Assassino Atemporal

Capítulo 481

Assassino Atemporal

(Planeta Vorthas, Capital, Um Dia Antes do Festival de Outono)

Valterri percorreu a rota da procissão pela terceira vez naquela tarde, sua capa suja de cinzas dos carrinhos de especiarias e suas botas riscadas pelo piso irregular de Riverbend Lane.

A cada esquina que passava, cada toldo que olhava para cima, cada vendedor que observava desembalando os itens do festival… ele fazia anotações mentais de tudo isso.

O treinamento de Veyr estava atualmente sendo realizado em uma instalação segura sob a autoridade direta do Decimo Segundo Ancião, o que significava que ele não tinha permissão para se aproximar. Então, em vez disso, Valterri fez a única coisa que pôde: se preparar para amanhã.

Ele não tinha ilusões sobre o perigo.

O novo Dragão não era apenas um símbolo. Ele era um alvo. Uma marca de recompensa ambulante, com a linhagem de um inimigo antigo, exibida abertamente pelo bairro mais movimentado da capital.

Valterri rangia os dentes.

Quem achava que uma aparição pública durante um festival era uma boa ideia?

Da Porta do Norte até a Hawkspire Avenue, passando por Riverbend Lane, ele rastreou cada trecho do caminho. A maioria das áreas era controlável—trocas de guarda poderiam ser triplicadas, telhados poderiam ser isolados, e sensores de mana poderiam ser calibrados.

Mas então veio o Mercado Sunsteps.

No instante em que entrou na praça de três níveis, ele soube.

Esse era o problema.

Vendedores de um lado ao outro, empilhados uns contra os outros. Bandeiras penduradas pelos telhados. Lanternas balançando ao vento. Crianças correndo entre as bancas. Encostas, escadas e pontos cegos em cada nível.

São tantos locais para esconder uma arma. Tantos pontos de elevação. Tantos civis para monitorar.

Ficou ali, de braços cruzados, observando a multidão da noite crescer.

Foi então que tomou a decisão.

"Quero segurança extra no mercado", disse ao capitão da polícia local, de tom firme e seco. "Tripliquem as patrulhas normais. E quero restringir o fluxo de pessoas."

Um breve intervalo.

"E nada de filas duplas. Não me importo se os moradores reclamarem, não deixem muitas pessoas se alinhando uma atrás da outra. Se não conseguirmos ver as mãos das pessoas lá atrás, estaremos às cegas."

Um guarda do outro lado tentou murmurar algo sobre tradição e visibilidade pública, mas Valterri interrompeu.

"A segurança do Dragão não é uma piada."

Ele se virou, escaneando novamente os prédios ao redor, desta vez com os olhos semicerrados.

Telhados inclinados com ângulos de arremesso perfeitos.

Bancas que poderiam ser derrubadas para causar confusão.

Grades soltas próximas à fonte.

Ele odiava tudo isso.

Tudo mesmo.

Eles estavam convidando um ataque. Não impedindo um.

E o pior de tudo era que, mesmo com todas as medidas de segurança, mesmo com os melhores homens do Cult de plantão, Valterri ainda não se sentia seguro. Não quando a facção justa e todos os aliados dela queriam o novo Dragão morto.

Principalmente considerando que apenas um assassino passando despercebido poderia transformar a celebração de amanhã em um banho de sangue.


Enquanto Valterri se agitava na paranoia sobre a ameaça de amanhã, em outro lugar, Veyr e Leo se preparavam para dormir, enquanto silenciosamente voltavam da instalação de treinamento secreto, em direção à agitação da cidade, a bordo de uma aeronave de levitação.

Era a véspera do Festival de Outono e o Decimo Segundo Ancião finalmente dispensou ambos, permitindo que descansem antes de se apresentarem às suas tarefas na manhã seguinte.

Leo estava relaxado, com uma perna sobre a outra, braços cruzados, o olhar distante porém tranquilo, enquanto Veyr sentava-se em frente, inclinado para frente com os cotovelos apoiados nos joelhos, seu corpo demonstrando uma tensão inquieta que não conseguia controlar.

Ele ficava olhando de relance para Leo, como se estivesse pensando se deveria ou não falar, os dedos tremendo levemente de hesitação, até que Leo finalmente arqueou uma sobrancelha e perguntou diretamente: "O que foi?"

Foi como se tivesse rompido uma barragem.

"Sabe, primo", começou Veyr, com a voz mais baixa que o normal, devagar, mais deliberada, "lá na Arena, quando você disse que não se sente adequado para ser o Dragão… na maioria dos dias, sinto o mesmo."

Ele fez uma pausa por um instante, respirando fundo.

"Quando me pedem para acenar, sorrir, aparecer e ser essa figura brilhante na frente de uma multidão, sinto como se fosse um impostor. Como se estivesse interpretando um papel que alguém mais deveria estar fazendo."

Enquanto dizia isso, seus ombros caíram, e seus olhos se fixaram no chão, como se falar aquilo em voz alta só tornasse o peso mais pesado.

"Sei o que esperam de mim amanhã", continuou Veyr, com a voz baixa. "Querem discursos, sorrisos, esperança, querem um símbolo inspirador, mas eu não sou esse cara. Nunca fui."

Ele fez uma pausa e soltou uma respiração lenta.

"Já tirei vidas. Não em combate. Não com honra.

O Quarto Ancião me deu alvos: espiões da facção justa, criminosos, insurgentes, alguns nem mais velhos do que nós. E eu obedeci sem questionar."

"As almas deles viraram combustível. Poder rápido. Força fácil."

"É isso que me construiu. Não destino. Nem heroísmo."

E agora querem me exibir como se fosse um salvador escolhido, quando tudo o que sempre fui foi uma arma que teve sorte.

Nunca deveria ter sido o Dragão."

Leo não piscou. Deixou as palavras se assentarem no ar, pendurando-as lá tempo suficiente para serem ouvidas, mas sem sentir pena.

Antes de eventualmente as dispensar com um encolher de ombros.

"Beleza", disse casualmente, como se nada disso o surpreendesse. "Vou te ensinar uma mantra secreta… mas você não pode contar pra ninguém."

Veyr piscou, surpreso. "Sério?"

Leo se inclinou um pouco, com a voz baixa e os olhos brilhando com uma zombaria séria, adicionando peso ao momento.

"É uma mantra poderosa. Antiga. Passada somente para os lunáticos mais perigosos."

Veyr riu quase sem acreditar, inseguro se Leo estava falando sério, mas curioso. "E o que acontece se eu a dominar?"

Leo sorriu, batendo na cabeça.

"Então você pode virar alguém que quiser. Veja bem, eu também tenho uma personalidade alternativa louca. Ele é frio, calculista, meio assustador na verdade. Mas ele não sou eu de verdade. É só… quem eu quero ser o tempo todo."

Ele se aproximou mais, com uma pausa dramática no ar.

"A mantra secreta é… 'finja até conseguir', porque."

Veyr piscou, depois bufou de descrença. "Sério?"

"Sério mesmo", respondeu Leo, sorrindo enquanto se apoiava de volta na cadeira. "Não importa se você não se sente o Dragão. Contanto que finja que é, continue agindo como se fosse, carregando esse peso como se fosse seu lugar, um dia você vai perceber que não está mais fingindo."

Depois disso, Veyr ficou em silêncio por um tempo.

Então, lentamente, olhou pelas janelas as luzes distantes da capital começando a piscar ao entardecer.

"…Finja até conseguir, hein."

"Funciona melhor do que você imagina", disse Leo. "E, além disso, quem mais eles vão ter como Dragão? Com certeza, você é uma escolha melhor do que eu!"

Isso finalmente fez Veyr rir.

Não forçado. Não guardado.

Somente sincero.

Conforme começava a confiar mais em Leo, aos poucos.

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