
Capítulo 289
Assassino Atemporal
(Mundo Congelado no Tempo, 98 quilômetros da entrada da floresta, Leo e Bob, Dia 7)
Dois dias haviam se passado desde que eles deixaram Patricia para trás.
E, nesses dois dias, Leo e Bob percorreram mais terreno como dupla do que nunca fizeram como trio.
Esse aumento no ritmo pode ser atribuído ao fato de que não havia mais conversas ociosas atrasando-os.
Não havia pausas frequentes para ir ao banheiro, nem períodos excessivos de descanso, enquanto a dupla seguia em frente com um ritmo implacável, cortando o terreno com uma eficiência quase mecânica, que combinava com ambos.
Eles não trocavam mais de cinco frases nas últimas quarenta e oito horas.
Sem conversar, porém, mesmo tão calmos, eles se entendiam claramente, comunicando-se apenas com olhares e piscadas.
Durante 48 horas, evitaram falar sobre a decisão de deixar Patricia para trás, mas a tensão ainda pairava no ar.
A frieza brutal com que abandonaram uma companheira deixou claro que tipo de pessoas eles realmente eram, e a falsa impressão de camaradagem ruíra completamente.
Agora, tanto Bob quanto Leo sabiam que um poderia facilmente apunhalar o outro pelas costas, se surgisse a oportunidade, por isso ambos ficaram ainda mais cautelosos.
Claro, eles nunca discutiram isso abertamente, mas a tensão permanecia no silêncio entre os passos e nos momentos de descanso forçados, quando tinham que suportar a presença um do outro tão próximos.
Porém, hoje, ao acamparem perto de uma vala rasa rodeada por raízes musgosas e troncos de árvores semi-derrotados, Bob decidiu finalmente abrir o jogo sobre sua decisão de abandonar Patricia.
"Agora, vejo ela em toda parte." Bob falou sem rodeios.
Leo não levantou o rosto, mas seu pulso parou por um momento enquanto mordia a comida, colocando-a de volta na embalagem e esperando que Bob continuasse.
"Em cada sombra entre as árvores. Em cada sussurro ao vento." Bob seguiu, com a voz baixa e distante, sua taça de água intacta na mão. "É como se ela fosse um fantasma… e estivesse me assombrando."
Leo lançou um olhar. Seus olhos se encontraram. Mas ele não disse nada, enquanto Bob sorriu de modo amargo.
"Não me arrependo da decisão que tomamos. Acho que não tínhamos escolha. Mas esse mundo de merda não deixa você esquecer, né?"
A voz dele se embotou, como se pensamentos que fermentaram por horas finalmente tivessem explodido para fora.
Leo apenas assentiu ligeiramente.
"Está acontecendo comigo também," disse, mentindo descaradamente. "Mas o que você pode fazer? Foi a decisão certa a tomar."
Foi só isso que falou.
Porém, diferente de Bob, ele não tinha essa intenção.
Porque, para Leo, os últimos dois dias não foram tortura, mas sim uma espécie de recuperação.
Ele estava finalmente se acostumando ao novo ambiente, o silêncio brutal já não lhe arranhava a mente, e a falta de cores não pesava tanto sobre ele quanto no começo.
Se é que algo, os últimos dois dias foram os mais tranquilos que ele teve desde que entrou nesse mundo, sentindo aos poucos que se adaptava àquela escuridão.
Diferente de Bob, ele não tinha culpa, alucinações ou vozes disembarnadas sussurrando na escuridão.
Para ele, Patricia tinha desaparecido, e isso era o suficiente.
Seja como for, sua cabeça estava mais clara do que nunca.
Ele não estava em paz.
Mas também não estava sofrendo.
Claro, se pudesse escolher, nunca permaneceria nesse mundo para sempre. Mas, quanto à sobrevivência, ele tinha se adaptado muito bem.
Bob, por outro lado, parecia que não dormia há dias.
Seus olhos estavam vermelhos, injetados de sangue, e seus movimentos tinham um ritmo trampado e irregular—como se seus próprios membros já não confiassem neles mais.
Ele caminhava como alguém que se sustentava unicamente pelo orgulho, tentando parecer que tudo estava bem, mas Leo via além disso.
*Respiração longa*
Leo soltou uma respiração devagar pelo nariz e voltou sua atenção para a comida, sem interesse em fazer o papel de terapeuta.
De repente, um som interrompeu sua refeição mais uma vez.
*Estalo*
Ele ouviu um passo vindo de perto, e sua mão congelou sobre a embalagem.
Depois de novo—
*Estalo*
*Estalo*
Assim que ouviu aquilo, seu corpo se endireitou num instante.
Bob também se levantou imediatamente, os dedos se cerrando ao redor do cabo de sua grande faca, preparado para agir.
Sem dizer uma palavra, os dois assumiram uma formação, costas contra costas, armas na mão, músculos tensos, enquanto o som dos passos se aproximava… mais pesado… mais perto.
Até que, finalmente, surgiram da penumbra três figuras—primeiro vagamente, depois de forma inconfundível:
Raiden, Cipher e Karl.
Vivos, armados e igualmente surpresos ao vê-los.
Ninguém falou inicialmente.
Nem um cumprimento.
Apenas cinco homens, em silêncio—olhando um para o outro com uma mistura de incredulidade e tensão, como se não soubessem se deviam abaixar as armas ou brandi-las ainda mais alto.
Então Leo falou primeiro, com voz calma, porém cortante.
"Raiden… qual era o nome do bistrô onde nos conhecemos pela primeira vez?"
Raiden franziu a testa, mas respondeu sem hesitar.
"Venom Lily Bistro."
Um instante passou.
Depois, Raiden perguntou, com o olhar estreitando.
"Qual era o número da mesa em que nos sentamos na última vez?"
Leo não piscou. "Trinta e três."
Enquanto ambos lentamente abaixavam as armas, parecendo convencidos de que o outro era real e não uma miragem.
"Cadê a Patricia?" perguntou Cipher naquele momento, com a voz baixa e indecifrável, enquanto vasculhava ao redor do duo em busca de qualquer sinal dela.
Por um segundo, Leo hesitou antes de responder.
Ele olhou para Bob.
E Bob devolveu o olhar.
Foi uma troca silenciosa—breve, mas carregada de intenções—parecia que ambos estavam ponderando qual versão da verdade compartilhar, e quanto podiam revelar sem se comprometer.
Um suspiro passou entre eles.
Então, Leo avançou, com expressão indecifrável, a voz firme e fluida enquanto falava com confiança.
"Ela quebrou as regras da floresta," começou. "Acendeu uma fogueira quando paramos para descansar. Durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente. A floresta a marcou desde então."
Deixou a frase pairar no ar, dando tempo para que se assentasse.
"Não percebemos imediatamente, mas algumas horas depois, começaram os ataques. Primeiro uma aranha sozinha, depois dezenas. Depois milhares. E todos deles focados exclusivamente nela. Nenhum veio atrás de nós."
Respirou lentamente.
"Lutamos com todas as forças. Protegemos ela em ondas sucessivas. Mas nunca foi suficiente. Ela estava ferida. Em pânico. Escorregando."
Bob falou logo em seguida, com a voz baixa e direta. "Ficamos ali até ela dar seu último suspiro, mas não deu mais pra salvar —"
Raiden franziu a testa.
Cipher não disse nada.
Enquanto Karl relaxou, a boca entreaberta, como se a notícia tivesse curto-circuitado sua capacidade de falar.
Então—
Após uma longa pausa, Raiden finalmente assentiu uma vez, de modo solene e breve.
"Ela quebrou as regras da floresta e pagou o preço de suas ações. Vocês fizeram o que puderam, é uma pena… mas é o que é."
E, com isso, nada mais foi dito.