
Capítulo 468
Assassino Atemporal
(O Jardim Eterno)
As folhas de chá que Kaelith começara a preparar ainda não tinham totalmente infundido quando Mauriss quebrou o silêncio novamente, com uma voz descontraída, quase amused, como um artista admirando a ruína que acabara de pintar junto.
— Então. Vamos falar do elefante na sala? Do assunto pelo qual nos reunimos aqui? — perguntou, enquanto Kaelith exalava de forma abrupta pelo nariz, já se arrependendo de não ter envenenado o chá.
Mauriss continuou sem esperar permissão, flutuando um pouco mais acima de seu assento de pedra-dos-sonhos. — Se o Culto tem acesso ao Metal da Origem… e Soron está realmente se preparando para fundi-lo, então tudo muda. Vocês dois sabem disso, — afirmou.
— Os seis grandes clãs podem reconsiderar o apoio ao Governo Universal se perceberem que suas vidas estão em risco.
Depois de tudo, não dá para saber o que Soron pode fazer com uma lâmina dessas.
Quer dizer, ele é filho do Assassino Atemporal… Talvez decida começar a caçar quem traiu seu pai e os elimine como quem mata gafanhotos, — sugeriu Mauriss, encolhendo os ombros com despreocupação.
Kaelith inicialmente ficou em silêncio, concentrado em servir o chá de tom dourado pálido em três xícaras. A vaporosa espiral subia em silêncio como se tentasse escapar do peso da conversa.
— Prefiro evitar fazer suposições catastróficas antes de provas concretas, — respondeu, entregando uma xícara a Mauriss e dirigindo uma também a Helmuth, que a empurrou com um suspiro de desdém.
— Mas se a pior hipótese confirmar-se, — continuou Kaelith, — uma única Lâmina da Origem nas mãos de Soron desequilibraria bastante o poder no universo.
Nós não queremos admitir, mas até nossa força combinada talvez não seja suficiente para detê-lo de vir atrás de nós como um louco, se ele empunhar uma arma forjada na própria essência da existência. —
Mauriss tocou a borda de sua xícara com reflexão.
— Isso explicaria os movimentos repentinos dos Cultos. Por que eles nomearam um Dragão após tanto tempo, e por que têm agido recentemente. Soron deve estar se sentindo bastante confiante. —
Ele sugeriu, enquanto os dedos de Kaelith ficavam rígidos. Ele relutava em admitir, mas a lógica fazia sentido.
Mauriss então olhou para Helmuth, seus olhos estreitando-se um pouco. — Se Soron entra em um buraco negro para preparar o metal da origem para a tempera, há uma grande chance de que os ferreiros altamente qualificados dentro do Culto o transformem numa lâmina sem paralelo. —
Em um ambiente assim, talvez seja hora de reconsiderar nossa estratégia para exterminar o Culto.
Vamos dar um passo atrás, permitir que o Culto expanda suas fronteiras um pouco mais.
Renegociar um pacto de paz que garanta uma trégua de cem anos. —
Kaelith assentiu com relutância.
— Uma estratégia de contenção. Não ideal, mas melhor do que uma derrota em escala galáctica. —
Kaelith concordou, embora Helmuth parecesse desanimado.
— Vocês dois são patéticos. — insultou, enquanto Kaelith cerrava a mandíbula, e Mauriss apenas levantava uma sobrancelha.
— Você acha que o Soron já forjou a lâmina? — perguntou Helmuth, com o pescoço estalado. — Você acha que ele teve tempo de entrar em um buraco negro e sobreviver ao ciclo de queima? Isso exige preparação, e acho que ele ainda não teve. Ainda não. —
Ele caminhou até a borda do pavilhão, olhando para o vasto teto prateado do Jardim Eterno, que cintilava sob a luz fragmentada do sol artificial acima.
— Se vamos atacar, que seja agora. Enquanto ele está vulnerável. Enquanto ele está distraído treinando aquele idiota que ele ergueu como herdeiro. Se querem ficar aqui como covardes e assinar tratados, tudo bem. Mas me entregue a lâmina herdada de seu pai, Kaelith. Eu a tomarei, entrarei em Ixtal e matarei o Soron antes que ele termine de forjar qualquer coisa. —
Helmuth anunciou, e o Jardim eterno ficou em silêncio por um instante.
— De jeito nenhum. —
Veio uma voz furiosa segundos depois, enquanto Kaelith se levantava e apontava um dedo para Helmuth, formando uma porrete com o punho fechado.
— Se eu te der essas lâminas e te mandar atrás do Soron, você não sairá delas ileso. Na verdade, duvido que saia vivo. Você já lutou contra ele antes e quase morreu — e isso quando ele não carregava uma arma capaz de te apagar da história. —
Se esqueceu, né? Ele não precisa necessariamente de uma lâmina para te matar. —
Com um pedaço de metal da origem na mão, ele pode te espancar até a morte —
Helmuth se virou lentamente, e desta vez, o fogo em seus olhos não era apenas fúria comum. Era uma raiva primal.
— Então, o que valem essas suas lâminas se você não as vai usar? —
Você as guarda, como um covarde. Como um colecionador com medo de perder suas preciosidades. —
Helmuth reclamou, enquanto a expressão de Kaelith permanecia impassível.
— Não. Estou as preservando, usando-as como dissuasão para manter sob controle os seis grandes clãs e o Culto do Mal. — explicou Kaelith, enquanto Mauriss assobiava baixinho e colocava seu chá no braço da cadeira.
— Lá vem história de novo. — disse Mauriss, já esperando outra briga, enquanto Helmuth avançava, o chão gemendo de calor sob seus pés.
— Você sabe que não é nada sem essas lâminas, certo? Sem elas, você não passa de um Deus entre os seis grandes clãs. —
— A única razão de você estar na mesma equipe que eu e Mauriss é por possuir essas malditas lâminas. — lembrou Helmuth, enquanto Kaelith invocava uma adaga de origem de seu espaço da alma e apontava para o Berserker.
— Quer me lembrar por que sou o líder do grupo e não você? — disse Kaelith, enquanto Mauriss aplaudia baixinho e sussurrava "Luta, luta, luta".
Helmuth não respondeu à ameaça de Kaelith; apenas bufou e desviou o olhar.
Apesar da ostentação de Helmuth, a verdade era que os três estavam igualmente equilibrados em poder, e nenhum deles poderia derrotar o outro sem sofrer consequências severas.
E assim, no final, Helmuth não tinha alternativa senão recuar de uma luta direta com Kaelith.
— Ainda não vamos destruir o jardim. — falou Mauriss, surpreendentemente tentando fazer a paz pela primeira vez. — Kaelith não vai abrir mão das lâminas. Helmuth quer guerra. Eu quero informação. Então… que tal o seguinte—
Ele flutuou um pouco mais alto, enquanto seus dedos traçavam círculos preguiçosos no ar, formando projeções ilusórias de Ixtal, da última aparição de Aegon Veyr e fragmentos dos movimentos conhecidos do Culto no último mês.
— Vamos provocar o Soron. Não diretamente. Não com naves. Vamos atacar onde importa emocionalmente. Symbolicamente. Vamos matar o novo Dragão. —
Os olhos de Helmuth se estreitaram. — Dentro do território do Culto? —
Mauriss confirmou com a cabeça. — Se o novo Dragão morrer dentro das terras deles, e o Soron não responder, sabemos que ele está realmente concentrado… talvez até dentro de um buraco negro. Mas se responder, então medimos a resposta. Assinaturas de aura. Dilações no tempo. Pressão divina. Assim, saberemos se a lâmina foi forjada — sem sequer entrar em campo. —
Helmuth pigarreou baixinho. — Você acha que matar o garoto vai ser fácil? —
— Não disse que seria fácil. Mas acho que temos sacrifícios suficientes para fazer isso acontecer. —
Kaelith permaneceu em silêncio por um longo tempo.
Depois finalmente assentiu uma vez.
— Quem você tem em mente? Já mandei meu filho para as fronteiras de Juxta, mas o Soron já marcou ele… —
Helmuth estalou o pescoço de novo, depois bateu o punho com a armadura na palma aberta.
— Posso enviar meu exército de berserkers, eles devastarão alguns planetas. —
Mauriss bufou. — Não. Você começará uma guerra aberta se fizer isso, e o que queremos é stealth, não espetáculo. —
— Vamos escolher alguém que seja descartável. Capaz, mas que possa ser dissimulado. E se falhar, sem prejuízo. Se der certo… o Soron não terá escolha além de mostrar sua mão. —
Por um breve momento, todos os três deuses concordaram.
Raro. Tenso. Frágil.
O tipo de acordo que, historicamente, sempre precede uma carnificina, enquanto Kaelith mais uma vez volta a seu chá.
— Então, ficou decidido. Vamos mirar no Dragão. E sondar a resposta do Soron. —