Assassino Atemporal

Capítulo 518

Assassino Atemporal

(Facção Righteous, Refeitório dos Oficiais. 7h01)

A mistura de cheiro de ovos, pão tostado e lentilhas excessivamente cozidas preenchia o amplo refeitório enquanto Leo e Veyr atravessavam o espaço com a postura de quem realmente pertencia ali—botas lustrosas, ombros alinhados na medida certa para transmitir autoridade sem arrogância, e passos suaves que ecoavam lentamente sobre as pedras limpas do piso.

Eles não olhavam ao redor nervosos ou hesitavam na entrada como se fossem convidados. Pelo contrário, percorriam o salão com a naturalidade de oficiais que já tinham feito aquilo inúmeras vezes, acenando para alguns rostos familiares que memorizaram na reunião de briefing e devolvendo os cumprimentos com a mesma tranquilidade, sem qualquer desconforto, enquanto se dirigiam à longa mesa retangular reservada exclusivamente para os tenentes base.

Veyr ajustou as mangas do uniforme quando Leo se acomodou em seu lugar habitual, à direita, na segunda cadeira a partir da cabeça da mesa, mordendo o bife de presunto que parecia um pouco borrachudo sem sequer olhar para os oficiais ao redor.

No entanto, ao seu lado, um tenente de cabelos escuros e bigode grosso torceu o nariz.

"Nossa, Larry...", murmurou, recostando-se um pouco. "Você cheira como se um rato tivesse cagado no seu cabelo."

"E não um ratinho qualquer", acrescentou outro vindo da esquerda. "Quem sabe uma prenha, que também deixou uma sujeirinha na cabeça do Aaron… O que vocês dois andaram mexendo aí?"

Todos os olhos se voltaram para Leo e Veyr, mas Leo não demonstrou incômodo algum sob a atenção pesada.

Ele simplesmente ergueu o garfo e a faca com a precisão de alguém que faria Amanda se orgulhar, cortando um pedaço de ovo com elegância e respondendo com total naturalidade: "Fomos ao escritório dos técnicos de manutenção nesta manhã para resolver aquele problema do ralo fedendo, que tava incomodando todo mundo."

Ele parou por um momento só para mastigar uma vez, antes de continuar: "Conversamos com o supervisor da limpeza, Barry. Disse que o problema precisa ser consertado hoje ou ele vai se complicar para ele; acho que um pouco do cheiro dele ainda ficou".

Veyr, já passando manteiga em um pão duro com a maior calma, concordou com a cabeça. "Deve estar resolvido antes do meio-dia. Garantimos isso."

Os demais na mesa pareceram se animar com a notícia, dois oferecendo aplausos ralos e outro levantando a xícara num brinde de escárnio.

"Pois é, essa foi a melhor notícia que tive neste mês. Tinha tristeza de entrar no banheiro todo santo dia e sentir aquele cheiro de ovos podres", disse uma mulher alta, de maçãs do rosto afiadíssimas e cabelo cobre penteado para trás. "Só perde pra pipe dream de que o novo dragão do Cult Maligno já morreu, porque são as únicas boas notícias que tenho ouvido recentemente."

Houve uma leve pausa de fração de segundo enquanto Leo e Veyr se olhavam, com Leo implorando silenciosamente para que Veyr aguentasse a onda e não reagisse.

'Não mostra nada—'

Leo pensou, antes de quebrar o silêncio devagar, erguendo a xícara em direção aos lábios.

"Não apostaria nisso", disse com tom firme e equilibrado. "Os dragões do Cult são muitos coisas, mas fraqueza não é uma delas."

Alguns acenos de cabeça surgiram na mesa, murmúrios de concordância se espalharam, enquanto a mulher de cabelo cobre, que todos sabiam ser Claire, aparentemente fingia revirar os olhos e falou entre mordidas.

"Ah, parem com isso. Vocês não entendem. Dupravel matou Noah. O dragão anterior. Aquele até a Rede Universal considerava um gênio entre gênios. E o serpente o destruiu. Então, por que vocês acham que ele não conseguiu fazer o mesmo com esse novo? Aegon, ou como se chama..."

Outro oficial riu baixinho. "Lá vem de novo com a teoria do ‘Dupravel fez isso’. Deixa pra lá, Claire."

Claire bufou. "Falo sério. Se Dupravel falhou, o Cult estaria gritando isso do topo da cidade, mostrando provas do poder do Aegon para acabar com qualquer desânimo. Mas não fizeram isso. Estão completamente silenciosos. O novo dragão deles nem apareceu em público recentemente, entende?"

Leo cortou lentamente sua linguiça, girando-a no garfo enquanto soltava um suave e calculado som de hum.

"Ou talvez eles não sintam necessidade de responder a cada boato que a mídia espalha", respondeu com tom calmo, firme e um pouco cético para manter a personagem. "O Cult manipula informações, sim. Mas nós também."

Claire deu de ombros, ainda não completamente convencida. "Ainda assim, não me parece certo. Tenho certeza de que algo aconteceu naquele dia. Algo grande."

Do outro lado da mesa, Veyr tomou um gole de água e aclarou a garganta.

"Seja lá o que for, não muda nada pra gente. Se o Aegon está vivo, ele aparece. Se morreu, a gente comemora quando tiver a confirmação. De qualquer jeito, não é nossa missão ficar especulando."

Uma breve e pesada calmaria caiu, antes que a conversa mudasse para tópicos como deslocamentos recentes, rodadas de patrulha e a chegada de um novo Major na próxima semana.

Leo manteve-se centrado, observando de tempos em tempos os oficiais, sua atenção captando desde a linguagem corporal até o tom de voz deles.

Ninguém parecia suspeitar de nada com ele ou Veyr, que pareciam ter infiltrado as tropas inimigas sem levantar qualquer alerta.

'O Cult pode até ser incompetente em muitos aspectos, mas essa técnica de [Mudança de Forma] é realmente eficaz.

Se consigo estar aqui, entre alguns dos melhores soldados, numa base inimiga, e ainda assim conseguir evitar suspeitas sobre minha verdadeira identidade, então essa pode ser a melhor fantasia do universo…' concluiu Leo, sentindo uma leve vontade de aprender as outras habilidades secretas do Cult em breve.


Às 8h em ponto, Leo começou sua ronda matinal como Tenente, coletando informações sobre a logística atual da base, os deslocamentos de tropas e quaisquer relatórios disciplinares pendentes que estavam acumulados sob responsabilidade do Tenente Larry.

Seus passos ecoaram nítidos pelos corredores do quartel do leste, enquanto ele se movia com confiança contida, com um tablet numa mão e uma caneta na outra, acenando para os guardas e escribas que se postaram em posição de atenção ao vê-lo se aproximar.

Assinou pedidos de reposição de munição e aprovou um atraso de manutenção programada em uma das torres de perímetro externo, folheando arquivos casualmente como quem já fazia aquele routine há anos, não minutos.

"Tenente", approachou um soldado com dificuldade, segurando um arquivo com ambas as mãos. "São os escalas de instrução para a semana, conforme pedido do Capitão Elric."

Leo aceitou sem parar, examinando as colunas enquanto cruzava mentalmente os números de tropas com os dados que memorizou antes de iniciar a missão.

"Adicionar uma rotina de resistência de meia hora na quarta-feira de manhã", indicou, devolvendo o arquivo. "Tem havido muitos relatos de fadiga durante patrulhas longas, vamos tratar disso cedo."

O soldado cumprimentou com uma saudação formal enquanto Leo se afastava, mantendo um ritmo que mandava atenção, sem deixar falhar a leveza do cheiro de esgoto em seu colarinho, que não conseguiu trair sua compostura.

Sabia que, na prática, o Tenente Larry cumpria sua rotina de campo matinal como sempre, aparentando estar afiado, eficiente, e com um porte disciplinado, com passos firmes, tom preciso e autoridade indiscutível.

Como ninguém desconfiava de nada diferente.

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