
Capítulo 483
Assassino Atemporal
Veyr usava um sorriso que não chegava aos olhos, enquanto se sentava impassível em uma poltrona de encosto alto, enquanto um semicírculo de líderes sindicais falava animadamente ao seu redor.
Seu olhar oscilava de uma face a outra, mas ele dizia pouco, acenando quando era esperado, sorrindo quando necessário, oferecendo uma leve reverência de reconhecimento quando alguém se inclinava com uma atualização particularmente entusiasmada.
"O Sindicato dos Ferreiros está 100% pronto para apoiar o Exército do Dragão, Décimo Segundo Ancião. No instante que precisarem de nós, meus homens estão dispostos a trabalhar sem parar, dia e noite, para alcançar a cota de produção!"
"Já começamos a expandir as terras cultiváveis sob nosso controle," acrescentou outro líder, ajustando a túnica. "Mais e mais hectares estão sendo recuperados das florestas selvagens. Se o clima facilitar e os novos canais de irrigação forem concluídos a tempo, nossos números de produção devem aumentar entre dez e quinze por cento no próximo ano."
As vozes deles se misturavam… planos, promessas, compromissos — todos falados com orgulho firme e fogo patriótico.
Mas para Veyr, tudo parecia estranhamente distante.
Ele permanecia como uma estátua polida no centro de tudo. Não era inteligente o suficiente para contribuir. Não tinha sorte suficiente para ser dispensado.
Não era que ele não gostasse deles. Apenas que nada disso era o que ele tinha treinado para fazer.
Ele era um guerreiro.
Seu trabalho deveria ser guerra.
Mas, no momento, era tudo menos guerra.
Números, hectares e cadeias de suprimentos pouco significavam para ele em um nível pessoal. Mas ainda assim, ele escutava. Porque o Dragão deveria ouvir.
Porque isso também fazia parte do papel.
"Senhor… chegou a hora. O Carro da Celebração está pronto."
Uma voz suave chamou sua atenção, enquanto um servo se curvava diante do Décimo Segundo Ancião, que assentiu silenciosamente atrás da máscara de sua viseira, levantando-se lentamente.
Ele não falou. Apenas gesticulou calmamente para que o resto o seguisse.
Veyr levantou-se sem uma palavra, com o corpo rígido sob o peso das vestes, enquanto Valterri acelerava seus passos atrás dele. Os líderes sindicais seguiram logo depois, ajustando os foulards e endireitando a postura como se estivessem se preparando para serem vistos pela história.
Juntos, saíram do salão comum e caminharam até o palco alto que os aguardava lá fora.
O Carro da Celebração.
Um palco cerimonial móvel, construído como uma grande embarcação de transporte, com teto aberto, corrimãos dourados e bandeiras vermelhas profundas ao vento de todos os lados.
Parecia algo tirado de um mito, vestido com luzes de festival.
Veyr subiu ao palco, acompanhado pelo Décimo Segundo Ancião, Valterri, as guardas pessoais do Ancião e os nove líderes sindicais, cada um encontrando seu lugar na supercie superior.
O motor se agitava.
E lentamente, o Carro começou a mover-se, suas rodas passando pelos portões de ferro dos aposentos privados do Décimo Segundo Ancião e chegando à rota principal do cortejo, onde milhares se reuniam.
E foi aí que a multidão o avistou.
O Dragão.
De imediato, um rugido ensurdecedor ressoou.
*Aplausos*
*Gritos*
Vivas entusiásticas explodiram como trovão, saindo das gargantas de todos os civis presentes, enquanto o desfile começava com força, com Veyr ereto no centro da homenagem.
Pétalas de flores levantavam-se ao ar em rajadas coloridas, enquanto famílias inteiras se empurravam para chegar mais perto das grades de proteção, ajudando crianças a subir em seus ombros ou simplesmente chorando de tanta alegria ao verem o Dragão.
Mulheres idosas seguravam rosários e se curvavam com as mãos trêmulas, murmurando bênçãos por uma geração que jamais imaginavam ver na vida.
Jovens gritavam cânticos de guerra com vozes roucas de orgulho, prometendo beber até desmaiar cada vez que o Dragão conquistasse um novo planeta para o Culto.
Comerciantes abandonaram suas bancas só para dar uma espiada no Dragão.
Artistas rabiscavam freneticamente de telhados, tentando eternizar o momento.
Praticamente em todos os locais por onde o Carro passava, parecia um sonho colidindo com a realidade.
Para a maioria ali, era uma visão única na vida. Uma figura sagrada não vista por transmissão ou contada em histórias, mas respirando, acenando, de pé a menos de cinquenta metros de distância.
Veyr sorriu. Acenou. Assentiu com a postura de um líder nascido para o destino.
Mas por dentro, seus pensamentos fervilhavam como águas de tempestade sob um vidro tranquilo.
'Será que é assim que deve se sentir ser o Dragão?’
Ele via os olhos deles, cheios de admiração. As bocas, abertas de crença. Seus gritos, ensurdecedores na sinceridade.
E ainda assim, não conseguia silenciar a ideia que insistia na sua cabeça, como uma pedra na garganta.
'Acham que sou alguém que não sou.'
'Eles acreditam em mim a ponto de me venerar, mesmo sem eu ter feito algo que o justifique.'
Seus lábios permaneciam em um sorriso, sua mão nunca se soltava, mas por trás de cada gesto perfeito, uma voz silenciosa sussurrava para si mesmo:
'Finja até realmente acontecer, Veyr.'
'Continue fingindo.'
'E talvez um dia… não pareça mais mentira.'
Logo atrás, Valterri ficava com uma mão descansando levemente na empunhadura de sua espada, olhos atentos e escrutinando.
Ele não compartilhava da alegria. Não acenava. Não sorria.
Cada vez que alguém se aproximava demais, toda vez que uma multidão se agitava rapidamente, ou que um pedaço de metal reluzia ao sol, seu aperto na arma se intensificava, seus músculos se tensionavam, pronto para atacar.
Porém, não o fazia.
Pois aquelas falsas o alarmes não indicavam inimigos de verdade.
Somente cidadãos devotos que haviam enlouquecido um pouco ao ver o Dragão.
"Não gosto disso… Não gosto nem um pouco. Já avisei os guardas locais várias vezes que não podem permitir filas duplas, mas essa multidão não tem ordem nenhuma.
Isso é um pesadelo na segurança," murmurou, rangendo os dentes de raiva.
E mesmo com toda sua frustração, ele não agiu por impulso. Não podia se dar a esse luxo.
Porque, em uma situação como aquela, sacar a espada sequer uma vez poderia causar uma confusão que sairia do controle rapidamente.
Então, continuou respirando. Continuou observando.
Pois, goste ou não, era o último escudo entre o Dragão e qualquer um que quisesse feri-lo.
E não havia espaço para erros.