Assassino Atemporal

Capítulo 426

Assassino Atemporal

(56 dias antes da luta, ponto de vista de Leo)

Quando Leo abriu os olhos novamente, se deparou com uma ferramenta de cultivo rudimentar, uma que parecia completamente deslocada em um mundo tão avançado como Juxta, como se fosse uma forma primitiva de arar, criada em tempos em que animais de fazenda eram a melhor forma de lavrar o campo.

A ferramenta tinha uma estrutura de ferro enferrujado que se torcia formando um cultivador de dentes largos, seus cabos de madeira estavam rachados e lascados, envoltos por fios desgastados, onde cravos já os tinham unido antes.

A base estava coberta de sangue seco e terra velha, emitindo um cheiro de ferrugem e envelhecimento, como se tivesse sido passada de geração em geração por homens teimosos demais para deixá-la apodrecer.

Ela ficava no centro de um circuito circular, traçado de forma grosseira no terreno rochoso dos campos exteriores da base militar, onde novos recrutas geralmente eram enviados para punições isoladas, muitas vezes andando 100 ou 200 voltas ao redor da área com as mãos erguidas acima da cabeça.

“Por quê estou aqui?” perguntou Leo, enquanto acariciava suavemente o ponto dolorido no pescoço, onde Charles tinha dado um golpe para derrubá-lo.

“Droga, mesmo sabendo que ele ia me bater aqui, eu não consegui fazer nada para impedir—” lembrou Leo, enquanto cerrava os dentes e sacudia a cabeça, decepcionado.

Ele cometeu vários erros simples na luta anterior contra Charles, e, se tivesse uma segunda chance, sabia que poderia fazer muito melhor.

"Cadê o Dumpy?" questionou, olhando ao redor para tentar encontrar seu animal de estimação, mas não conseguiu localizá-lo em lugar algum.

Desde ontem, Charles tinha separado os dois. Enquanto Leo começava uma nova etapa de treinamento, com o objetivo de prepará-lo para a grande luta que viria em 56 dias, Dumpy foi colocadp para continuar seu regime de fuga da prisão, sendo proibido de se encontrar com Leo até conseguir escapar sozinho de cinco prisões diferentes.

"Vai, Dumpy! Eu sei que você consegue, mesmo sem mim", murmurou Leo com confiança, quando, de repente, Charles apareceu diante dele naquele instante.

"Então... parece que a beleza adormecida finalmente acordou—" brincou Charles, enquanto se mantinha a poucos metros de distância, com o rosto contorcido em um sorriso, mas seus olhos vazios de qualquer calor, observando Leo como se estivesse pronto para lançar uma chuva de dor sobre ele.

"Sim, estou acordado!" respondeu Leo, levantando-se, enquanto Charles assentia com a cabeça e indicava a ferramenta de cultivo à sua frente.

"Depois de lutar com você uma vez, decidi que sua próxima tarefa vai ser à moda antiga.

Vai empurrar essa coisa em um ciclo ao redor deste círculo", explicou Charles, gesticulando preguiçosamente para o caminho mal marcado.

"De novo, e de novo, e de novo, até escavar um buraco de 30 metros de profundidade. Se parar antes, vai pagar um preço alto," completou, e Leo piscou desconcertado.

Esperava ver um sorriso no rosto de Charles, algo indicando que ele estava brincando, mas nenhum surgiu.

"Cem metros, comandante Charles? Você está brincando comigo?" exclamou Leo, com a voz trêmula de incredulidade, enquanto observava a ferramenta rudimentar, depois olhava para Charles, e novamente para a ferramenta.

"Filho, você disse que queria que eu o treinasse até o limite."

"Agora é hora de você assumir o que falou e mostrar do que é capaz."

"Não há hostilidade entre nós. Não estou fazendo isso porque tiro algum prazer sádico em ver você andando em círculos como um animal de fazenda."

"Estou lhe dando essa tarefa porque realmente acredito que você consegue se se dedicar. Mas, se não conseguir, as consequências serão mais duras do que você imagina."

"Por isso, por seu bem, espero de verdade que consiga completar essa missão, porque, se não, posso te garantir que verá uma face minha que costumo reservar para meus piores inimigos," advertiu Charles com uma voz fria, o tom muito mais sério do que o habitual, e Leo imediatamente franziu a testa ao ouvir aquelas palavras.

Parecia que Charles realmente queria que ele passasse por isso, e, embora não entendesse qual benefício esse tipo de treino poderia trazer, soltou uma longa resignation e começou a caminhar na direção da velha máquina, balançando a cabeça.

"Conforme você deseja, chefe—" disse Leo, segurando firme o cabo antigo da ferramenta e começando a empurrar para frente com ambas as mãos, com as botas firmemente plantadas na terra irregular sob seus pés.

Porém, assim que as rodas arranharam contra a terra, Leo percebeu que essa tarefa seria muito mais difícil do que parecia.

O chão não era solo macio que se pudesse abrir com esforço, mas sim uma mistura irregular de argila seca, pedras embutidas, raízes endurecidas e trechos teimosos de grama que se recusavam a ceder.

A cada passo, parecia estar empurrando uma pedra gigante morro acima, a 45 graus. A cultivadora mal se mexia, com as juntas enferrujadas rangendo de protesto, e os dentes de metal na base resistiam a cortar mais de alguns centímetros sem prender em alguma coisa sólida e tremer violentamente.

Ele apoiou todo o peso nos cabos, forçando o avanço, sentindo os músculos se tensionarem a cada passo, enquanto o aparelho arrastava-se lentamente como um boi moribundo.

Os cabos perfuraram suas palmas com cada trecho irregular, os fios rasgaram sua pele e fizeram sangue novo escorrer logo nas primeiras horas.

O circuito que tinha que percorrer não era pequeno—tamanho de uma arena média—e fazer uma volta completa levava mais de vinte minutos, considerando a resistência do chão.

*Clang*

*Arranhão*

*Arrasto*

O som de metal enferrujado gritando contra as pedras preenchia o ar com um ritmo agonizante, ecoando pelos arredores do campo de treinamento, quebrado apenas pelos ocasais sopros de vento ou pelo grasnar de corvos empoleirados no céu.

Leo manteve a cabeça baixa e os olhos fixos no caminho à frente, sem permitir que olhasse para Charles nem uma única vez.

Ele não precisava.

Sentia os olhos do Monarca nele o tempo todo, como um predador que não atacava, mas avaliava se a presa tinha direito de continuar vivendo.

No final da quinta hora, os ombros de Leo estavam em chamas, os antebraços travados de tanta cãibra, e as mãos tremendo devido ao esforço constante.

Na décima quinta hora, suas pernas começaram a fraquejar a cada passo, a dor invadindo suas coxas e panturrilhas, tornando impossível terminar cada volta cada vez mais rápido.

Sua visão oscilava nos cantos, o suor escorria pelo rosto em grossas correntes, encharcando suas vestes até o interior das botas, que também estavam encharcadas.

O sol não ajudava.

O céu de Juxta brilhava num laranja cruel, formando longas sombras que pareciam zombar dele, como se o próprio chão soubesse que ele não conseguiria passar por esse teste.

Mas, apesar de todas as dificuldades, Leo continuou empurrando.

Forçando.

Arrastando.

De volta em volta após volta.

Perdeu a conta depois da vigésima volta.

O tempo deixou de importar, sua respiração curta e superficial, músculos contraindo involuntariamente, mas sua pegada nunca enfraquecendo.

Mais um passo. Mais uma volta. Mais uma volta final.

Transformou-se em um ritmo que substituía o pensamento.

A dor deixou de ser um aviso, tornou-se a única sensação que lhe lembrava que ainda estava vivo.

E, finalmente, na madrugada seguinte, após horas de movimento em círculos e com os corvos já longamente desaparecidos, ao vento praticamente cessar, os joelhos de Leo cederam.

Ele não gemeu, nem gritou de frustração.

Apenas desabou, sem palavras e silencioso, com o peito arfando como uma fornalha tentando dar vida a uma forja quebrada, ao seu rosto tocar o chão e a cultivadora parar de se mover pela primeira vez em quase dois dias.

Depois de tantas horas, mal tinha cavado uma vala de dez metros de profundidade.

Apenas dez.

E, ao completar apenas 10% do seu objetivo, seus braços e pernas recusaram-se a se mover.

Seu corpo tinha atingido o limite total.

Ele piscou uma vez, visão borrada, semi consciente, com um gosto metálico na boca.

E, então, através do nevoeiro, ouviu o som das botas se aproximando—devagar, firme, pesado—e o tilintar de um fósforo sendo aceso, enquanto o aroma de tabaco recém-queimado enchia o ar.

Charles ajoelhou ao seu lado, soprando uma nuvem de fumaça em seu rosto.

"Dez metros," murmurou. "Depois de tudo isso, dez metros?"

Leo não conseguiu falar.

Nem uma resposta, de tanto cansaço que sentia até para isso.

Tudo que conseguiu foi olhar fixamente para o céu acima, as estrelas girando, enquanto o Monarca o observava com olhos sem misericórdia, uma densa presença de intenção de matar começando a se acumular ao seu redor.

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