamento passou por sua cabeça, seu peito se apertou repentinamente, como se estivesse inalando fogo líquido.
*Suspiro*
*Tremor*
Ofegante, Leo se inclinou sobre a mesa, sentindo seus pulmões protestarem contra seus próprios pensamentos.
De um lado, o racional de sua mente lhe dizia que tudo aquilo era uma ilusão, que não havia veneno no ar.
Porém, por alguma razão inexplicável, mesmo sabendo que tudo aquilo era uma fachada, seu corpo não obedecia. Seus pulmões se recusavam a respirar o ar ao redor, como se estivessem submersos debaixo d’água.
*Respiração Forçada*
*Exalação aguda*
Foi nesse estado que os minutos pareceram se arrastar, enquanto a luta de Leo espelhava a queda de Veyr, ambos presos em prisões forjadas não de ferro, mas de seus próprios pensamentos distorcidos, enquanto a poção se infiltrava em cada canto de suas mentes, tornando o comum insuportável e transformando sombras em lâminas, passos em morte, até mesmo o ar parado em uma corda de raciocínio que se apertava ao redor de seus pescoços.
Durante meia hora, os dois enfrentaram a si mesmos, Leo forçando cada respiração através de pulmões que insistiam estar se afogando, enquanto Veyr se debatia e cuspia maldições contra fantasmas que nunca apareciam, seus corpos tremendo, o suor escorrendo pelas têmporas, e suas vozes rangendo de medo, quase à beira da loucura.
Devagar, quase imperceptivelmente no começo, o fogo começava a diminuir, o frenesi se transformava em cansaço, e o ritmo febril de seus corações dava lugar a algo mais firme, até que, finalmente, depois de uma eternidade, a névoa se dissipou, deixando atrás de si dois guerreiros caídos e ofegantes, com olhos vazios, porém nítidos, a sanidade reconquistada, embora a um custo.
Suas versões racionais haviam retornado, não porque dominavam o sexto sentido, mas porque os efeitos da poção naturalmente desapareciam, permitindo que voltassem à sanidade.
Seus rostos tinha a aparência de homens arrastados por um pesadelo, desfigurados e desorientados, enquanto ambos percebiam silenciosamente que aquela havia sido, de longe, a treinamento mais difícil que algum deles já havia enfrentado.
"Muito bem," disse o Primeiro Ancião, sua voz transmitindo a satisfação calma de um mestre cuja lição atingira exatamente a profundidade desejada. "Vocês se saíram bem no primeiro dia, e eu permito que descansem pelo restante do tempo, para que possam se recompor e recuperar suas forças."
Por um instante fugaz, Leo quase acreditou que ouviu misericórdia no tom do homem, mas a ilusão de gentileza desapareceu na mesma velocidade quando o Ancião acrescentou,
"Amanhã, recomeçamos e talvez realizemos duas sessões, e depois, talvez, façamos três ou quatro, continuando nesse ritmo até que o [Sexto Sentido] crie raízes tão profundamente dentro de vocês que nenhuma alucinação, nenhuma ilusão e nenhuma ameaça — seja real ou imaginada — consiga mais quebrar seu instinto."
O Primeiro Ancião sorriu, e esse sorriso fez a verdade do que eles estavam passando ficar ainda mais pesada em seus corações.
Leo olhou para Veyr, cuja mandíbula se fechou como se ele quisesse cuspir uma maldição, mas lhe faltava força, enquanto Leo permanecia em silêncio, ambos cientes de que nenhum protesto mudaria o que os aguardava no dia seguinte — o caminho já estava traçado, e eles não tinham escolha senão segui-lo.
E assim, o dia não terminou com triunfo ou alívio, mas com dois Dragões vazios e trêmulos, suas mentes marcadas de maneiras que nem a guerra havia conseguido, enquanto lutavam simultaneamente contra seus próprios demônios internos e seus instintos de sobrevivência primal — uma batalha sem feridas visíveis, mas que cortava mais fundo do que qualquer aço poderia alcançar.
"Cara, isso aqui é uma droga de primeira, Tio, me sinto um viciado que acabou de sair da pior viagem da vida dele. Vi umas coisas horrorosas quando aquela merda tinha suas garras em mim, e juro que nunca mais quero passar por isso de novo," confessou Veyr a Leo, a voz ainda trêmula, enquanto Leo desviava o olhar, relutante em encarar o primo, porque sua mente já revisitava as visões que o assombravam, cada uma mais crua do que podia falar em voz alta.
No fundo, Leo também não queria enfrentar esses demônios, mas, de alguma forma, sabia que tinha que encarar.
"Não, Veyr, acho que está na hora da gente enfrentar nossos medos.
O universo não é tão bonito quanto a nossa vida tem sido ultimamente.
Nem as guerras são tão fáceis de vencer quanto vencemos Nemo e Koral.
Acho que chegou a hora de acordar para a realidade.
Porque, se não fizermos nada em relação às visões que tememos hoje... um dia elas se tornarão realidade."
Leo aconselhou, com os dentes cerrados, decidido a nunca permitir que esses medos se transformassem em realidade.