
Capítulo 469
Assassino Atemporal
(Planeta Tithia, alguns dias após Aegon Veyr ser coroado Dragão)
Seguindo a tradição, assim que um novo Dragão era coroado, realizava-se um torneio entre os guerreiros mais renomados do Cult que ainda não estavam comprometidos com o exército.
O único objetivo desse torneio era escolher quem serviria como guarda pessoal do Dragão.
O título conferido a esse guerreiro era "Escudo do Dragão"—um nome que carregava tanto prestígio quanto uma herança dolorosa, pois, historicamente, o Escudo quase sempre morria antes do próprio Dragão.
Eles eram encarregados, desde o momento da escolha, de se colocarem em risco, bloquear feitiços, receber golpes destinados a outro, saltar na frente da morte e morrer com um sorriso, contanto que o Dragão pudesse lutar mais um dia.
Era uma honra que só os guerreiros mais fortes, leais e altruístas podiam sonhar em alcançar.
E desta vez, a disputa por essa posição foi de uma brutalidade tamanha, que cada prodígio jovem que se achava digno avançou, desesperado para conquistar seu espaço e oferecer sua vida em nome do novo messias do Cult.
No entanto, apesar da enxurrada de jovens corajosos entrando na arena, cada um mais rápido, mais forte ou mais vistoso que o outro, havia apenas um homem de meia-idade que lutava com propósito, não por orgulho.
Valterri. Um guerreiro de 42 anos, construído mais como uma fortaleza do que como um homem, que entrou no ringue não para provar nada ao mundo, mas para cumprir um legado incompleto.
Ele não era o mais rápido, nem o mais tecnicamente talentoso. Havia pelo menos cinco outros que poderiam superá-lo em um duelo direto, e talvez ainda mais que dominavam artes marciais raras, herdadas de linhagens ancestrais.
Mas Valterri tinha algo que eles não tinham.
Determinação.
Um tipo de convicção inabalável, profunda na alma, que não pode ser ensinada nem imitada.
Ele lutava com paciência, enquanto outros lutavam com fogo.
Ele protegia, enquanto outros tentavam impressionar.
E ele resistia, golpe após golpe, combate após combate, até que seu último adversário—uma prodígio de 31 anos, com reflexos de raio, caiu de exaustão, incapaz de romper a muralha de força de vontade que Valterri se tornara.
A decisão foi unânime.
O próximo Escudo do Dragão havia sido encontrado.
E assim como seu velho pai, o mesmo homem que já serviu a Noah Ashburn e morreu defendendo a linha durante a emboscada infame dos Serpentes Negras, Valterri também agora assumia o papel de protector.
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(32 anos atrás, em um campo de batalha desconhecido)
"Lembre-se, Valterri… o Conselho dos Anciãos não é o que parece. Nós fomos armados contra nós mesmos. Alguém traiu o Lorde Noah—" disse James, ao colocar um amuleto de furtividade em seu filho, Valterri, que tinha apenas 10 anos na época.
"Mas por quê, pai? Por que alguém dentro do Cult trairia o Dragão? Não estamos do mesmo lado? Não são os monstros da Facção Justa?" perguntou Valterri, lágrimas escorrendo pelo rosto, mesmo naquela infância, ele já tinha consciência de que era um adeus.
"Nós somos todos monstros, Valterri.
Uns só são melhores em esconder isso.
Os Anciãos falam de virtude, mas desejam poder.
Condenam o mal, mas justificam seus próprios pecados.
Quando crescer, lembre-se: os maiores crimes não os cometem os vilões,
mas aqueles que se acham justos.
Um homem convencido de sua própria virtude justifica qualquer crueldade e traição.
E, por isso, ele é muito mais perigoso do que quem sabe exatamente o que é.
Nada é mais fácil do que condenar o criminoso.
Por outro lado, entender quem ele é, é algo muito mais difícil.
A linha entre o bem e o mal não passa entre facções ou classes—
ela atravessa cada coração humano.
Não confie naquele que se gaba de sua bondade.
Confie naquele que conhece sua própria escuridão e a domina." disse James, ao acariciar carinhosamente a cabeça do filho uma última vez, antes de se virar para ir embora.
"Cresça forte e forte, Valterri... E, quando o próximo Dragão for coroado, proteja-o melhor do que eu," disse James antes de partir, enquanto Valterri corria para se esconder atrás de uma árvore.
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(Dia atual, Planeta Tithia)
Valterri ficou sozinho na câmara pouco iluminada, com as mãos apoiadas no lavatório frio, enquanto gotas de água escorriam pelo seu rosto e pingavam silenciosamente na pia.
O espelho à sua frente estava arranhado e opaco, marcado pelo tempo, mas ainda refletia o suficiente para mostrar quem ele se tornara.
Ou melhor, o homem que ele esperava ser hoje.
Ele respirou fundo, olhou nos próprios olhos e viu nada de extraordinário. Sem brilho de vida. Sem traços da ferocidade de seu pai. Apenas um garoto que cresceu sob a sombra de uma lenda que nunca teve a chance de sepultar.
As mãos cerraram-se em punhos brancos enquanto ele apertava o vaso com mais força.
Hoje era o dia.
O dia em que ele finalmente entraria em algo maior do que si mesmo.
O dia em que ele deixaria de ser apenas "Valterri, filho de James."
Hoje, ele se tornaria o Escudo do Dragão.
*Suspiro*
Expirou lentamente, respirou fundo, e então pegou o fecho de sua couraça cerimonial. Recém-forjada, com o sigilo do Culto da Ascensão, ainda sem marcas, ainda perfeita.
Porém, sabia que logo a mancharia.
Certamente, isso aconteceria.
"Não vou vacilar," sussurrou ao espelho, com voz firme e baixa. "Não vou falhar."
Seus dedos tocaram a ponta do amuleto escondido sob a túnica—um pedaço de ferro desgastado pelo fogo, negro, que era tudo o que sobrara do cabo da espada de seu pai, após a emboscada dos Serpentes Negras anos atrás.
Nunca encontraram o corpo.
Porém, viram o bastante para enterrá-lo.
E desde aquele dia, Valterri treinou sempre com um objetivo: —não por vingança, não por reconhecimento, mas para fazer aquilo que seu pai não pôde.
Resistir.
Perseverar.
Proteger.
Não importava o que acontecesse, o Dragão não cairia… não na minha vigilância.
Enquanto meu coração ainda bater.
*Splash*
Enxaguou o rosto uma última vez, endireitou-se e virou-se do espelho sem hesitar.
O corredor do além aguardava.
Assim como o Dragão, Aegon Veyr.
E Valterri Valtanen finalmente estava pronto para servir.