Assassino Atemporal

Capítulo 470

Assassino Atemporal

(Planeta Tithia, Mansão do Dragão, ponto de vista de Aegon Veyr)

Desde os cinco anos de idade, Aegon Veyr já sabia como agir com força.

Sabia como inflar o peito, erguer o queixo, caminhar como se fosse dono da sua rua, e falar como se o mundo lhe devesse ar. 

Isso era o que ter sido um órfão de rua nos bairros mais afastados de Tithia lhe ensinou... Que, se você não exigisse respeito, era invisível, e se não lutasse pelo seu lugar, não tinha nenhum.

Mas, desde que o Manto do Dragão foi colocado sobre seus ombros, ele começou a sentir algo que nunca tinha experimentado antes.

Dúvida inquietante, que o levava a questionar se os ideais que ele acreditava serem a verdade absoluta, ainda eram válidos agora que ele era o Dragão?

Porque, ao invés das ruas frias de Tithia, onde dormia com regularidade, agora ele estava cercado pela câmara cerimonial do salão central, um lugar demasiado polido para alguém como ele, repleto de cristais de mana brilhantes e pisos de mármore polido que cintilavam com encantamentos decorativos.

Podia ouvir cânticos ecoando lá fora… camponeses que se agrupavam do lado de fora de sua mansão em centenas.

Eles entoavam seu nome, elogiavam sua sabedoria, veneravam sua existência como se fosse uma resposta divina a uma pergunta que ninguém sequer lhe fizera.

E aquilo o fazia se sentir mal.

Ele não merecia isso. Nem de perto. Nem agora.

Não depois do que Leo Skyshard lhe fez.

Os punhos de Veyr cerraram-se ao lado enquanto a lembrança da derrota se fazia presente, arranhando sua mente.

Aquele momento.

Aquele momento humilhante, que destruía sua esperança.

Um Transcendente, derrubado por um Grande Mestre.

Um prodígio sem igual, caído de joelhos por um homem que lhe mostrou o que é talento de verdade.

E, depois, ser desprezado.

Não com dó.

Mas com crença.

Como se Leo, o mesmo guerreiro que o derrotara, ainda visse algo importante nele.

Algo que o fizesse, voluntariamente, abrir mão do título.

Algo que o levasse a dizer: "Você é a melhor escolha para se tornar o Dragão".

Pois foi esse gesto preciso que quebrou Aegon.

Porque, até então, ele construíra sua identidade ao redor da força. Ao redor de vencer. Ao redor de ser aquele que eles poderiam subjugar, mas nunca negar.

E, de repente, naquele momento, ele passou a enxergar uma verdade alternativa.

Uma verdade em que ele não era o mais forte. Não era o único com sangue divino, e não era o único considerado especial.

Ele era apenas... escolhido.

E não pela sorte.

Mas por escolha de alguém.

Então, agora, com o peso daquele manto sobre suas costas como um pano molhado, Aegon tentou mudar.

Ele tentou se tornar mais digno de carregar o título de Dragão.

Ao perceber que foi simplesmente escolhido para o papel, e não nasceu para ele, começou a trabalhar para justificar que a escolha de fazê-lo Dragão foi, de fato, a certa.

Passou a ser mais calmo, mais régio, mais articulado em público.

Mudou a postura ao sentar, ajustou o tom de voz, forçou-se a acenar educadamente para os camponeses que, uma vez, cuspiram nele furiosos na rua.

Falava mais devagar. Caminhava mais reto.

Tentou imitar os Dragões de antigamente, cujas estátuas agora se erguiam atrás dele em cada sala que entrava.

E, ainda assim, de alguma forma, nunca se sentiu realmente parte.

"E se eu decepcioná-los todos?"

Esse pensamento tornou-se constante, consumindo-lhe a mente.

E foi nesse estado frágil de fingimento e pressão que entrou o homem.

Valterri Valtanen.

O Escudo do Dragão.

A chegada dele foi silenciosa, seus passos discretos, mas ainda assim carregando a gravidade de um guerreiro que sabia estar se oferecendo para a morte.

Veyr virou-se para encará-lo exatamente quando o homem parou a dois passos e se ajoelhou.

O gesto pareceu excessivamente formal.

Demasiado pesado.

E fez a garganta de Aegon ficarem secas.

"Meu Senhor," disse Valterri, com voz baixa, composta, e leal de uma forma que fazia o estômago de Aegon revirar. "Sou Valterri. Seu Escudo a partir de hoje. Que eu morra antes de permitir que qualquer mal lhe aconteça."

Falou isso sem piscar.

Como se já estivesse decidido.

Aegon o observou por um momento, sem saber o que dizer.

Valterri tinha ombros largos, rosto sério, facilmente duas vezes mais velho que ele e parecia do tipo de homem que não precisava fazer ameaças para vencer guerras.

E mesmo assim, aqui estava... ajoelhado diante dele, como se fosse a salvação divina de Valterri.

E eram momentos como esses que faziam Veyr querer arrancar o título ridículo e gritar que ele pertencia a outra pessoa.

Porque como um órfão como ele poderia aceitar que um verdadeiro cavaleiro, um guerreiro de verdade, estivesse se curvando diante dele?

Mas, ainda assim, engoliu o incômodo, empurrou para longe e tentou falar o mais neutro possível.

"Sua idade?" perguntou, tentando evitar o constrangimento focando em detalhes menores.

"Quarenta e dois," respondeu Valterri, com cabeça ainda abaixada.

"E seu nível?"

"Transcendente."

Isso fez Aegon hesitar.

Ele não esperava por essa resposta. Franziu um pouco os olhos, notando as linhas grisalhas na barba de Valterri e o aspecto envelhecido do cabelo e dos olhos.

"Você é Transcendente? Então por que esses grisalhos na cabelo e na barba? Não é comum alguém no nosso nível manter a aparência jovem até os 200 anos?"

Não havia acusação em seu tom—apenas uma dúvida genuína.

E Valterri, para sua concessão, não se alterou ou vacilou com a pergunta.

Simplesmente inclinou um pouco mais o queixo para baixo.

"Domo ela gris, meu Senhor," disse com a voz calma e firme. "Ajuda-me a parecer com meu pai."

Aegon piscou surpreso.

Não esperava essa resposta.

Por um lado, queria dizer para ele parar de parecer mais velho do que realmente era.

Para que não suasse a imagem pessoal apenas para carregar a lembrança de alguém que não era seu próprio passado.

Mas, por outro lado... ele entendeu.

E, por entender, não disse mais nada.

Apenas assentiu uma vez e deixou passar.

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