
Capítulo 550
Assassino Atemporal
(Ponto de vista de Leo, da borda de um prédio alto)
Leo observava silenciosamente os soldados abaixo com curiosidade aguçada, enquanto concedia a eles algumas horas para decidir se desejavam ficar para trás ou se rendiam.
Para ele, aquele momento era a oportunidade perfeita para aprofundar seus estudos sobre o [Código do Véu de Sete Camadas].
Nunca antes tinha testemunhado tantas pessoas sentindo tantas emoções ao mesmo tempo, pois, naquele instante preciso, em um espaço onde inúmeras almas lutavam entre o dever e a auto-preservação, orgulho e sobrevivência, as emoções que surgiam dentro delas começavam a transbordar para o mundo em ondas, fazendo a aura ao redor de seus corpos se alterar a cada pensamento que passava por suas mentes.
Quase todos os soldados que ele via estavam envolvidos em tons de marrom, vermelho ou azul, com essas cores pulsando, intensificando ou escurecendo à medida que seus conflitos internos se tornavam mais intensos.
E, pela primeira vez na vida, Leo conseguiu distinguir não apenas os gradientes familiares de vermelho, mas também as tonalidades sutis dentro do marrom e do azul, ao decifrar o significado por trás das diversas camadas dessas cores, que antes sempre lhe escaparam.
Quase todos os soldados que observava começavam sua espiral emocional envolvidos na tonalidade ‘Marrom’, uma cor que simbolizava frustração.
E não foi surpresa que quase todos os homens e mulheres, ao abandonarem suas armas, parecessem estar vestidos com alguma variação de marrom, antes de lentamente começarem a se transformar, primeiro, em tons de vermelho ou azul.
Aqueles que conseguiam aceitar a realidade de suas circunstâncias, e encontravam dentro de si a gratidão por terem recebido uma chance de sair daquela luta com vida, começavam a irradiar tons de azul.
Eles caminhavam sorrindo.
Com lágrimas de alegria nos olhos.
E, mais do que raiva, pareciam aliviados por ver que aquela guerra finalmente havia chegado ao fim.
Por outro lado, aqueles que não conseguiam aceitar o desfecho, e, ao invés disso, afundavam na autopiedade e no ódio por terem optado pela rendição, gradualmente se transformavam em tons de vermelho, dominados por um desejo destrutivo de descontar sua ira em tudo e todos ao redor.
Estes eram os soldados que invejavam o céu por seu destino.
Aqueles que questionavam: ‘Por que tenho que me render de forma tão humilhante? Por que o Clã Su não vem nos resgatar? Por que não podemos vencer a Culto?’
Não pensavam em fazer as pazes com o que tinham, mas sim agarravam-se ao que tinham desejado que fosse, colocando toda sua amargura no destino e nas cartas que lhes foram dadas.
Como guerreiro, Leo sentia mais respeito por esse segundo grupo, porque, ao menos, eles sentiam culpa por se renderem, e carregavam um pouco de orgulho em sua identidade de guerreiro.
Porém, como pessoa, ele tinha muito mais admiração pelo primeiro grupo.
Podia perceber claramente em seus olhos que eram aqueles que viveriam vidas longas, felizes e prósperas.
A capacidade deles de viver o presente, de encontrar gratidão mesmo na perda, fazia com que fossem pessoas com quem os outros gostariam de estar perto.
Embora, do ponto de vista de um soldado, fossem uma vergonha.
‘É impressionante como consigo quase discernir toda a personalidade de alguém apenas com base nesse episódio.’
‘Minha maestria no Código está realmente evoluindo. Mesmo que eu ainda não saiba exatamente o que significam os diferentes tons de azul e marrom, tenho uma forte intuição do que deveriam representar…’ pensou Leo, pois, pela primeira vez na vida, conseguia compreender o significado por trás das cores que observava, sem precisar cruzar informações com o Código.
Por um lado, havia incontáveis tons de cada cor, e ao observar milhares de pessoas ao mesmo tempo, quase todas as tonalidades estavam visíveis.
Mas, para simplificar, Leo categoriza amplamente marrom e azul em três tonalidades distintas: - Básico, Claro e Escuro.
Para o marrom, que simbolizava frustração, a tonalidade básica era a mais comum.
Ela pulsava ao redor do soldado comum, aquele que se sentia amargo por ter se rendido, mas cujas emoções ainda não haviam saído do controle.
O marrom claro, por sua vez, tinha uma qualidade desbotada, quase como um cobre, e Leo acreditava que pertenciam àqueles que estavam frustrados, mas não com alguém em particular.
Sua decepção estava na circunstância. Estavam chateados por terem perdido, por terem destruído seus esforços, mas não abrigavam raiva profunda em seus corações.
Depois vinha o marrom escuro, que se agarrava aos soldados como ferro enferrujado. Pesado e opressivo… e Leo associava essa tonalidade àqueles cuja frustração começava a se voltar para dentro.
Eles se culpavam, culpavam seus comandantes, culparam o céu, e essa era uma emoção que fermentava em ressentimento, podendo, a qualquer momento, se transformar em algo muito mais perigoso.
Quanto ao azul, cor da esperança e da alegria, Leo também o categorizou em três tonalidades.
O azul básico era suave, quase sereno.
E, segundo sua compreensão, representava aqueles que sentiam alegria e alívio por não precisarem lutar nesta guerra, enquanto a tonalidade mais clara pairava sobre aqueles que estavam simplesmente felizes por essa confusão estar acabando, para começar uma nova fase de suas vidas.
Por outro lado, a tonalidade mais escura de azul permanecia ao redor daqueles que realmente estavam felizes por estar vivo, ou muito esperançosos quanto ao seu futuro, agora que sobreviveram à guerra.
'Parece que o tom mais claro demonstra uma intensidade menor da emoção, enquanto as tonalidades mais escuras indicam maior intensidade.'
'O mesmo vale para a intenção de matar e parece ser assim para outras cores também…'
Concluiu Leo, após notar um padrão familiar, fazendo uma suposição baseada em sua intuição.
"Certo, já demos tempo suficiente para que eles se rendam. Os que ainda não decidiram podem ser considerados inimigos," disse Leo ao final, sentindo-se satisfeito por ter dado a todos uma chance justa de evacuar.
Aqueles que ainda permaneciam tinham somente auras vermelhas cobrindo seus corpos.
E eram justamente esses que Leo não tinha intenção de perdoar.
"Mestre Ben… Víbora, Trambolho… hora de liberar o veneno. Vamos mandar esses tolos para o além enquanto eles não esperam por isso," ordenou Leo, desembainhando sua adaga e pulando do telhado.