Assassino Atemporal

Capítulo 549

Assassino Atemporal

(Cidade Sanfe, Praça Central de Comando)

O céu acima de Sanfe estava nublado, com uma tonalidade acinzentada que refletia a tristeza do humor dos soldados reunidos abaixo.

Milhares de homens e mulheres uniformizados estavam na Praça Central, com os rostos endurecidos após as últimas 48 horas de conflito exaustivo, alguns com olhares vazios, desacordados com a morte de amigos e comandantes.

E em frente a eles, estava Su Pei.

Ele ainda vestia sua armadura, cujas placas outrora imaculadas agora estavam queimadas e arranhadas após seu duelo com Dupravel, mas sua compostura permanecia tão imponente quanto sempre.

Ele os olhou, seus soldados, seu povo, muitos dos quais o seguiam desde os primeiros dias da defesa do planeta Koral.

E agora, com sua decisão de render-se já tomada, ele se apresentou com a cabeça pendendo, em silêncio.

"Meus soldados, vocês não precisam morrer por uma causa que já está perdida."

Começou, sua voz calma, porém firme.

"Não há reforços vindo do Clã Su. Eles consideraram o planeta Koral uma causa perdida, e sem o apoio deles, é impossível resistirmos às forças do Cult, que são muito superiores." Su Pei continuou, caminhando lentamente pela linha de frente, com os olhos encontrando os de capitães, médicos, patrulheiros e atiradores de elite.

"Refleti cuidadosamente sobre todas as possibilidades.

Pensei em permanecer e lutar até o último suspiro.

Pensei em fugir do planeta de jatinho particular.

E também considerei me entregar."

"Depois de avaliar todas as opções, concluí que a melhor saída é nos rendermos."

Ninguém se mexeu. Ninguém respirou.

"Conversei diretamente com o líder do Cult. Olhei nos olhos do próprio Dragão Sombrio e fiz meu juramento como soldado e como Monarca," disse, sua voz crescendo em intensidade. "Garanti uma aliança que assegura nossa segurança. Todo soldado que se render será tratado com dignidade. Não será ferido. Terá permissão para deixar o planeta como civis."

No entanto, o silêncio persistia.

"Sei das histórias que vocês ouviram. Sei do medo que vive em seus ossos. Mas não estou pedindo que confiem no Cult. Estou pedindo que confiem em mim."

A voz dele suavizou ao fim, mas seu peso não diminuiu.

De dentro da linha de frente, começou um murmúrio. Baixo, incerto, enquanto uma jovem abaixava a cabeça e mordia o lábio, lágrimas escapando silenciosamente por suas bochechas.

Então veio a reação.

"MENTIRAS!" uma voz gritou, rouca de fúria. "Vocês querem que acreditemos que o Cult vai nos deixar ir? Vão nos matar como cachorros quando nos ajoelharmos!"

Um homem avançou até a frente, com o rosto vermelho de raiva, com um distintivo de Tenente no ombro.

"Vocês foram manipulados," gritou, apontando o dedo para Su Pei. "Foram destruídos na batalha e agora querem que sigamos sua covardia? Somos soldados! Nosso dever é lutar pela nossa terra até o último fio de esperança!"

Ele virou-se para os companheiros ao lado. "Se ainda tiverem coragem, lutem! Com ou sem ordens!"

Alguns baixaram a cabeça. Outros cerraram os punhos. Mas então, alguém respondeu.

"Cale a boca, Kiran."

A voz veio da esquerda, de um cabo rústico. Sua voz era rouca, o olhar frio.

"Quer morrer? Então morra sozinho. Mas não arraste os outros junto com sua ilusão."

Kiran piscou, surpreso, enquanto o cabo avançava um passo e colocava a arma no chão.

"Confio no comandante. E se ele disse que é seguro se render, eu acredito nele."

Levantou as mãos acima da cabeça e começou a caminhar lentamente em direção ao posto de controle da fronteira da cidade, na esperança de não ser morto no caminho.

Um por um, outros começaram a seguir. Alguns em silêncio, outros chorando, alguns olhando para o chão como se não conseguissem acreditar que aquilo era o fim. Mas seguiram.

Armas caíram ao chão como trovões, uma após a outra, o som ecoando na base como uma última homenagem.

Nem todos se moveram. Alguns permaneceram imóveis, tremendo de vergonha ou culpa. Outros ficaram parados, com o orgulho forte demais para recuar. Mas a maré já tinha virado.

Até mesmo os mais céticos sentiram suas palavras desaparecerem no silêncio, engolidas pela quantidade de pessoas que preferiram viver.

Su Pei não sorriu.

Simplesmente os observou caminhando. Ombros caídos, mãos erguidas, armas deixadas para trás.

Eles não eram desertores. Não eram covardes.

Eram sobreviventes.

E ele, acima de tudo, tinha lhes dado permissão para viver.

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De um telhado próximo, Leo observava com os braços cruzados, vendo o fluxo constante de soldados se entregando em direção ao posto de controle, enquanto um respeito silencioso surgia dentro dele por Su Pei.

O homem havia escolhido carregar o fardo da vergonha para que seus homens não precisassem. Essa humildade o fez valorizar ainda mais sua aliança.

"Ele é uma boa pessoa... Ao contrário de você, Víbora, o coração dele não é realmente negro…." disse Leo, enquanto Dupravel, que ficava atrás dele de guarda, riu das palavras.

"Ah, cara... será que isso quer dizer que vou ficar sem lutar contra o Lorde Pai? Tava mesmo ansioso pra soltar o meu rage hoje…." reclamou Dumpy, enquanto Leo silenciosamente fazia cócegas na parte de baixo do queixo dele, sem dizer uma palavra.

Leo continuou observando a situação, anotando quantos homens escolhiam partir, decidido a dar mais algumas horas para que se decidissem.

"Fica tranquilo, Dumpy. Já consegui identificar alguns cabeça dura que estão pegando as armas que os outros largaram.

Se continuarem nesse caminho, não terão misericórdia da nossa parte…." disse Leo, prometendo uma batalha contra os que decidissem permanecer.

"Então tá… também estou ansioso por uma luta," disse Ben, ao lado, enquanto Leo olhava para seu mestre robô e sorriu.

No final, parecia que só ele e Dumpy estavam secretamente torcendo para que alguns soldados escolhessem o orgulho ao invés da rendição, só para terem uma razão de matar eles mesmos.

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