Assassino Atemporal

Capítulo 373

Assassino Atemporal

(Planeta Dente Gêmeo, Anel Externo de Habitação, Apartamento de Leo)

A tonalidade vermelho-carmin que envolvia o cômodo pulsava como uma tempestade prestes a sair do controle, selvagem e caótica, lambendo as paredes do apartamento como se desejasse devorar algo... ou alguém.

Leo permanecia no meio daquela essência, com os punhos cerrados tão forte que pequenos fiozinhos de sangue começavam a escorrer de onde suas unhas se enterravam na carne, sua respiração desigual e aguda, como se cada suspiro fosse uma batalha por si só.

[Indiferença do Monarca] tremia dentro dele, a habilidade que, até então, funcionava como uma parede inabalável entre suas emoções e ações, lutando para conter o turbilhão que surgia em seu peito.

Pela primeira vez em meses, os sussurros de calma daquele poder se truncaram completamente, incapazes de ancorar Leo, enquanto a imagem do corpo marcado e vazio de Luke não saia de sua mente.

'O que aconteceu com meu irmão?' ele se perguntou, enquanto milhões de memórias surgiam como uma enxurrada implacável — Luke carregando-o nas costas por ruas encharcadas de chuva, protegendo-o dos valentões nos becos, esfregando seus cabelos de forma rude enquanto fingia ser severo, mas rindo logo depois.

Aquele irmão, que um dia foi uma muralha inquebrável aos olhos de Leo, agora parecia um cadáver que se esquecera de parar de respirar.

"Quem fez isso... quem?" Leo sussurrou, com a voz baixa e ameaçadora, como se falar mais alto pudesse partir algo dentro dele.

Auras vermelhas como sangue irromperam ao seu redor novamente, subindo em picos agudos como um incêndio reagindo à gasolina, e por um instante, ele considerou seriamente queimar todo o Culto com suas próprias mãos.

Sua mente se precipitou em conclusões venenosas e rápidas. Seriam eles? Todo aquele teatro — a chamada de vídeo silenciosa, a conexão sem som, a apresentação cuidadosamente elaborada — seria um ardis para esconder seus próprios crimes? Seriam eles os responsáveis por derrubar Luke daquele jeito, usando-o como uma ameaça grotesca?

Imagens invadiram sua mente. Mu Fan caída em um lago de seu próprio sangue. Operativos do Culto gritando enquanto suas gargantas eram abertas com precisão cirúrgica. Um rastro de corpos deixados em seu rasto, como fazia na aventura VR Terra Nova Online, quando a justiça não tinha rosto... apenas uma máscara preta e branca riscada de linhas.

Mas então, ele respirou fundo e sua parte racional tomou o controle.

Ainda não sabia de nada.

Não havia confirmação. Nenhum contexto.

As feridas poderiam ser de antes. Poderiam ter vindo de alguém completamente diferente. Pelo que ele sabia, o Culto poderia estar tentando manter Luke vivo — talvez o estivessem estabilizando, curando lentamente, preparando-o para o retorno que Leo exigira.

Talvez... talvez não fosse tão grave quanto parecia.

Talvez, ao voltar para Vorthas, Luke estivesse acordado novamente. Rindo. Comendo com eles. Totalmente recuperado, com toda aquela dor apagada de seu corpo, como uma memória ruim que logo esqueceriam.

Ele não podia se permitir descontrolar. Não agora.

'Não. Não posso tirar conclusões apressadas agora. Logo estarei com eles e saberei a verdade então.'

Até lá, preciso manter a cabeça fria. Tenho que completar esta missão, para que, quando eu voltar para casa, não haja mais correntes, condições ou esperas. Apenas eu e eles... finalmente livres.' ele pensou, enquanto seu coração desacelerava, seu aperto relaxava e o ar ao seu redor se acalmava.

A aura vermelha, antes selvagem e ameaçadora, aos poucos recuou, desaparecendo na quietude do apartamento como se nunca tivesse existido.

E com ela, o garoto que quase perdeu o controle se recompôs. Mais firme. Mais frio. Concentrado.

O fogo ainda arde dentro dele, mas agora queimava com um propósito — claro, afiado e inabalável — enquanto se via mais motivado do que nunca a concluir o roubo e chegar ao Planeta Vorthas com toda a velocidade possível, pois nada mais no universo parecia importar tanto quanto aquilo agora.

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(Em outro lugar, Planeta Controlado pelo Clã Mu, Sala de Comunicação Segura)

Mu Fan permaneceu imóvel, suas mãos tremendo levemente enquanto segurava o cristal de comunicação perto dos lábios, sua voz quase um sussurro.

"Como você permitiu que isso acontecesse?" ela perguntou, com a garganta apertada a cada palavra, as sobrancelhas franzidas em horror.

"Luke é um Candidato a Dragão... e vocês apenas o empurraram quase até a morte?"

Um instante se passou até que o cristal piscou, revelando a silhueta indistinta do Décimo Segundo Ancião sentado em uma câmara escura de paredes de pedra, com postura relaxada, mas os olhos sem traços de compaixão.

Sua voz saiu fria e distante, como se a condição de Luke fosse apenas uma consequência colateral.

"Eu não supervisiono diretamente a célula de treinamento responsável por seu regime," ele respondeu com frieza, com tom indiferente. "Mas os resultados falam por si — há poucos dias, Luke conseguiu um avanço na Árvore de Mestres. O treinamento funcionou."

Mu Fan apertou ainda mais o cristal, os olhos arregalados de angústia, lutando para se manter calma.

"Ele está à beira da morte," ela murmurou, com a voz carregada de acusação.

"Sim. Ele se exauriu completamente no processo," continuou o ancião sem pausa, como se estivesse lendo um relatório. "Quatorze meses fugindo, caçado em vários sistemas estelares... o desgaste era inevitável. Sua conquista veio ao custo de sérios danos internos. Seus circuitos de mana estão destruídos, sim, mas nada que seja permanente. Os curandeiros já estão cuidando dele. Assim que seus circuitos forem reparados e seu corpo estabilizado, ele se recuperará."

Mu Fan desviou o olhar do cristal por um momento, uma mão cobrindo sua boca, e lentamente balançou a cabeça enquanto sua voz retornava, calma porém urgente.

"Você não entende o dano que está causando," ela avisou.

"Eu sei o Leo... Eu conheço a ligação dele com a família, e se Leo o vir assim... se ele ver seu irmão naquela condição, sem uma explicação clara... vai ser o caos."

"Ele começará a ver o Culto como seu inimigo e nada do que fizermos poderá mudar isso," ela advertiu, e desta vez, o ancião fez uma pausa, os dedos entrelaçados refletindo em pensamento, até que um sorriso tímido apareceu em sua voz.

"Sim. É exatamente por isso que, quando Luke acordar... as únicas memórias que terá serão de perseguição e tortura pela facção justa. Não de nós," ele esclareceu, com a voz calma e inquietantemente metódica.

"Assim, quando Leo finalmente reencontrar seu irmão, sua fúria cairá onde deve — sobre nossos inimigos."

"Não se preocupe," acrescentou o Décimo Segundo Ancião, sua voz desaparecendo à medida que o cristal escurecia, "pensei nisso. Não nasci ontem e sei como manter meus Candidatos a Dragão vivos e sob controle."

*Clique*

A ligação terminou, e a luz na sala foi esfriando novamente, enquanto Mu Fan permanecia sentada em silêncio, o cristal ainda apertado na mão como uma centelha de esperança morrendo lentamente.

Seus pensamentos corriam velozes, mas seu rosto permanecia impassível, salvo pelo leve tremor na mandíbula e o jeito que suas unhas cavavam a palma da mão.

Ela já tinha visto a crueldade do Culto antes, tinha até aceitado sua necessidade em tempos sombrios.

Mas isto…

Isto parecia diferente.

Se eles estavam dispostos a reescrever as memórias de um menino só para usar sua dor como arma… então, como poderiam ser diferentes ou menos malignos do que a facção justa que odiavam?

Um frio lentamente se instalou no peito dela, mais profundo do que o medo — mais gelado que o pavor — pois, pela primeira vez, Mu Fan começou a questionar se o próprio Culto ao qual jurara proteger poderia, um dia, se tornar seu inimigo que ela precisaria enfrentar.

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