Assassino Atemporal

Capítulo 520

Assassino Atemporal

(Próximo dia, Base Militar da Zona Doze, Escritório do Comando Central, 10h02)

Veyr estava do lado de fora do escritório do Major, com uma prancheta na mão, postura relaxada, mas sem descuido, enquanto os guardas ao lado da porta praticamente nem o olhavam antes de abrir a pesada porta metálica e acenar para que ele entrasse.

O ambiente era simples, utilitário, mas limpo e organizado, assim como seu ocupante.

Major Halsten olhou para cima de sua mesa, olhos afiados atrás de óculos de armação fina, enquanto virava uma página do relatório que lia.

"V powered, Aaron," disse, indicando a cadeira do outro lado sem perder o ritmo. "Por favor, envie seu relatório mensal."

Veyr avançou com facilidade treinada, entregando os papéis necessários antes de se acomodar na cadeira, deixando um breve silêncio se estender enquanto o Major passava os olhos pelo topo da folha.

*Virar*

*Virar*

Quando o barulho de páginas parou, Veyr esclareceu a garganta. "Senhor, gostaria de fazer um pedido, se permitir—"

"Ah... O quê?"

"Gostaria de propor algo fora da rotina habitual... Algo para revitalizar as tropas."

Halsten levantou uma sobrancelha, mas não disse nada, incentivando Veyr a continuar.

"Já fazem mais de três décadas desde a última guerra de grande escala, e, embora a paz seja bem-vinda, ela tende a suavizar a nossa prontidão. Acredito que um exercício conjunto entre a Zona Doze e a Zona Onze seria uma medida oportuna para avaliarmos nossa real capacidade de defesa."

O Major exalou pelo nariz, colocando o relatório de lado enquanto se recostava na cadeira.

"Você acha que estamos ficando relaxados?"

"Acredito que é melhor saber que estamos afiados do que presumir isso," respondeu Veyr com suavidade. "Principalmente com o Dragão do Cult sendo alvejado recentemente. Se a retaliação vier, prefiro que não nos peguem de surpresa."

Halsten ficou quieto por um momento, os dedos entrelaçados em pensamento.

"O Cult não vai agir tão cedo. A Pride está ferida. Duvido que eles vão revidar de forma impulsiva... Além disso, segundo nossos espiões dentro do Cult, o Exército do Dragão atual mal teve seis semanas de treinamento básico. Eles de jeito nenhum estão prontos para uma guerra." Disse, por fim, com a voz firme e olhos meio semicerrados. "Ainda assim... seu ponto é válido."

Ele tocou o relatório uma vez e concordou com a cabeça.

"Pode continuar. Coordene com a Zona Onze. Escolha uma data, elabore o plano e inclua os outros Tenentes. Vamos tirar a poeira da rotina enquanto ainda temos tempo de sobra."

"Sim, senhor," disse Veyr com um cumprimento respeitoso, antes de se virar para sair.

Mas justo ao alcançar a porta, a voz do Major cortou novamente o silêncio.

"Tenente... qual é seu entendimento de quando o Cult pode atacar?"

Veyr hesitou, a mão ainda na maçaneta, sua expressão permanecendo composta enquanto seu cérebro demorava um pouco para responder.

"Não sei, senhor. Não sou muito bom em prever o futuro," disse, olhando para trás por cima do ombro. "Mas prefiro que estejamos preparados para quando esse dia chegar."

O Major soltou um murmúrio silencioso, um leve sorriso apareceu nos cantos de seus lábios.

"Você tem razão, Tenente. Agradeço por você assumir essa iniciativa. Vou garantir que isso seja refletido no seu relatório anual."

Ele voltou às suas anotações, abrindo um arquivo e acrescentando de forma quase casual: "Aliás... não se preocupe demais com nossa suposta falta de preparo. Aprendemos bastante com nossos erros nas últimas três décadas."

Seu olhar se levantou, firme e fixo.

"Então, na próxima vez que um exército do Cult tentar invadir nosso planeta... eles vão encontrar uma grande surpresa."

Os olhos de Veyr se arregalaram por um instante, mas ele rapidamente mascarou a reação com um cumprimento firme.

"Entendido, senhor."

E sem dizer mais nada, saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.

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Veyr voltou do escritório do Major com a cabeça baixa, refletindo sobre os pontos importantes que havia descoberto na conversa.

Dois pontos ficaram claramente evidentes para ele agora….

Primeiro: havia espiões dentro das fileiras do Cult, que estavam bem informados e atuantes.

Embora fosse difícil saber exatamente até que profundidade eles tinham infiltrado o Cult, pelo menos até o nível intermediário, onde a facção Justiça não precisava mais depender de scanners de longo alcance ou interceptar transmissões para coletar informações, pois assim que qualquer movimentação em grande escala fosse anunciada às tropas, a notícia quase instantaneamente chegava aos ouvidos do inimigo.

Assim que o Cult mobilizasse seus soldados, assim que o ataque ao Planeta Koral fosse declarado abertamente, mesmo sob o pretexto de preparação ou treino, alguém acabaria falando.

E a facção Justiça ouviria, e isso em tempo real, para que as providências de defesa começassem logo após.

Segundo ponto, e talvez o mais preocupante: a declaração final do Major o incomodava.

A confiança que ele parece ter em uma carta na manga, supostamente desenvolvida após aprender com erros passados, era algo que incomodava Veyr, já que variáveis desconhecidas sempre representam as maiores dificuldades.

"Precisamos descobrir a fonte dessa confiança do Major," pensou Veyr, apertando as pontas de sua relatório, enquanto seu passo desacelerava.

"Se eu for ao planeta Koral com um exército de soldados meia-boca treinados, pelo menos preciso ter certeza da estratégia, ou vou levar meus homens à carnificina."

Veyr percebeu que, após semanas lutando com sua identidade, ele finalmente começava a aceitar seu papel como Dragão e a responsabilidade que isso implicava.

Era exatamente o que Leo lhe tinha dito.

No final, essa era "sua" guerra.

O Exército do Dragão não lutava pelos Anciãos do Cult nem por sua Doutrina.

Eles lutavam por ele.

E se estivessem dispostos a segui-lo na batalha, dispostos a sangrar e morrer em um planeta estrangeiro sob céus estrangeiros, ao mínimo que ele podia fazer era garantir que eles entrassem em condições que favorecessem sua sobrevivência.

"Vou conversar com meu primo. Ele sempre vê cinco jogadas à frente, mesmo quando eu não consigo ver nenhuma. Se houver um caminho, ele vai encontrar."

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