
Capítulo 467
Assassino Atemporal
(Jardim Eterno, Mansão Kaelith)
Se havia uma coisa que Kaelith odiava mais do que sair do Jardim Eterno, era permitir que bestas rudes entrassem nele, contaminando sua santidade com sua barbaridade e falta de bom gosto.
E hoje, infelizmente, foi um daqueles dias raros e azarados.
Mauriss, o Enganador, chegou primeiro.
Como sempre, despido até a cintura, com o peito nu e sem se importar, a pele pálida e lisa como se nunca tivesse sido beijada pelo sol, enquanto seus longos cabelos de ébano flutuavam de forma estranha acima da cabeça, suspensos por um tênue campo de estase, movendo-se levemente a cada passo, como se a própria gravidade se curvasse diante dele.
Kaelith, ereto e vestido com robes de seda fluidos, costurados com fios celestiais, estreitou os olhos ao olhar para o peito exposto do homem e logo virou o rosto, aborrecido com o fato de que os mamilos de Mauriss pareciam sempre apontar bem na direção dele, como se estivessem em confronto perpétuo com o universo.
Ele odiava isso.
Não por ser vulgar, embora fosse. Mas por ser intencional. Uma zombaria calculada à elegância, feita para perturbar e desarmonizar a harmonia que Kaelith havia trabalhado milênios para construir, aqui no Jardim Eterno.
Então veio Helmuth.
O bastardinho.
Kaelith nem precisou virar-se para saber que ele tinha chegado.
Pois o odor horrendo foi o primeiro a atingir o olfato: azedo, pungente, metálico, uma mistura de sangue, suor e carne queimada, como o interior de um frigorífico que nunca tinha sido limpo.
Um cheiro que imediatamente ofendeu a flora do Jardim Eterno, enquanto flores recuavam e trepadeiras se retraíam instintivamente para o solo, tentando escapar da maldição fétida que acabara de cruzar o limiar.
Helmuth avançava com passos pesados e pesados, a pele que antes era pálida como mármore, há três milênios, agora manchada de vermelho-preto — anos de derramamento de sangue impregnados em seus poros, sem nunca terem sido lavados.
Segurava seu machado como se fosse um acessório casual, carregado às costas como uma criança carregaria um brinquedo.
Mas aquele machado não era nada inofensivo.
No instante em que a lâmina arranhou o solo do Jardim Eterno, uma onda visível de decadência explodiu a partir do ponto de contato, fazendo as plantas dentro de um raio de dois metros murcharem até virar cinza, deixando um anel de podridão gravado na visão de Kaelith.
A mandíbula do Soberano Eterno apertou.
Porém, ele não disse nada.
Como sempre, permaneceu em silêncio.
Porque, apesar de ser talvez a criatura mais refinada, inteligente e esclarecida que existia, também era um realista.
E a realidade do Governo Universal era que seu poder sobre os seis grandes clãs descansava exatamente nessa trindade profana.
Kaelith, a Face.
Mauriss, a Mente.
Helmuth, a Espada.
Eles não se davam bem, nem um pouco. Mas, a cada algumas décadas, quando surgiam ameaças que até seus deuses delegados não conseguiam lidar, ou quando assuntos delicados demais para subordinados exigiam intervenção direta, eles se reuniam.
E hoje era um daqueles dias amaldiçoados.
Kaelith permanecia no centro de seu pavilhão de mármore, rodeado por fontes de água cristalina e árvores de folhas prateadas que brilhavam, enquanto seus olhos oscillavam entre as duas bestas à sua frente.
Uma exalava magia da gravidade e manipulação.
A outra exalava sangue e morte.
Tudo o que ele queria de verdade era que aquela reunião terminasse antes que algum dos dois respirasse fundo demais e matasse mais uma orquídea.
"Sejam bem-vindos", disse Kaelith, sua voz calma como um lago sob a luz da lua, sem demonstrar qualquer aversão enquanto apontava para dois assentos esculpidos em pedra dos sonhos, colocados exatamente à mesma distância dele.
Helmuth ignorou a cadeira completamente e caiu no chão com um resmungo, cruzando as pernas com um estrondo enquanto suas botas com armadura de metal esmagavam alguns trevos sagrados do jardim.
Mauriss, claro, também não se sentou. Deslizou com preguiça, deixando as pernas se dobrarem no ar enquanto pairava poucos centímetros acima do assento, arrogante demais para tocar algo que alguém mais construiu.
O olho de Kaelith fisgou.
Mas, novamente, nada disse.
Pois logo o tema mudou para o Culto do Mal, e todos os três tinham algo a acrescentar sobre isso.
"Foi uma imprudência sua, Mauriss, dar a alguém as coordenadas exatas do maior depósito conhecido de Metal de Origem no universo", disse Kaelith, sua voz suave, porém firme, como seda que oculta aço sob sua trama.
"Se o garoto do Skyshard realmente entregou ao Cult… a Soron… então talvez tenhamos acabado de dar a ele a única coisa que poderia desequilibrar a balança. Com uma Lâmina de Origem na mão, Soron se tornará uma ameaça que ninguém aqui está preparado para enfrentar."
Helmuth soltou uma risada torácica, carregada de desdém, enquanto estalava os dedos preguiçosamente contra o joelho.
"Só você tem medo do seu irmão, covarde que mata pai. Eu não tenho", disse ele, com voz áspera como pedra derretida triturando ferro. "Eu luto com ele qualquer dia. Pode apostar, até hoje eu enfrentaria."
Mauriss exalou pelo nariz, divertido, enquanto os cantos da boca se curvavam em um sorriso frio.
"Sim, lembramos bem como foi da última vez que você tentou." Sua voz escorreu sarcasmo. "Seu machado quebrado. Seus membros decepados… até aquela expressão vazia no rosto enquanto desmaiava de tanta perda de sangue, se contorcendo como uma besta morrendo, enquanto Kaelith e eu tínhamos que limpar sua bagunça."
Helmuth tremeu, o músculo no pescoço saltando, enquanto virou a cabeça rapidamente para Mauriss, de modo tão súbito que até o enganador indiferente recuou meio passo por instinto.
A ação foi sutil, mas Kaelith percebeu. Uma onda de medo, crua e primal, passou pelos olhos de Mauriss por um instante.
"Era isso que eu pensava, Garotinho do Oceano", Helmuth disse com uma zombaria. "Até hoje, vocês dois sabem que não podem me enfrentar, a não ser que Kaelith comece a balançar aquelas espelhinhas herdadas que o pai deixou. Em todo este universo, só tive um verdadeiro rival, e era o Assassino Atemporal. Nenhum dos filhos dele, nem você, nem Soron, chegou perto dele."
Sua voz caiu uma oitava, ressoando como trovão antes da tempestade.
"Mas ainda vou lutar contra Soron. Porque, além de mim, ele é a única criatura nesta galáxia capaz de dividir planetas ao meio só de piscar demais."
Quando essas palavras saíram da boca dele, ambos, Kaelith e Mauriss, irradiaram suas auras, fazendo o ar ao redor deles brilhar violentamente enquanto a pressão divina transbordava pelo jardim como uma súbita inundação.
Aura de Kaelith exalava uma elegância gelada e fúria celestial, assumindo a forma de vinhas espectrais feitas de luz estelar, cada folha gravada com runas mais antigas que a própria história escrita.
As flores ao seu redor desabrocharam com velocidade anormal, logo murchando sob a energia crescente, suas pétalas se enroscando em cinza que flutuava em espiral perfeita para cima.
A energia de Mauriss era mais caótica, como um vórtice giratório de trovões e fogo, que se enrolava para dentro como se tentasse consumir a própria realidade.
As águas dos lagos próximos começaram a ferver ao contrário, gotas congelando enquanto subiam no ar, suspensas por tempo e espaço distorcidos.
Para não ficar atrás, Helmuth respondeu na mesma moeda, sua essência divina explodindo como um vulcão rompendo o céu.
Chamas negras escorriam de seus poros enquanto relâmpagos vermelhos cortavam o ar, queimando as árvores de folhas prateadas ao redor, enquanto o chão sob seus pés se abria em fissuras, soltando vapor da camada mais profunda do planeta.
O Jardim Eterno, antes um santuário de equilíbrio e tranquilidade, agora parecia o prelúdio de uma tempestade apocalíptica.
O tempo vacilou, o espaço se distorceu, e por um breve instante, as próprias leis da física pareceram se curvar sob o peso do confronto de três deuses que não tinham intenção de recuar.
Kaelith inflou as narinas, elevando a mão, com os dedos tremendo levemente.
"Basta", disse ele, com voz cortante e autoritária. "Não vamos transformar meu santuário em um campo de batalha. Se vamos lutar, faremos isso em um mundo que nenhum de nós vai sentir falta."
A tensão não se dissipou, mas congelou, solidificando-se em um impasse enquanto os três titãs lentamente recolhiam suas auras.
O Jardim Eterno exalou, as folhas tremeram, a água voltou a correr lentamente, e a névoa prateada, que tinha sido varrida pelo caos, retornou, cobrindo o pavilhão novamente com serenidade — por mais frágil que fosse.
Mauriss cruzou os braços e sorriu com desdém. Helmuth bateu a língua na boca e se sentou, o calor ainda irradiando de seu corpo como uma fornalha, enquanto Kaelith começou a preparar uma xícara de chá em silêncio, já prevendo o que viria a seguir.
Pois, apesar da aparente paz, uma grande guerra entre eles estava a apenas algumas conversas de distância.