Assassino Atemporal

Capítulo 290

Assassino Atemporal

(Mundo Congelado no Tempo, 98 Quilômetros da Entrada da Floresta, Dia 7 Anoitecer)

Claro que não foi mera coincidência que Karl, Raiden e Cipher tenham topado aleatoriamente com Leo e Bob no meio de uma floresta que desafiava direção, luz e lógica.

Foi Karl.

Sempre foi Karl.

No instante em que seus sentidos de nível transcendental detectaram padrões sutis de movimento dentro de um raio de um quilômetro, algo leve tocando uma raiz, algumas figuras se dirigindo para o oeste com precisão clínica— Ele começou a rastreá-las.

Ele não falou nada em voz alta. Ainda não.

Mas seguiu o rastro. Silenciosamente. Com paciência. Observando cada passo que combasse com movimento humano projetado, atento ao ritmo, ao espaçamento e ao peso de cada impacto.

Quando teve certeza de que o movimento era humano e, mais importante, não hostil, ele sinalizou discretamente aos outros na direção, com cuidado e sutileza.

Não que Raiden ou Cipher tivessem percebido, pois estavam simplesmente cansados demais, embotados e gratos demais para questionar aquela sorte repentina.

'Idiotas,' Karl pensou, com os lábios se contorcendo levemente enquanto mexia o conteúdo da panela, assistindo o caldo ferver sobre as pedras de fogo.

A temperatura se espalhava lentamente pelo clareira rasa, enquanto vapor subia da panela levando consigo um cheiro delicioso de ensopado cozinhando.

"Ainda não acredito que vocês dois se encontraram assim, de surpresa," disse Cipher, tirando as luvas e esticando os braços.

"Nem eu," acrescentou Raiden, sorrindo suavemente enquanto se sentava ao lado de Leo. "Quase tinha perdido a esperança de reencontrar vocês dois."

Incluso duvidava se vocês dois tinham retornado ao farol de emergência,

Leo não disse muita coisa.

Simplesmente deu um leve encolhimento de ombros e assentiu, como se toda aquela confusão tivesse sido inconveniente, mas não valesse a pena ficar pensando nisso.

Bob falou ainda menos.

Ele apenas mastigava lentamente o pão de nozes secas que Karl lhe entregara, evitando contato visual com alguém.

Enquanto isso, Karl permanecia agachado ao lado da panela, com a cabeça levemente inclinada enquanto mexia, mas seus olhos levantavam-se de tempos em tempos, observando todos eles alternadamente.

'Não me convence,' pensou, pegando uma concha de caldo e colocando na tigela de madeira de Cipher.

'Aquela história de proteger ela até o fim? Claramente é mentira.

Vi Patricia lutar, ela não era peso morto, mas não valia morrer por ela. E aqueles dois bastardos frios definitivamente a deixaram para trás assim que as coisas ficaram difíceis—' pensou, enquanto seus olhos primeiro se dirigiam a Leo e depois a Bob.

'De calma demais. Demais pra parecer natural. Nem uma tremer na voz quando disseram que ela tinha desaparecido. Claramente não estão tristes pela morte dela… Estão aliviados.'

O sorriso de Karl surgiu quase como uma risada interna.

'E olhe só o Raiden… sentado ali como se tivesse reunido sua família de novo. A expressão do Cipher não revela nada, mas nem ele está duvidando do que foi dito. Tolos. Os dois.'

Dropou mais um pedaço de raiz seca na panela e mexeu suavemente, deixando o vapor ofuscar sua visão enquanto seus pensamentos permaneciam afiados.

'O garoto Skyshard... e Bob. Eles não são apenas impiedosos. São frios. Bastardos de sangue frio que decidiram abandonar um colega e nem tremularam... Ambos são assassinos até a médula,'

Sorriu para si mesmo.

'A questão é... qual deles eu mato primeiro, quando deixarem de ser úteis?''


Depois do jantar, o grupo retomou seu trajeto para o oeste em formação— até que problemas começaram a surgir a cada duas horas, surpreendendo Leo e Bob.

O trecho relativamente tranquilo de viagem virou uma sequência constante de confrontos assim que se reuniram de novo com os outros, enquanto monstros de todos os tipos começavam a se aproximar de repente.

Primeiro uma grande píton.

Depois uma versão diferente do lagarto comum.

Porém, o verdadeiro desafio veio logo antes do próximo descanso, quando um grito baixo e gutural rasgou a floresta, mais alto e primal do que qualquer coisa que tinham ouvido até então.

*THOOM*

*THOOM*

*THOOM*

O chão vibrou a cada passo, as cascas se partiram e galhos estalaram sob o peso de algo enorme se aproximando pelo nordeste.

Então ele apareceu.

Um gorila gigantesco de seis braços, seu corpo coberto por uma espécie de armadura parecida com casca de árvore, com o peito arfando a cada respiração.

Musgo grudava no pelo, e fungos pulsavam por suas costas como tumores prontos para explodir.

Seus olhos brilhavam de um verde necrotico opaco, enquanto os seis punhos batiam contra o peito e ele soltava um rugido ensurdecedor, ecoando pela floresta.

*RAAAWWWRRR*

"Formação!" gritou Raiden, já desembainhando suas espadas, enquanto encaixava a pedra de mana de volta na cinta de utilidades.

Karl recuou, evitando o conflito.

Cipher desapareceu nas sombras.

Leo avançou para a direita.

E Bob não hesitou, correu na frente com seu golpe de velocidade [Aceleração Silenciosa], com sua faca alta reluzente, mirando a perna direita da criatura.

*CLANG!*

A lâmina ricocheteou na pele grossa do monstro, deixando quase nada de arranhão.

"Muito resistente!" gritou Bob, desviando enquanto uma enorme braçada descia para esmagá-lo.

"Vou tentar quebrar a armadura externa!" rosnou Raiden, saltando para a frente e cortando o ombro da criatura, causando faíscas, mas sem efeito de impacto.

Os olhos de Leo se estreitaram.

Seu passo mudou, ele se deslocou para trás, procurando a menor brecha para atacar.

*Clink—*

*Shunk*

Uma adaga foi colocada logo abaixo da axila do braço inferior direito, perfurando uma área macia sob a armadura de fungos, enquanto ele ativava [Golpe Mortal].

*BOOM*

A criatura berrou, enquanto a explosão arrancava completamente o braço direito, com Raiden aproveitando a deixa.

Ele seguiu com uma estocada precisa no lado oposto, enquanto Cipher reaparecia das sombras e lançava um raio de relâmpago condensado alimentado por mana direto na mandíbula aberta da criatura.

*KABOOM*

Ela cambaleou.

E foi nesse momento que Bob empurrou sua lâmina para cima— direto na parte inferior da coluna, para acabar de uma vez por todas com a vida do monstro.

*Thud*

A criatura caiu como um saco de pedras molhadas, com todos os seis braços tremendo violentamente, soltando um último gemido antes de ficar imóvel.

Respirando pesado, o grupo ficou em círculo ao redor do cadáver.

Vapor saía das feridas abertas da criatura. Seiva, como sangue, escorria do corpo para o solo, enquanto a floresta silenciava-se novamente.

"…Bom," murmurou Bob, limpando alguns rastros de seiva sanguinolenta do rosto. "Isso foi novidade."

"Essa é a segunda vez que enfrentamos um gorila assim," disse Cipher, respirando fundo. "Não são nada fáceis."

Leo se agachou ao lado do cadáver, examinando a armadura fungosa quebrada com olhos estreitos.

"Não encontramos nada assim nos últimos dias," afirmou, quase para si mesmo. "Na verdade, tudo o que encontramos foram aranhas…"

Ele parou de falar, enquanto Raiden olhava com uma carranca séria.

"Nada?," perguntou, com Leo balançando a cabeça em confirmação.

"Nada. Andamos dois dias sem topar com um único monstro," afirmou, e tanto Raiden quanto Cipher franziram o cenho ao ouvir isso.

"Temos sido atingidos por criaturas assim a cada duas ou três horas," murmurou Raiden, enxugando o suor da testa. "TAPS quase impossibilita o progresso."

Leo não respondeu em voz alta, mas seu olhar permaneceu fixo na criatura caída, enquanto uma ideia começava a se formar na sua mente.

Porque, se tinha uma coisa que ele aprendera com Patricia… era que a floresta nunca atacava sem motivo.

Algo sempre disparava o ataque.

E se estivesse mirando esse grupo, então alguém dentro dele certamente estaria atraindo a encrenca.

Mas… Quem?

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