Assassino Atemporal

Capítulo 428

Assassino Atemporal

(Ponto de vista de Charles)

Charles nunca quis realmente bater tão forte em Leo assim.

Com cada soco que acertava no corpo machucado do garoto, uma pequena careta atravessava sua face, passageira e escondida sob a máscara fria que usava.

No fundo, ele ainda esperava que o próximo golpe fosse suficiente, que finalmente empurrasse Leo ao limite da morte, onde a linha entre desistir e resistir começasse a ficar difusa.

Mas Leo era um filho da puta teimoso.

Estava teimoso demais para alguém que era apenas um Grande Mestre, pois levou bem mais tempo do que o esperado para que Charles desmontasse sistematicamente seu corpo, pelando a luta camada por camada até ela começar a vacilar.

"Vou te matar, garoto," ele murmurou baixinho, enquanto seu punho descia novamente, cobrindo as costelas de Leo com um estalo nojento. "Se você não lutar pela sua vida, se não se proteger dos meus golpes, você... vai... morrer!"

O corpo de Leo se estremeceu com o impacto, sangue jorrando do nariz e do lábio, o peito levemente afundado do lado direito, e os braços quase sem movimentos enquanto tentava se mover.

Os olhos dele estavam semicerrados, quase sem reação.

A respiração era tão tênue que Charles precisou baixar um pouco a cabeça só pra garantir que ele ainda estivesse vivo.

Mas isso não impediu Charles de dar outro golpe.

E depois outro.

Até que o fêmur direito de Leo quebrou limpo, o corpo dele se chocando uma última vez e depois ficando imóvel de novo.

"Vamos lá..." Charles repetiu, agora com uma voz mais baixa, não brincando, mas cansada. "Não ouse desistir assim."

Os nós dos seus dedos estavam manchados com sangue de Leo, suas botas encharcadas, e mesmo assim o garoto ainda não havia desmaiado. Claramente, ele estava se preparando para perder a consciência—mas ainda não tinha deixado escapar.

Isso deixava Charles frustrado. Mas, mais do que isso, assustado. Porque se o garoto não mostrasse alguma fagulha de esperança agora, tudo o que ele fazia aqui... tudo isso seria em vão.

Ele parou.

Ficou sobre o corpo destruído de Leo, punhos cerrados, o peito subindo e descendo lentamente.

E esperou.

Esperou por algo.

Qualquer coisa.

Mas Leo não se mexeu.

Não chorou.

Não gritou.

Nem tremeu mais.

As respirações dele eram como sussurros perdidos no vento—curtas, como rasgos, como se seu corpo finalmente tivesse abandonado a ideia de resistência.

Charles deu um passo à frente lentamente, levantando a mão novamente, desta vez recuando com uma coordenação perfeita, cada músculo do ombro tenso enquanto seu punho pairava acima do queixo de Leo.

"Agora, feche seus olhos, filho," ele disse calmamente, sem agressividade na voz. "E eu prometo que você não vai acordar mais."

Ele olhava para o garoto, mais talentoso que qualquer outro que tinha visto na vida, mas que agora jazia ali como um pássaro caído, com as asas quebradas.

"Talvez não seja tão ruim assim," Charles acrescentou, com uma ponta de dor na voz. "Talvez fechar os olhos agora te salve de um mundo de dor no futuro. Talvez você não estivesse destinado a chegar até o final. Talvez morrer aqui... assim... seja melhor do que o que vem pela frente."

Silêncio.

Leo não respondeu.

Os lábios de Charles se apertaram enquanto ele se ajoelhava ao lado do garoto novamente, sem tocá-lo, mas falando bem no ouvido dele agora.

"É simples. Só feche os olhos, deixe ir aquele último sopro que está segurando, e você terá o descanso eterno. Chega de treinamentos. Chega de guerras. Chega de traições. Apenas paz."

Sua mão tremeu ligeiramente, ainda suspensa acima do queixo imóvel de Leo.

"Mas... não consegue, né?"

A voz de Charles mudou, agora mais firme, mais incisiva, cortando como faísca rasgando aço.

"Não consegue deixar ir? Então abra esses olhos, garoto. Abra bem e manda à merda. Mostre que ainda se importa."

Ainda nada.

Charles se levantou novamente, sangue escorrendo de seus nós enquanto deixava o silêncio se prolongar por mais um momento.

"Porque se você não for fazer isso," ele disse, com uma voz baixa e definitiva, "daqui a trinta segundos... este soco aqui, vou enfiá-lo no seu queixo e te mandar dormir pra sempre."

Inclinou a cabeça, fixando o olhar no garoto quase inconsciente.

"Ou você decide lutar pela sua vida agora... ou dorme pra sempre."

E então... esperou.

Soco tremendo.

Relógio andando.

Sem se mover um centímetro até que o garoto fizesse sua escolha.

—----------

*GRITO AGUDO*

Leo mal conseguia ouvir claramente o que Charles estava dizendo.

Tinha um som agudo, metálico nas orelhas, como o ranger de uma lâmina arrastando pelo aço, implacável e invasivo, dificultando ao máximo que ele processasse o som de forma coerente.

Cada palavra de Charles saía distorcida—suave, ecoando, retorcida—como se fosse dita através de camadas de vidro quebrado.

Mas dor?

Ele a sentia claramente.

Bruta e selvagem. Estendendo-se por cada extremidade dos nervos do corpo, como fogo de mato.

Não era mais localizada. Não eram só suas costelas, só seus braços, só seu rosto que doía.

A dor estava em toda parte. Enraizada nos ossos, incorporada nos músculos, pressionando seus pulmões a cada respiração que ele se recusava a tomar.

Era o tipo de dor que faria qualquer um querer morir.

Mas ele não.

Nem pensou nisso uma única vez.

Nem uma vírgula de rendição passou por sua cabeça.

Mesmo com o corpo se desligando aos poucos, mesmo com os membros sem responderem, mesmo jorrando sangue, Leo nunca pensou em desistir.

Porque desistir era admitir que tinha perdido.

E perder significava abandonar tudo o que ele prezava neste mundo, sua família, suas ambições.

E isso? Nunca foi uma opção, nem agora, nem nunca.

Sua mente estava enevoada, sim. Lentidão, machucada, piscando entre o estado de inconscência e uma consciência frágil e fragmentada, mas no fundo, lá no poço escuro, ainda havia uma pequena brasa que se recusava a apagar.

'Vai precisar de mais do que isso...' pensou, sem conseguir dizer, com mandíbula frouxa demais, quebrou demais. 'Vai precisar quebrar mais do que ossos se quiser me matar.'

Suas memórias se misturaram. Rostos passaram por seus olhos, alguns conhecidos, outros esquecidos.

A dor da perda, a fúria da traição, o sussurro do sorriso de Amanda, a marca do 'ladrão' da palavra congelada no tempo. Tudo girava em uma névoa febril, costurado em cada fragmento despedaçado de quem ele era.

E então, finalmente, através da névoa, ele ouviu a voz de Charles.

Não claramente. Não nítida. Mas suficiente.

"Abre bem esses olhos e manda à merda. Mostra que ainda se importa."

"Trinta segundos. Dou trinta segundos pra me mostrar que tem coração, ou vou te deixar dormir pra sempre—"

Isso chegou até ele.

E foi suficiente, pois, ao ouvir essas palavras, Leo não vacilou.

Ele não entrou em pânico.

Simplesmente piscou.

Devagar.

Uma vez.

duas vezes.

E então, com os olhos inchados e sangrentos, abriu-os bem, forçando sua visão turva a encontrar a figura acima dele.

Seus lábios racharam ao se mover, trincados e trêmulos, mas de alguma forma ainda formando as palavras que vinha segurando há tempo — desde o momento em que o primeiro golpe foi dado.

"Vai... se foder," ele conseguiu respirar.

E naquele instante, algo mudou.

Não foi de repente.

Não foi dramático.

Foi silencioso, quase invisível, como um sussurro de vento passando pelo vazio.

Mas existia.

Uma luz.

Suave primeiro, depois crescendo.

Verde esmeralda, ganhando vida através de seu corpo destruído.

Ela dançava sobre sua pele, brilhava sobre o tecido rasgado e as feridas encharcadas de sangue, banhando-o com uma luz tênue que pulsava em sintonia com seu coração, lento, firme... e crescendo.

Leo não sabia o que estava acontecendo.

Não se importava.

Tudo o que ele sabia era que, seja lá o que fosse esse poder, essa força que agora reagia a ele, permitia abrir mais os olhos e falar um pouco mais alto, segurando para olhar nos olhos de Charles, enviando a mensagem de que ele não iria morrer ali.

Não assim.

Nem antes de resolver suas contas. Nem antes de provar para cada bastardos que duvidaram dele que estavam errados. Nem antes de se tornar tudo que foi destinado a ser.

E assim, com sangue na boca e fogo esmeralda na pele, Leo olhou para o homem que tinha acabado de tentar matá-lo e sussurrou novamente, voz rouca e determinada—

"Vai se foder, seu Culto, o Chefe ainda não terminou."

Comentários