
Capítulo 443
Assassino Atemporal
(O último dia antes da luta, ponto de vista de Leo)
O dia final antes da luta tinha chegado, e enquanto Leo seguia sua rotina matinal de treinamento com Charles, percebeu que havia algo diferente na aura vermelha que se acumulava ao redor do corpo do Monarca naquele dia.
Com cada golpe que trocavam, Leo começou a notar fracas vestígios de aura vermelha emergindo do corpo de Charles, que flutuavam em sua direção não como fios sólidos, mas como faíscas cintilantes que permaneciam por um instante antes de se dissolver, como se tentassem encontrá-lo, mas não conseguissem segurar.
A linha já tinha começado a se formar, mas não conseguiu se conectar.
Como um motor de carro tentando ligar, mas nunca ganhando vida de verdade.
Ele podia sentir isso agora mais do que nunca, a ponta de algo, o contorno de uma verdade que ainda não conseguia compreender totalmente, como uma porta entreaberta, como um quebra-cabeça com uma peça faltando.
Se tivesse só um pouco mais de tempo, talvez uma semana, ou até uns dois dias, tinha certeza de que conseguiria descobrir, quebrar a neblina e finalmente enxergar claramente.
Mas, infelizmente para ele, o tempo já tinha acabado.
"Seus olhos… estão na direção certa, garotinho. Você quase lá," incentivou Charles, diminiu um pouco o ritmo de seus ataques para dar a Leo mais um pouco de tempo para interpretar a trajetória da aura vermelha.
*Clang*
*Clang*
Leo passou a acompanhar com mais facilidade o ritmo dos ataques de Charles, seu corpo reagindo mais rápido ao começar a perceber as cores do ataque que se aproximavam.
Ainda não conseguia ver a trajetória exata, mas uma ideia vaga de onde a próxima pancada viria já lhe dava uma vantagem enorme para melhorar seus reflexos.
"Sim, garoto! É isso… você está chegando lá, começando a entender como funciona o reino do combate pela intenção," disse Charles, continuando a orientá-lo. Durante as próximas oito horas, o Monarca fez de tudo para empurrar Leo até a beira do avanço, mas, por mais esforço que fizessem, o último passo permanecia fora de alcance.
"MERDA! MERDA! MERDA!"
Leo xingou, caindo de joelhos, com as mãos apoiadas nas pernas, o rosto suado, a água escorrendo do nariz.
Ele estava perto. Tão perto que podia senti-lo ao alcance, mas a última peça ainda se recusava a encaixar.
"Não fique nervoso, filho. Você precisa de uma mente calma e calculista para vencer alguém mais forte que você," disse Charles, com voz firme. "Mantenha o foco, porque meio conhecimento é mais perigoso do que não saber nada."
Quando Leo se recuperou e retomaram o treinamento, Charles o desarmou com facilidade e pressionou um cano de aço contra sua garganta. Ainda não tinha se movido mais rápido, mas, de alguma forma, já tinha completamente superado Leo em estratégia.
"Você consegue acompanhar meus ataques fazendo suposições arriscadas sobre onde a próxima vai cair, mas não tem certeza. Você só consegue sentir a direção geral.
Uma suposição errada, e essa incerteza vai te matar mais rápido do que um desvio limpo e certeiro jamais conseguiria."
Em seu estado atual, consegue lutar de igual para igual contra um oponente do Nível Transcendente, mas isso só até cometer um erro uma única vez.
No instante em que estiver cortado e sangrando, sua guarda vai ficar cada vez mais fraca até que você perca.
Então, ou domina a intenção até amanhã, ou luta como se não a tivesse, porque ficar nessa média só vai te jogar direto na armadilha do fracasso."
Ele tocou um dedo na têmpora.
"Cabeça tranquila. Olhos focados. Vamos de novo."
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(Enquanto isso, Veyr)
Enquanto Leo se esforçava ao máximo na busca desesperada por um avanço, Veyr repousava estendido sobre uma maca, seu corpo inteiro afundando no acolchoado enquanto mãos habilidosas de uma massoterapeuta trabalhavam cada nó e tensão em seus músculos com paciência e destreza treinada.
Seus olhos permaneciam fechados, sua expressão serena, enquanto se concentrava não no caos da batalha nem no medo do que o amanhã poderia trazer, mas em manter total controle sobre corpo e mente — garantindo que, na hora H, estivesse descansado, calmo e com toda sua força preparada.
Acreditava que não há nada mais idiota do que tentar acumular força na última hora, nem mais imprudente do que perseguir o desespero na véspera de uma guerra.
Ele treinarara. Se preparara. Agora, tudo que restava era chegar afiado e pronto.
'O Quarto Ancião pode ser um tolo, mas sabe viver com estilo. Essa massagem é divina—' pensou Veyr, fazendo mentalmente um compromisso de experimentar essa alegria toda semana após se tornar Dragão.
'Será que a reação à minha vitória vai ser assim tão grande?' pensou, à medida que a massagem se aprofundava, deixando seus pensamentos vagar em direção ao aplauso que receberia ao ser coroado Dragão.
Imaginou como a multidão ia gritar seu nome.
Como as luzes o iluminariam de todos os ângulos enquanto ele ficava no centro do palco, com uma mão erguida em triunfo, aproveitando o estrondo da admiração.
Visualizou as poses que faria, a rotação lenta do corpo enquanto as câmeras de transmissão o capturavam de todos os lados, o sorriso exato que ofereceria às massas, calculado e natural ao mesmo tempo.
Porque, mais do que força ou título, o que Veyr sempre quis desde garoto era reconhecimento.
Filho de um órfão, sempre passou despercebido e não amado, vivendo na margem de um universo que nunca se deu ao trabalho de olhar para ele.
A atenção era um luxo. O elogio, um sonho impossível.
Até completar 18 anos, quando foi testado e descoberto para possuir o sangue do Assassino Atemporal que corria em suas veias, sua vida finalmente virou.
'O Dragão é o mais amado do Cult… Aquele admirado por todos…' pensou Veyr, soltando uma suave e satisfeita respiração.
Com o título de Dragão ao alcance, ele queria experimentar essa atenção, esse amor que nunca recebeu enquanto crescia, pois, embora não se importasse muito com os comuns do Cult, o que realmente queria era viver a vida mais grandiosa possível… uma vida repleta de louvor, iluminada por admiração e coroada por veneração pública.