
Capítulo 432
Assassino Atemporal
(Planeta Twin Fang, Quartel-General dos Serpentes Negros, ponto de vista de Antonio)
O ar dentro do escritório de Dupravel parecia mais pesado do que o usual.
Antonio ficava imóvel ao lado da cadeira de Dupravel, com os punhos cerrados atrás das costas, as unhas cravando na carne das palmas enquanto mantinha a cabeça baixa, não em submissão, mas em contenção.
Seus olhos fixavam-se no homem sentado confortavelmente na cadeira oposta—Comandante Entrail do Governo Universal, adornado com uma armadura régia de preto e ouro, com postura relaxada e lábios curvados em um sorriso zombeteiro que mal oscilava desde sua chegada.
"Tenho que admitir, estou surpreendido," disse Entrail, com tom calmo e condescendente, "esperava pelo menos um pouco de dignidade do outrora temido Dupravel Nuna. Em vez disso, encontro um homem que mal consegue formar uma frase sem se escaldar."
Dupravel soltou uma risada gutural, inclinando a cabeça abruptamente, fazendo a luz refletir na sua mandíbula torta.
"Você veio aqui pedir informação? Certo, traga meu filho primeiro, aí você leva a informação. Se não—saia," rosnou, batendo a palma na apoio do seu assento, fazendo Antonio estremecer por dentro.
Entrail deu uma risada, inclinando a cabeça zombeteiramente. "Sim, sim, a barganha eterna. Mas, azar seu, Mestre da Guilda, eu não lido com reféns. Isso é outro departamento, e, para ser sincero, não me importo com seu filho."
Antonio deu um passo à frente, tentando mais uma vez acalmar a situação, embora cada palavra que pronunciasse fosse como engolir fogo.
"Reconhecemos que houve uma falha no protocolo, Comandante. Mas conseguimos defender o pergaminho, como sempre fazemos. O Cult pode ter se aproximado, mas estar perto não é crime. O pergaminho permaneceu intacto. Ainda seguro."
"E o quê?" Entrail o interrompeu no meio da frase, gesticulando como se estivesse afastando fiapos de poeira. "Quer uma medalha? Uma palmada nas costas? 'Oh, obrigado, Serpentes, por fazerem o mínimo esperado de vocês?'"
Antonio exalou pelo nariz, tentando manter a calma na sua voz. "Já estamos investindo em um novo cofre. Triplas camadas de defesa. Selos espaciais e proteção em múltiplos planos. Isso não acontecerá novamente."
Entrail bufou com desprezo.
"Não. Não acontecerá. Porque aquele pergaminho não será mais seu para proteger."
A mandíbula de Antonio tremeu.
Ele quis gritar, denunciar o homem, lembrar-lhe que os Serpentes Negros tinham segurado aquele pergaminho por mais tempo que Entrail tinha o seu posto.
Mas, rei ou não, Entrail era um oficial do governo universal, e Antonio não podia arriscar as consequências de um insulto aberto a um oficial do governo—pelo menos não naquele momento.
"E, mesmo assim…" continuou Entrail, levantando-se lentamente, caminhando preguiçosamente até a janela como se admirasse o horizonte. "O que mais me irrita não é sua incompetência. É o que vocês se tornaram, Dupravel."
Ele voltou-se para o mestre da guilda, o sorriso se transformando em algo mais frio.
"Já pensei em você como um rival. Um guerreiro com propósito. Refinado. Digno. Mas agora? Olhe-se. Você resmunga. Cospe. Late como uma fera enclausurada. Não é de surpreender que o Cult quase roubou o pergaminho—provavelmente tentou devorar o invasor em vez de detê-lo."
Dupravel se levantou com um rosnado, sua aura irradiante de forma errática, mas Antonio rapidamente se colocou à frente, colocando uma mão firme no peito do mestre da guilda.
"Mestre da Guilda," murmurou baixinho, "não aqui… se lutarmos aqui, perderemos tudo."
Dupravel rosnou, recuando como um animal acuado, os membros do corpo tremendo com uma vontade quase incontrolável de loucura.
Entrail sorriu, satisfeito com a reação, e então virou-se para encará-los ambos.
"Vocês terão dois dias," disse, articulando cada palavra com precisão cirúrgica. "Dois. Dias. Entreguem o pergaminho voluntariamente, ou enfrentem-me na batalha quando eu retornar com um exército. E confiem em mim, vocês não querem que eu venha aqui com um exército."
Sem mais palavras, virou-se e saiu do escritório, acompanhado por seus guardas.
Só após o som de suas botas desaparecer, Antonio exalou o ar que estava prendendo, seu corpo tremendo não de medo—mas de fúria.
Ele olhou para Dupravel, que havia colapsado de volta na cadeira, mãos tremendo, lábios torcendo-se em um selvagem rosnado enquanto murmurava algo ininteligível.
Antonio ficou em silêncio.
Mas na quietude que se seguiu, uma verdade cristalizou-se em sua mente como uma lâmina na coluna:.
Os Serpentes estavam ficando sem tempo. E, assim que o pergaminho desaparecesse, eles seriam apenas mais uma guilda comum no universo, presa às regras do governo e sem privilégios especiais.
E Antonio morreria antes de deixar que isso acontecesse.
'Não posso acreditar que um guerreiro de nível Mestre Supremo nos empurrou tão fundo nesse buraco sem fundo.'
Leo Skyshard… é melhor rezar para que eu nunca coloque as mãos nele, porque se eu fizer isso, a morte seria um luxo que ele só ora, mas nunca alcançará!' pensou Antonio, rangeu os dentes de raiva.
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Não eram apenas o Mestre da Guilda ou o Vice Mestre da Guilda dos Serpentes Negros sentindo a pressão do Governo Universal.
A tensão estava por toda parte, infiltrando os corredores, se espalhando pelas fileiras e envenenando o ar como um tóxico lento e invisível.
O moral dos membros comuns da guilda tinha caído a níveis sem precedentes após a tentativa de roubo do Cult.
Sussurros viraram rumores. Rumores viraram manchetes. E as manchetes, partidas.
Caçadores de guildas rivais espreitavam as ruas de Planeta Twin Fang como lobos em ternos sob medida, explorando o caos, oferecendo contratos lucrativos, cláusulas de imunidade e pacotes de mudança de sede diante de talentos dos Serpentes como isca dourada.
Nem precisavam esconder isso.
As notícias de que o Governo Universal exigia a devolução do Pergaminho do Cult já tinham sido transmitidas por metade da galáxia… e, graças a uma campanha coordenada de difamação por recrutadores rivais, que garantiram que todos os talentos médios e de alto nível dos Serpentes soubessem exatamente o que estava em jogo, uma fuga em massa começou.
Nos últimos dez dias, mais de 70.000 membros de alto nível tinham desertado.
Veteranos de combate, analistas de informações, especialistas em tecnologia, gestores de ativos, homens e mulheres que outrora juraram lealdade aos Serpentes agora sumiam com destinos mais estáveis.
Era a maior fuga da história da organização.
E a pior parte?
Não mostrava sinal de estancar.
As saídas criavam vazios.
Os vazios geravam instabilidade.
E a instabilidade espalhava um medo maior do que qualquer ameaça externa jamais conseguiria.
Os Serpentes Negros estavam se esvaindo de força, não na batalha, mas de dentro para fora.
Com cada nome apagado do banco de dados, com cada crachá devolvido, uma mensagem era gravada nas paredes do Quartel-General de Twin Fang, uma que nenhum glifo ou feitiço podiam apagar:
A guilda outrora poderosa desmoronava por dentro.
E, embora o Cult não tivesse conseguido recuperar o pergaminho, tinham conseguido algo muito mais devastador.
Desencadearam a reação em cadeia.
Plantaram a primeira rachadura.
Iniciaram uma lenta e implacável destruição dos Serpentes por dentro.
E assim, finalmente, começaram sua vingança contra a guilda que havia massacrado seu antigo Dragão Noah.
Um ajuste de contas não escrito em sangue, mas na decadência lenta.