Assassino Atemporal

Capítulo 396

Assassino Atemporal

Leo escutou tudo o que os anciãos tinham a dizer com um olhar afiado e calculista, os dedos relaxadamente envolvidos na porcelana quente de sua xícara de chá.

Ele fez um esforço genuíno para manter a mente aberta e avaliar suas propostas de forma pragmática, lembrando-se de que a segurança de sua família estava em jogo e que poder bruto muitas vezes vinha acompanhado de concessões. Mas isso não significava que ele fosse ingênuo a ponto de aceitar tudo o que ouviu.

Nem de perto.

Ele conseguia sentir as intenções disfarçadas deles a uma milha de distância.

Queriam que ele se tornasse o próximo Dragão do Culto. Isso estava claro.

Mas o que não estava claro, o que exalava omissão, era a verdadeira razão por trás de todo o esforço deles para que fosse ele e não esse tal de Veyr a se tornar o Dragão, pois Leo se recusava a acreditar que a justificativa deles fosse tão nobre ou simples quanto "Veyr não é adequado".

Esse tipo de explicação não resistiria a uma análise cuidadosa.

Se Veyr fosse realmente inadequado, por que ainda haveria uma competição? Por que permitir que ele permanecesse como concorrente?

Se fosse tão imperfeito quanto afirmavam, o Conselho dos Anciãos deveria tê-lo desqualificado de imediato, e o simples fato de Veyr ainda estar na disputa dizia tudo o que Leo precisava saber.

Havia mais nessa história do que os anciãos estavam dispostos a revelar.

Os olhos de Leo se moveram de um ancião para o outro, até que, finalmente, ele se inclinou ligeiramente para trás na cadeira e falou.

"Então... deixa eu entender direito," começou, dando um gole lento do chá aromático, permitindo que o sabor permanecesse na boca antes de colocar a xícara de volta na mesa. Seu tom era calmo, quase divertido, mas o ferro na voz era inconfundível.

"Eu concordo em me tornar o seu Dragão, e em troca, vocês me entregam tudo o que acabaram de prometer. Poder, técnicas, proteção para minha família... tudo isso. Mas, exatamente, o que eu tenho que fazer?"

Seu olhar alternava deliberadamente entre eles.

"O que um Dragão realmente faz no dia a dia? Devo ser algum tipo de sacerdote, dando sermões e abençoando as plantações? Ou sou um guerreiro de fachada, fazendo apresentações para levantar o moral?"

Ele inclinou a cabeça um pouco.

"O que vocês realmente esperam de mim?"

A pergunta, simples embora fosse, caiu como um peso, fazendo os dois anciãos ficarem visivelmente rígidos.

Seus rostos, antes calmos, mudaram sutilmente, traindo a esperança de que ele não fosse perguntar isso de forma tão direta.

Eles olharam para suas xícaras de chá ao mesmo tempo, como se tivessem medo de não encontrar as palavras certas. O silêncio persistiu tempo suficiente para se tornar desconfortável, até que o Décimo Segundo Ancião finalmente falou, sua voz mais baixa do que antes.

"O Dragão faz o que a Conselho dos Anciãos exigir que ele faça," começou cauteloso. "Isso pode incluir aparições públicas, discursos diplomáticos, missões importantes em territórios de facções justas, e ocasionalmente, liderar incursões para capturar ou desestabilizar planetas hostis."

Ele fez uma pausa breve, depois continuou.

"A natureza exata de suas tarefas varia. Não há um cronograma fixo, mas você pode esperar ser designado para missões de campo ativas entre cinquenta a cem dias por ano, passando outros duzentos ou mais treinando sob vários anciãos e especialistas."

Leo estreitou os olhos. Percebeu a deliberação na vaguidade daquela resposta. Claramente, o Décimo Segundo Ancião tentava suavizar as arestas de uma realidade brutal.

"Então, o que vocês estão dizendo realmente," respondeu Leo, com uma voz fria e carregada de incredulidade zombeteira, "é que serei apenas o seu fantoche glorificado enviado a missões suicidas quando for conveniente para vocês... Convidado a sorrir e acenar para as massas, independente do que eu queira... e estará aperto numa vida de seguir à risca as vontades do Conselho dos Anciãos… Certo?"

O Primeiro Ancião riu, fundo e sem se incomodar.

"Essa é uma forma grosseira de colocar," disse ele, "mas sim. É mais ou menos isso que o papel exige."

Sua expressão continuava composta, embora houvesse uma centelha de admiração em seus olhos, talvez pela clareza de Leo ou por sua recusa em ser enganado.

"Você será a face do Culto. Nosso símbolo. Nossa espada e escudo. Precisarás agir com dignidade em público, com tato na privacidade, e carregar as esperanças de bilhões de pessoas nas costas. É uma vida pesada, sim. Perigosa. Mas também tem suas recompensas."

Leo exalou lentamente pelo nariz e sorriu de forma sem graça.

Pelo menos, o primeiro ancião estava sendo um pouco honesto agora, e curiosamente, essa honestidade o deixou se sentir um pouco mais à vontade.

Ele preferia essa dura verdade, a promessas falsas, a qualquer dia.

E o motivo pelo qual ele queria que fosse o Dragão, Leo pensou, fixando os olhos no Primeiro Ancião, seria porque eles não tinham influência real sobre Aegon Veyr?

O Primeiro Ancião não piscou. Concordou com um aceno de cabeça.

"Exatamente. Veyr é o queridinho da facção rival dentro do Conselho dos Anciãos. Se ele ganhar, isso irá prejudicar gravemente a posição e a influência política de ambos, eu e o Décimo Segundo Ancião, e por isso, estamos determinados a impedir isso a qualquer custo."

O tom do ancião mudou. Sua máscara de cortesia caiu um pouco, revelando uma sagacidade e uma sede de poder que fizeram Leo ficar alerta de imediato.

O sorriso falso de cortesia desapareceu, dando lugar a olhos afiados e calculistas.

Leo permaneceu em silêncio por um longo momento, simplesmente encarando-o de volta.

Então era isso.

Eles não queriam um Dragão.

Queriam o próprio Dragão deles.

Um que pudesse fortalecer a influência deles no conselho.

Um que pudessem exibir como seu aliado.

Ele não era candidato.

Era um contrapeso.

E Veyr... Veyr não era apenas um gênio imprudente com moral questionável. Era a face opositora nesse guerra fria.

Leo entendeu agora.

Não era só política.

Era uma disputa de poder envolta em tradição e linhagens sanguíneas.

E ele tinha acabado de ser jogado no centro de tudo isso.


"Interessante... Muito, muito interessante," disse Leo finalmente, ao perceber a Aura Dourada do Destino emergir do Primeiro Ancião neste momento, a aura espessa envolvendo ambos.

'Parece que estou mais uma vez em um cruzamento,'

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