
Capítulo 429
Assassino Atemporal
(Ponto de vista de Charles)
Ao ver Leo envolto em uma aura de cor verde, Charles sorriu amplamente de orelha a orelha.
Não era um sorriso de zombaria, nem o sorriso torto de um sádico que tinha destruído um brinquedo.
Era o sorriso de um homem que acabara de apostar na jogada mais perigosa de sua carreira — e tinha ganhado.
'É isso aí, garotinho… Era exatamente isso que eu estava esperando. Essa fagulha. Essa centelha de desafio,' pensou Charles, com o orgulho crescendo no peito enquanto soltava uma respiração longa e aliviada. 'Você tem aquilo na alma, realmente tem —'
A luz esmeralda não era apenas uma aura. Era uma declaração. Um grito de vontade de um menino meio morto, cujo corpo não tinha lógica sobreviver àquela brutalidade, mas cujo coração se recusou a calar e morrer.
E isso fazia toda a crueldade de Charles parecer válidas.
"Bom trabalho, garoto," falou em voz alta, mantendo o tom controlado, calmo. "Acho que você ainda não está pronto pra morrer —"
Ele mergulhou a mão no anel de armazenamento e puxou um pequeno frasquinho de cristal, cujo líquido interno brilhava suavemente em tom dourado, pulsando com encantamentos de cura potentes o suficiente para encaixar ossos quebrados de volta no lugar e parar sangramentos internos em menos de um minuto.
Sem mais nenhuma palavra, ajoelhou-se ao lado do corpo destruído de Leo e desemperrou a tampa da garrafa, inclinando-a suavemente na direção dos lábios divididos do garoto.
Os olhos de Leo, que há um momento estavam quase fechados, de repente reacenderam, ainda nublados de dor, mas agora ardendo com um tipo de fogo totalmente diferente.
Ele tomou o gole.
Amaciou na boca.
E então cuspiu direto na face de Charles.
*Espirrada*
"Que porra você acha que está fazendo me batendo desse jeito, hein?" tossiu Leo, com a voz rasgada, mas viva. "Vai se foder com essa história de cura…"
Charles congelou por um segundo, a poção escorrendo por uma de suas faces, enquanto piscava lentamente, e então deu uma risada baixa, profunda, que reverberava no peito como trovão passando sobre um campo calmo.
"Seu filho da puta," murmurou, meio sorrindo, enquanto limpava o rosto com a manga. "Ainda tem coragem, hein?"
Leo tentou se mexer, mas mesmo um tremor na mandíbula fez ele franzir a testa de dor.
"Dói pra caralho, mas eu tenho," murmurou, tossindo forte. "Da próxima vez que essa sua mão vier no meu rosto, eu vou arrebentar ela."'
"Pode tentar."
E sem mais nenhuma palavra, Charles agarrou Leo pelo queixo — firme, mas sem força exagerada, e empurrou a garrafa de volta entre os lábios do garoto, ignorando a resistência fraca dele.
"Beba, seus ingrato," disse. "Você vai viver, quer você queira ou não."
Leo resmungou, tentando cuspir novamente com dificuldade, mas desta vez engoliu a poção de cabeça erguida, enquanto o líquido dourado começava a percorrer seu corpo, reparando lentamente o que Charles tinha passado vinte minutos destruindo.
Assim que a poção deslizou pela garganta dele, Leo sentiu seus efeitos.
Todo o corpo se contorceu num reflexo, enquanto uma temperatura ardente emergia do seu centro, expandindo-se como um inferno dourado tentando costurar a carne que ainda nem tinha acabado de se partir.
Normalmente, as poções de cura, mesmo as de mais alta qualidade, eram azuis, então a do amarelo dourado que Charles tinha desembolsado era sem dúvidas única, com uma formulação diferente das tradicionais poções de cura disponíveis no mercado.
Em segundos, cada osso quebrado, cada músculo rasgado, cada ligamento rasgado começava a pulsar como se estivesse sendo colado de força por uma força invisível que não se importava com a dor que causava.
Leo rangia os dentes, sua mandíbula cerrada tão forte que uma outra onda de dor atravessou seu rosto.
"Ghh—porra… que diabos… isso é pra ajudar?" amaldiçoou, enquanto Charles apenas observava, expressão imperturbável, esperando a poção fazer efeito.
"Se não dói, não tá curando nada que valha a pena," retrucou Charles, embora Leo mal conseguisse ouvir.
Seu corpo tremia descontroladamente, enquanto a magia trabalhava através dos destroços.
O fêmur direito se refazendo com um estrondo horrendo, seguido pelo leve e constante pulsar das costelas partidas se reposicionando com força. A sensação de dormência no braço deu lugar a uma sensibilidade crua, cada nervo do ombro gritando como se estivesse pegando fogo.
Porém, acima da agonia, havia algo mais.
Um pulso.
Um ritmo.
Um sussurro silencioso sob todo o caos, como uma vibração que dava vida às ruínas dilaceradas do corpo dele.
Seu coração, que antes batia fraco e até então desaparecendo, agora pulsava forte no peito. Seus pulmões, cheios de sangue e sujeira, começavam a se limpar lentamente, cada respiração ficando mais profunda, mais cheia.
Quando os piores efeitos da poção começaram a diminuir, a visão de Leo já não estava mais turva.
Finalmente, ele conseguiu enxergar claramente o homem ajoelhado ao seu lado.
Charles, com os braços cruzados, uma sobrancelha levantada e a mesma expressão irritante de calma colada no rosto, olhava para ele como se nada do que tinha acontecido fosse mais do que um treino de aquecimento, enquanto Leo não conseguia deixar de ficar bravo ao olhar para ele.
"Um dia, vou te pagar por isso. Eu juro—" disse Leo, enquanto Charles soltava uma risada alta.
"Me pagar por quê? Para te ajudar a ver o Verde? Ou pelo super poção de 7 milhões de MP que usei para te curar?" perguntou Charles, até que Leo finalmente percebeu a real intenção por trás dessa agressão.
' Então ele fez isso pra me mostrar o Verde...' Leo finalmente percebeu, pois até então estava totalmente consumido de raiva e na luta pela sobrevivência, sem conseguir pensar além disso.
Agora que seu corpo estava se recompondo, ele finalmente se lembrou de ter visto o Verde, o que significava que ele tinha passado com sucesso pelo primeiro nível do Códice.
"Caramba, eu tinha esquecido completamente disso…" comentou, enquanto rolava na lama, puxando o códice do anel de armazenamento, forçando a abrir a página que exibia o novo texto dourado aparecendo na capa do manual.
"HAHAHA! Olha só esse idiota que já quer ver os resultados assim que consegue… Bem, eu também era assim na sua idade," riu Charles de lado, dando a Leo o espaço para ler o que o Códice tinha revelado.