Assassino Atemporal

Capítulo 666

Assassino Atemporal

(Ponto de vista de Soron, na Borda do Buraco Negro)

Soron havia viajado bilhões de milhas para alcançar o coração de uma galáxia, movendo-se sem ser detectado até finalmente encontrar o buraco negro supermassivo que se situava em seu centro.

A estrutura em si pendia entre véus de estrelas em colapso e mundos dilacerados, como se as próprias leis da existência estivessem sendo reescritas por sua gravidade.

E, mesmo para um Deus de sua estatura, a jornada até ali fora árdua, pois passar despercebido pelos olhos de deuses rivais, clãs rivais e patrulhas infinitas do Governo Universal exigia mais do que furtividade — era preciso paciência, camadas e mais camadas de técnicas de ocultação, e a disciplina para flutuar pelo vazio como um espectro por dias a fio, tudo para que ninguém pudesse adivinhar qual era sua intenção aqui.

Agora, de pé à beira do abismo, sentia seu puxão em cada fibra do seu ser, enquanto a monstruosa gravidade puxava sua carne, seus ossos, seus circuitos e até seus pensamentos, lembrando-o de que aquilo não era apenas um corpo celeste, mas a boca de uma lei superior, um lugar onde a existência se dobra de volta sobre si mesma.

Para olhos mortais, um buraco negro não passava de um vazio que engolia a luz, mas para Soron, cuja visão se estendia além do véu das dimensões, era uma tempestade de cores infinitas escondida atrás da ausência — uma catedral em espiral de tempo distorcido e espaço fragmentado, onde estrelas se alongavam em fios e desapareciam, e onde os momentos se estendiam em eternidades, e as eternidades despencavam em momentos.

Ele sabia por que nenhum corpo mortal podia atravessar tal lugar: o horizonte de eventos não era apenas uma fronteira de gravidade, mas de percepção; ao se aproximar, o próprio tempo desacelerava até parecer parado, cada batida do coração se expandindo por séculos, cada piscar se tornando um sonho sem fim, até que o corpo se esquecesse de si mesmo e se desasse partícula por partícula, como se a própria realidade não reconhecesse mais seu direito de existir.

Mas Soron não estava preso a essas amarras, pois era da quarta dimensão, e enquanto o buraco negro tentasse rasgar sua essência, enquanto tentasse garras arrancar cada fibra dele, ele tinha a capacidade de perceber seu ser não como uma sequência plana de momentos, mas como uma continuidade em camadas — uma corda tecida de infinitos fios, e não de um único fio frágil, o que o protegia de se desmanchar.

Essa era a diferença: entre um Deus e um Mortal, e entre seres que existem acima do tempo e aqueles que estão limitados por ele.

*Segurar*

*Apertar*

Com a respiração firme, Soron tirou o pedaço de Metal da Origem de seu anel de armazenamento e o segurou com força, para que não fosse sugado pelo buraco negro.

Esse era o único lugar no universo onde o metal de origem poderia ser refinado — pois a metal de origem não era um simples minério, mas a condensação de uma lei primordial, o remanescente da própria criação, fazendo dele um material tão puro e absoluto que nenhuma forja, chama ou cadinho de nível mortal ou divino poderia moldá-lo.

Somente ali, dentro da turbulência implacável de dimensões colapsadas, cada partícula de origem podia ser desatada de suas ligações, quebrada e recriada sob a pressão da eternidade, tornando-se apta para futuras refinarias de armas.

*Suspiro*

Soltando um suspiro profundo, Soron fechou os olhos por um momento, lembrando-se das lições que seu pai lhe passara sobre o Metal de Origem.

Antes dele, a única pessoa que entrou num buraco negro e conseguiu refinar com sucesso o Metal de Origem fora seu pai, e aquele homem descrevera o processo como uma das provas mais desafiadoras de sua vida.

'Ó pai, por favor, empreste ao meu corpo fragmentado a força para concluir esta refinaria.

Que eu saia desta com a força de um Deus intacta, para que possa usá-la na minha vingança.'

Soron rezou antes de mergulhar na tentativa, enquanto fortalecia sua determinação e endurecia o olhar.

*FWOOOOOM*

O mundo ao seu redor virou de cabeça para baixo instantaneamente, como se ele tivesse mergulhado em água e fogo ao mesmo tempo, seu corpo sendo rasgado em todas as direções, enquanto sua mente percebia uma pressão tão intensa que o dobrava num ponto singular.

*Suspiro profundo*

A cada respiração, ele sentia mil, cada pensamento ecoando sem fim, enquanto se via escorregando entre dimensões — suas mãos tanto segurando o pedaço de metal quanto deixando de segurá-lo, seus olhos tanto abertos quanto fechados, sua forma tanto se dissolvendo quanto resistindo. Foi ali, na boca do buraco negro, que ele finalmente iniciou o processo de refinamento.

*Espalhar*

* Estalar*

Espalhando sua aura cuidadosamente ao redor do pedaço, Soron evitou que ele fosse desintegrado de todos os lados, permitindo que a pressão agisse apenas em um ponto, isolando uma pequena porção de 0,001 grama, separando-a do restante da estrutura, antes de cobri-la instantaneamente com sua vontade e guardá-la como uma pequena bolinha do tamanho de uma pérola.

*Vibrar*

*Crepitar*

O pedaço resistia violentamente, vibrando como se desprezasse sua invasão, cada partícula pulsando com uma energia de criação pura, mas lentamente as forças de compressão do buraco negro ajudavam, raspando sua superfície, removendo camada por camada de sua densidade, permitindo que ele conduzisse o processo ao invés de ser engolido por ele.

Segundos se alongavam em eternidades, enquanto eternidades se desintegravam em segundos, o fluxo do tempo se rompendo ao seu redor. Ainda assim, ele permanecia imóvel, focado na tarefa, com sua aura se fortalecendo a cada ciclo contra o colapso.

Já podia sentir o quão impossível isso era para alguém com um corpo apenas mortal — até seu corpo, temperado por incontáveis vidas de guerra e refeito pelas leis superiores, tremia e rachava sob a tensão, sangue vazando de fissuras invisíveis que se costuravam e se desfaziam tão rápido quanto surgiam.

O Metal de Origem, embora quase intocado, começava a ceder; suas primeiras partículas se moviam ao comando dele, sussurros de um poder que ainda estava por vir.

E, naquele instante, Soron compreendeu a extensão do caminho à sua frente.

Se seguisse nesse ritmo, levaria cerca de 400 dias de esforço contínuo para refinar completamente o pedaço — sem pausas, sem lapsos de atenção, lutando contra a singularidade e contra sua própria carne decayada.

Só mais de um ano preso na mandíbula da eternidade, onde uma respiração vacilante poderia dispersá-lo em pó.

Talvez conseguisse.

Talvez morresse.

De qualquer forma, não havia mais como voltar atrás.

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