
Capítulo 433
Assassino Atemporal
(O Jardim Eterno, Domínio de Kaelith)
Kaelith caminhava pela relva prateada macia do Jardim Eterno, com os pés descalços deslizando pelo chão como se a gravidade não tivesse influência sobre ele, as mãos repousando preguiçosamente atrás das costas, a expressão calma e serena como sempre, enquanto o céu acima brilhava com camadas de crepúscio eterno que nunca mudava e jamais tinha fim.
Para qualquer outra pessoa, aquele momento pareceria tranquilo, até mesmo sereno, mas para Kaelith, era simplesmente rotina.
*KABOOM*
De repente, sem aviso algum, um relâmpago atingiu o chão atrás dele, rasgando o espaço por menos de um suspiro, antes que um homem surgisse em seu rastro, ajoelhando-se com um joelho no chão enquanto a luz ao redor dele se dissipava.
"Você chamou por mim? Pai?" perguntou o homem, com voz profunda, firme e clara.
Kaelith virou-se lentamente, um sorriso delicado surgindo nos lábios enquanto seus olhos dourados cruzavam com as feições familiares do filho.
"Não precisa se curvar perante mim, Raymond. Sou seu pai, lembra?" disse Kaelith suavemente, lembrando seu filho para não se ajoelhar como se fosse um subordinado.
Raymond levantou-se sem uma palavra, com postura respeitosa, mas sem fraqueza, os olhos fixos em Kaelith com cautela silenciosa, porque embora o deus diante dele parecesse inofensivo naquele momento, Raymond sabia bem que era tolice deixar-se enganar por aquela fachada.
Tendo testemunhado de perto do que seu pai era realmente capaz em batalha quando sua paciência se esgotava, Raymond tinha plena consciência de que era melhor nunca ficar do lado errado dele.
"Chamei você hoje porque há um novo desenvolvimento dentro do Culto que precisa ser monitorado."
"Minhas fontes dizem que o Culto da Ascensão está à beira de nomear outro Dragão," começou Kaelith, enquanto seu olhar lentamente varria o céu, uma ruga visível se formando entre suas sobrancelhas pela primeira vez em séculos.
"Quero que você comece a preparar-se para eliminá-lo o mais rápido possível," acrescentou, sua voz ainda calma, mas algo afiado havia se infiltrado no tom abaixo dela.
"Será feito, Pai," respondeu Raymond imediatamente, abaixando a cabeça mais uma vez antes de levantá-la novamente, só que desta vez não virou para sair.
Kaelith percebeu a hesitação na postura dele e esperou.
"O que foi?" perguntou, já sentindo que a pergunta se formava na mente do filho.
Raymond o encarou agora, a voz mais baixa que antes.
"O Culto nomeia Dragões o tempo todo. Alguns vivem por poucos anos, outros morrem de imediato. Mas nenhum deles jamais foi importante. Por que este é diferente? Por que você está me enviando pessoalmente?"
Kaelith fechou os olhos por um momento, depois exalou como se a própria questão tivesse escavado algo enterrado profundamente, algo que ele vinha evitando dizer em voz alta.
"Porque desta vez, vejo algo que não via há mais de dois mil anos," disse, abrindo os olhos novamente e olhando além das nuvens acima, como se estivesse procurando na própria estrutura do universo.
"Normalmente, em um planeta cheio de bilhões de mortais, você pode encontrar um ou dois com uma única linha do destino os conectando à corrente maior do universo. Isso é raro. É gerenciável. Mas a quantidade de fios do destino que spiralam pelo território do Culto agora é algo completamente diferente."
Ele fez uma pausa de um segundo, o maxilar se tensionando.
"Vejo agregados de destino. Redemoinhos sendo tecidos. Padrões se formando ao longo de sistemas estelares. E todos eles estão convergindo para algo. Ou alguém."
A respiração de Raymond ficou presa, sua mente tentando processar a magnitude do que seu pai acabara de dizer.
Kaelith continuou, agora com a voz mais baixa.
"Não via tantos fios do destino se desenrolando do território do Culto desde os tempos do meu pai. E se esse padrão estiver voltando... então, significa que esse novo Dragão é diferente. Este não foi escolhido pelo Culto. Foi escolhido pelo universo. E isso quer dizer que ele precisa ser eliminado antes que o padrão se complete."
Raymond assentiu lentamente, já sem questionar, os olhos se estreitando ao assumir o peso da missão.
Kaelith não disse mais nada. Ele não precisou.
O jardim voltou ao silêncio, mas o clima tinha mudado.
Porque, se Kaelith estivesse certo, isso não era apenas mais um alvo.
Era o começo de algo muito mais perigoso. Algo que não podia ser permitido enraizar-se.
Algo que cheirava ao passado.
*KABOOM*
Raymond deixou o Jardim Eterno do mesmo jeito que entrou, deixando Kaelith sozinho com seus pensamentos mais uma vez.
"A Assassina Atemporal não pode mais vagar entre os segundos," ele murmurou para si mesmo, esperançoso de que seu filho Raymond não o decepcionaria nesta missão.
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(Enquanto isso, Aegon Veyr)
Embora Veyr se sentisse extremamente confiante em suas chances de derrotar Leo Skyshard na batalha que se aproximava, especialmente pela diferença de nível entre eles, ele sabia bem que não podia tratar a luta como algo garantido.
A reputação de Leo nos circuitos era monstruosa, e mesmo Aegon, que acabara de ascender ao reino Transcendente, tinha plena consciência de que dois meses eram mais que suficientes para Leo fechar a lacuna e, quem sabe, até ultrapassá-la.
E isso era algo que Veyr simplesmente não podia permitir.
Por isso, mesmo agora, ele permanecia sem camisa na arena ao ar livre, com lâminas na mão, suor escorrendo por seu corpo tatuado, enfrentando o Quarto Sábio numa sessão de treino que já ultrapassara há muito o limite de simples rotina.
*Clang*
As armas deles se chocaram novamente, metal beijando metal com uma violência que ecoou por todo o campo de treinamento, enquanto as duas adagas gêmeas do Sábio cortavam o ar como presas buscando carne, enquanto as duas espadas longas de Veyr respondiam com paradas e contra-ataques executados com tamanha precisão que mal permitiam correções.
O ritmo era brutal.
Não havia um momento de pausa. Nem um suspiro de descanso.
Cada troca de golpes parecia uma tentativa real de matar, não apenas um teste para ver quem resistia mais.
E o fato de Aegon, há poucos dias no reino Transcendente, conseguir segurar tão fluidamente contra um homem que tinha esse nível há mais de quarenta anos dizia muito sobre o potencial assustador do jovem guerreiro.
"Você ainda não está pisando fundo o suficiente com o sapato direito ao pivôar em um bloqueio duplo," apontou o Quarto Sábio entre os golpes, sua instrução tentando ajudar Veyr a superar suas falhas.
"E ainda está expondo seu centro ao virar para canhoto," respondeu Veyr, parando uma estocada para baixo e torcendo o corpo em uma empurrada de ombro que quase derrubou o velho.
Por um momento, uma faísca de verdadeira diversão passou pelos olhos do mais velho.
"Você está aprendendo rápido," murmurou antes de desaparecer em um borrão de movimento novamente.
Veyr seguiu sem hesitação, o vento deixando rastros atrás de ambos enquanto suas silhuetas se tornavam pouco mais que rajadas de imagens trêmulas.
Golpe, bloqueio, finta, torção, esquiva.
O ritmo era implacável.
E, mesmo assim, a expressão de Veyr permanecia composta, sua respiração controlada, seus olhos afiados.
Ele já não estava apenas lutando.
Ele observava. Se adaptava. Afinava arestas que já estavam bem refinadas.
Sabia que o estilo de Leo não era baseado apenas na força bruta.
Ele tinha assistido às fitas de circuito de Leo e sabia que o estilo dele era imprevisível, cheio de ilusões e ataques dissimulados.
Um estilo único, não só de força ou precisão, mas de manipulação e percepção.
E assim, Veyr tentava criar suas próprias truques, ao mesmo tempo em que desenvolvia esquemas defensivos para impedir estratégias inesperadas.
Sabia que precisava se tornar uma muralha de perfeição técnica absoluta, um oponente tão impecável na estrutura que a ilusão colapsaria contra ele, pois essa era a única maneira garantida de vencer alguém como Leo.
*Clang*
*Clang*
*Investida*
*Pivotar*
*Estalo*
Outra troca acabou com ambos recuando, respirando pesadamente, embora nenhum estivesse realmente exausto.
"Você está melhorando," finalmente comentou o Quarto Sábio, abaixando levemente as adagas enquanto girava o ombro com uma careta.
"Há quatro dias, eu te acabaria em vinte movimentos. Hoje, nem tenho certeza se consigo te derrotar em cem."
Veyr não respondeu imediatamente.
Ele guardou uma das espadas lentamente, virou-se para o horizonte onde duas luas gêmeas pairavam ao longe.
"Não posso me dar ao luxo de subestimá-lo," disse em voz baixa, sem bravata, mas com convicção. "Ele talvez não seja tão bom quanto eu, mas também não é tão ruim quanto vocês aí."
O Quarto Sábio deu uma risada, assentindo levemente enquanto colocava a mão no ombro de Veyr.
"Pois é, não o subestime, mas também não o exalte demais. No final das contas, ninguém é tão talentoso quanto você—"