Assassino Atemporal

Capítulo 505

Assassino Atemporal

(Fora da Cabana de Charles, a Base Militar Juxta)

O ar lá fora, perto da cabana de Charles, era frio e cortante, daquele tipo que machuca a pele de Leo só o suficiente para lembrá-lo de que o mundo ainda vive sob a carcaça metálica e disciplinada da instalação militar Juxta.

*Flick*

Como de hábito, Charles acendeu um cigarro com um movimento rápido do dedo enfeitado com sua magia, protegendo a chama do vento com a palma da mão antes de dar uma tragada longa e lenta.

*Fshhh—*

Ele exalou com calma treinada, a fumaça se curlsando para cima como se estivesse tracejando fantasmas no ar.

Durante os primeiros dois minutos, nenhum deles falou.

Leo não interrompeu. Já conhecia Charles o suficiente para reconhecer o peso de seu silêncio, quando não era vazio.

Não era que Charles estivesse tentando evitar conversa deliberadamente, mas que ele escolhia as palavras certas. Pesando-as como um açougueiro com sangue nas mãos ao decidir qual faca usar.

Após refletir bastante, ele finalmente quebrou o silêncio.

"Garoto," disse, a voz grave mais áspera do que o normal enquanto olhava de lado para Leo. "Se há uma coisa que você precisa entender sobre guerra..."

Ele parou de caminhar por meio segundo, apenas para dar uma tragada adicional, depois assoprou a fumaça pelo nariz.

"...é que não há misericórdia na guerra."

À primeira vista, parecia uma citação padrão de veterano. Daquelas que imprimem em jornais de guerra ou gravam nas paredes de quartéis esquecidos. Mas o tom na voz de Charles era tudo menos vazio. Era afiado. Pessoal. Como se estivesse descascando uma camada de pele que raramente permitia que alguém visse.

Leo olhou de relance, permanecendo em silêncio, percebendo que vinha mais coisa aí.

"A parte que eles não ensinam nas aulas ou nas simulações por vídeo," continuou Charles, "é que a verdade mais dolorosa na batalha é saber que o lado inimigo não é mau."

Ele pausing novamente, removendo as cinzas do cigarro e assistindo-as desaparecer na brisa.

"Você pode vestir seus soldados de preto, pintar o inimigo de vermelho, escrever toda a propaganda que quiser, mas no final... eles são apenas pessoas."

Sua voz baixou, e a fumaça do cigarro permaneceu entre eles como uma névoa que se recusava a se dissipar.

"Mães, pais, filhas, irmãos. Pessoas com filhos esperando por eles em casa. Pessoas que estavam rindo à mesa há duas noites, igual aos seus homens. Você se convence de que eles são monstros só pra facilitar a flechada. Mas não são. São apenas humanos… lutando pelos mesmos motivos que seu lado. Porque alguém lhes disse que tinham que lutar."

Leo sentiu alguma coisa mudar no ar ao redor deles. Não estava frio, era apenas mais pesado.

Charles retomou a caminhada.

"Deixe-me pintar uma imagem," disse ele. "Você pousa em um planeta. Desabilita as defesas aéreas deles. Empurra os soldados de volta do campo aberto para a cidade. E aí o verdadeiro inferno começa... na forma de guerra urbana."

Ele cuspiu de lado.

"Você acha que acabou quando o exército deles rompe a formação. Mas então uma mãe com um bebê lança uma granada de mão de uma janela do terceiro andar e mata dois dos seus soldados. Você acha que seus homens estão seguros ao passar por um beco, e um mendigo sem uma perna surge do nada com uma bomba de mana presa sob a roupa…

Você começa a perder soldados. Não em batalhas limpas, não em duelos. Mas em ataques surpresa. Golpes de guerrilha. Execuções na rua."

Ele deu mais uma tragada, a voz firme, mas algo por trás dos olhos dele parecer estar distante. Nublado.

"É quando você precisa tomar decisões, garoto. Decisões verdadeiras. Não aquelas em que se preocupa com honra ou títulos. Mas aquelas em que determina quais regras quebrar e quais linhas apagar."

Ele olhou diretamente para Leo novamente.

"Você diz aos seus homens que qualquer coisa que se mova é alvo. Qualquer coisa que transgrida o toque de recolher é uma ameaça. Porque se não fizer isso, quem morrerá serão seus irmãos. Seus subordinados. Sua responsabilidade."

Leo franziu a testa, o peso das palavras lentamente se fechando ao redor do peito dele como uma cerca de ferro.

Charles exalou de novo, desta vez mais lentamente, e permaneceu em silêncio por alguns passos. Então sua voz voltou, mais baixa, quase vazia.

"Mas isso nem é a pior parte."

Ele batiou na lateral da cabeça.

"A pior parte como líder militar não é lutar numa guerra… A pior parte é convencer seus subordinados de que o que fizeram… não foi maligno."

Ele olhou para o espaço à frente, observando os prédios passarem em silêncio.

"Porque se seus soldados acreditarem que são monstros… eles se tornarão monstros. É assim que funciona. É assim que você quebra homens. E uma vez destruídos, eles não voltam."

Leo inspirou fundo, tentando acalmar a agitação que fervia no seu estômago.

"Então você conta uma história para eles," disse Charles, "uma que diga que tudo foi por uma causa. Uma que diga que a velha na esquina não era inocente. Que o homem sem pernas era uma ameaça escondida. Que estavam protegendo algo maior. Que era necessário."

Ele finalmente parou de caminhar e virou completamente para encarar Leo.

"A parte mais importante de qualquer guerra não é a estratégia, nem os soldados, nem as armas. É a narrativa. A que eles acreditam. A que eles matam por. A que eles vivem por."

A voz dele rangeu um pouco, só uma vez, antes de se controlar de novo.

"Porque a guerra… transforma homens em monstros. E se você não controlar a história, alguém mais terá que fazê-lo. E essa história pode não ser uma que seu exército aceite viver."

Leo permaneceu imóvel, a brisa agitava as pontas de sua capa, e as palavras se assentaram como poeira em cada canto de seus pensamentos.

Charles olhou para ele agora com algo novo no olhar. Não raiva. Não autoridade. Mas medo. Medo real, tangível.

"Independentemente de quão ruins sejam suas táticas de batalha, garoto… não seja um Dragão Sombrio do lixo."

Ele deu um passo mais perto, baixo a voz um pouco.

"Dentro do Culto, o Dragão é a narrativa!

Não há glória maior do que seguir o Dragão na guerra.

Então, se Veyr não consegue carregar esse peso emocional… se Veyr não consegue ser o farol moral que ilumina o fardo dos homens… então tem que ser você."

Deixou a frase no ar por um instante.

"Você entende?"

Leo assentiu lentamente.

E embora não tenha dito nada, uma tempestade de pensamentos girava atrás de seus olhos.

Porque ele entendeu.

Mais do que Charles provavelmente percebeu.

E, ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, Leo se viu inseguro se poderia carregar o que lhe estavam pedindo.

Não a missão.

Não o plano.

Mas os homens.

Sua dor. Sua culpa. Seus pecados.

A história que teria que contar a eles.

E, pior ainda—

Aquela que teria que contar para si mesmo.

Pois, embora fosse um assassino.

Um bastardo frio que não pestanejou ao matar um operador de navio inocente, quando quis tomar o controle de uma embarcação por seus próprios motivos.

O que ele não era, de forma alguma, era um assassino em massa. O assassino de mulheres, crianças e deficientes inocentes.

Pois, mesmo para ele… esse pecado parecia insignificante demais.

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