Assassino Atemporal

Capítulo 526

Assassino Atemporal

— Que monte de CORPINHAS COBARDES! — Ara Veyr explodiu assim que ficou a sós com Leo, suas mãos cerradas em punhos trêmulos, todo o corpo tenso de raiva, pronto para desferir golpes em algo... ou em qualquer coisa.

— Pode acreditar neles, meu primo? Aqueles idiotas... Sabem que vidas inocentes podem estar em risco, por causa das metralhadoras de foguete, mas a solução deles é... "Se acham que vão destruir 50 naves, então manda 100"... FILHOS DA PUTA! — rugiu de frustração e deu um soco selvagem na parede mais próxima, o som de seus ganchos de mão quebrando a pedra reforçada ecoando pelo cômodo.

*BAM*

*Passo*

*Passo*

Valterri entrou correndo, com o rosto preocupado, prevendo algum tipo de ataque.

Porém, ao ver a mão de Veyr cravada na parede e a raiva crua nos olhos dele, ele percebeu que era melhor ficar quieto, deu um passo atrás com um aceno silencioso e recuou sem fazer barulho.

Leo, indiferente à explosão, permaneceu imóvel, sua voz calma e pausada ao finalmente falar: "Você precisa se acalmar, Veyr. Na verdade, estou até mais surpreso por você não entender já essa verdade fundamental sobre o Conselho dos Anciãos."

Seu tom não era zombeteiro, mas a tranquilidade nele contrastava fortemente com a ira queimante de Veyr, como água fria tentando apagar óleo fervente.

— Esses fedelhos só se importam com o Cult enquanto isso garantir a segurança da organização como um todo, ou para expandir seu controle de poder, mas, de verdade, eles não se preocupam com as pessoas.

— Querem manter o Cult seguro, porque sem o Cult, eles não têm poder.

— E tentam governar o melhor possível, só porque têm medo de não serem reeleitos se não o fizerem.

— Fora esses dois pontos chave, NÃO há nada que esses velhos inúteis realmente se importem. — As palavras de Leo eram claras e clínicas, mas só reforçavam a dor no peito de Veyr.

— O Conselho dos Anciãos é um câncer dentro do nosso Cult.

— Não entendo por que o Soron os tolera. Um Deus deveria saber melhor, não é? — a voz de Veyr vacilou levemente, sua descrença transformando-se numa dor mais intensa do que raiva.

Ele se virou para Leo, como buscando alguma explicação, alguma sabedoria oculta que pudesse fazer tudo fazer sentido.

Mas Leo deu apenas uma leve encolhida de ombros, um gesto que era mistura de resignação e frustração silenciosa.

— Quero dizer… Claro, o Soron se importa com o Cult, mas, com certeza, há um limite para quanto ele consegue gerenciar cada detalhe.

A estrutura de liderança do Cult permaneceu igual desde seu surgimento.

— O comando, as forças militares e o judiciário são entidades separadas.

— E se você, como Deus, precisa dedicar toda a sua vida para administrar esses três setores, resolvendo qualquer problema pequeno que aparece, você mesmo quer viver assim?

Veyr abriu os lábios, mas nenhuma palavra saiu. A pergunta o fez parar e pensar de verdade.

— Pense bem nisso, Veyr… O Soron provavelmente passou a maior parte da vida treinando como guerreiro para alcançar a Divindade.

— Depois, passou a defender esse império decadente contra a facção justa.

— Será que podemos mesmo esperar mais dele?

— Será que podemos, de fato, responsabilizá-lo por todas as menores decisões das nossas vidas só porque ele tem o poder de influenciá-las?

Leo não fazia uma pergunta retórica. Sua voz carregava o peso de alguém que já refletiu bastante e chegou a essas conclusões ao custo de muitas dificuldades.

— Acho que o homem já faz o que pode… Teoricamente, com seus poderes imensos, ele poderia curar qualquer velho doente ou tratar qualquer enfermidade de um plebeu com um simples comando.

— Mas isso quer dizer que ele deveria passar a vida toda dentro do hospital, salvando vidas a cada segundo que lhe sobra?

— Ou deveria fazer essa missão de reconhecimento que acabamos de fazer sozinho, só porque seria mais fácil para ele concluir assim, sem a nossa ajuda?

Leo balançou a cabeça, a resposta evidente em seus olhos.

— Não…

— Porque ele não é o único responsável por esse Cult.

— Somos todos nós.

— É o povo que escolheu esses idiotas para liderá-los.

— É o povo que democraticamente deu esse poder ao Conselho dos Anciãos.

— E, por isso, quando esses mesmos líderes decidem enviá-los para morrer, — podem realmente culpar alguém, além de si mesmos?

As palavras atingiram como um martelo e, por um instante, Veyr só pôde ficar ali, ombros lentamente abaixados,respiração irregular, enquanto a raiva drenava do seu corpo... não porque ele estivesse menos furioso, mas porque Leo tinha reinterpretado toda a tragédia de uma maneira que ele não tinha considerado.

E, agora que aquilo foi dito, ele não podia discordar.

Claro que era mais fácil responsabilizar o Soron, esperar que um só homem carregasse o peso de um mundo desmoronando.

Mas, ao imaginar caminhar pelos passos daquele homem, ao imaginar nascer com força suficiente para reescrever o destino apenas para gastar essa força consertando as picuinhas de sistemas quebrados, tudo se tornava impossível de ignorar.

O Soron é um Deus.

Ele poderia viver qualquer vida que desejasse. Poderia virar as costas para todos eles, criar um paraíso para si mesmo, e ninguém conseguiria impedi-lo.

Mas ele não fez isso.

Ele escolheu permanecer.

Escolheu sofrer.

Escolheu ficar preso no castelo de pedra de Ixtal, observando um Cult que se corrompe a cada ano, tentando, na sombra, garantir sua segurança.

E ninguém, absolutamente ninguém, tinha o direito de esperar mais dele do que isso.

— Acho que você não está errado, primo, mas ainda assim é frustrante… — argumentou Veyr, enquanto Leo concordava com a cabeça.

— É, faz sentido. Mas aguenta aí por enquanto, primo, porque logo vou bolar um plano para derrubar esses caras.

Isso eu prometo. — garantiu Leo, ao mesmo tempo em que Veyr finalmente soltava um suspiro de frustração que vinha segurando.

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