
Capítulo 314
Assassino Atemporal
Quando as paredes esfriaram o suficiente para que ele tocasse nelas, Leo retomou seus esforços de escalada, pressionando as mãos contra a superfície queimada e começando a se içar pelo eixo vertical mais uma vez.
Seus dedos encontraram a aderência nas ranhuras da rocha que ainda estavam quentes, mas já não queimavam, enquanto se arrastava para cima polegada por polegada, sentindo os músculos das costas trabalharem após vários dias.
Dez metros.
Vinte.
Quarenta.
Seus músculos e ossos doíam por causa do esforço, mas a escalada já era viável — não mais uma sentença de morte, pois, após beber a poção de resistência, sentia-se energizado e com a energia sustentada durante toda a subida.
Finalmente, por volta de cem metros de altura, sua mão tocou uma saliência áspera que se projetava da parede, e logo além dela havia um túnel estreito que se ramificava horizontalmente, com um teto que não passava de quatro pés de altura.
Leo puxou-se para dentro dessa passagem, com um leve gemido, os cotovelos rangendo contra o chão, o peito arrastando-se na pedra, enquanto começava a rastejar pelo túnel em quatro patas, a tocha presa entre os dentes enquanto o caminho se estendia infinitamente à sua frente.
'Espero que não seja mais um beco sem saída,' pensou Leo consigo mesmo, enquanto continuava a rastejar, esperando que seus esforços não fossem em vão no final.
No entanto, enquanto só rezava para que não fosse um beco sem saída, ou um túnel que o levasse à morte, ele nunca poderia imaginar aonde aquilo realmente levava.
Depois de rastejar cerca de 200 metros, ele encontrou uma grade metálica que bloqueava seu avanço.
*CLANK*
A grade tremeu ao ser probeada com as mãos, tentando entender se era uma ilusão de óptica, mas não era.
*Ting*
*Ting*
Ele estendeu a mão novamente, passando os dedos pela grade áspera, enferrujada, que definitivamente estava embutida na pedra ao redor e claramente era artificial.
'O quê? Uma grade de metal? Aqui embaixo?' pensou Leo, enquanto seu coração pulava uma battida.
Porque uma grade significava que alguém, uma entidade consciente, a tinha construído.
O que indicava que um humano ou alguma das espécies humanóides estivera ali, e fosse inteligente o suficiente para montar fábricas e construir coisas.
'Que diabos? Será que estou sonhando?' Leo se perguntou, ao se puxar e dar um tapa na própria face só para ter certeza de que não estava sonhando; porém, aquilo não era piada.
A grade era, sem dúvidas, real.
'Mas quem poderia morar num mundo contaminado assim?' Leo pensou, enquanto a luz da tocha passava pelas juntas da grade, examinando sua fabricação.
As barras eram grossas, mas antigas.
Enferrujadas, descascando ao menor toque, pareciam feitas à mão, não cortadas por máquinas, pois o tamanho de cada barra não era exatamente igual, e as bordas pareciam modeladas à mão, e não usaram corte mecânico.
Leo não perdeu mais tempo, após essa avaliação, sacou uma de suas adagas e a encaixou entre as juntas enferrujadas, puxando lentamente com cuidado até que o metal ceder com um estalo relutante.
*TAK*
Ele chutou as barras soltas de lado e, então, passou pelo espaço —
— ao se dar de conta de que estava de pé em algo que fez sua respiração ficar presa.
Uma sala.
Uma sala de verdade.
Não de pedra. Não de terra. Mas com piso liso e revestido de azulejos.
Paredes decoradas com murais desbotados.
Uma mesa quebrada em um canto, livros espalhados como folhas secas.
E um enorme mural rachado pintado na parede ao longe — retratando um sol que ele nunca tinha visto brilhar neste mundo, e uma pintura de doze bestas posando em semi círculo sob esse sol.
Os olhos de Leo se arregalaram ao perceber que aquilo não era uma caverna aleatória ou uma cabana de sobrevivência.
Isto… era uma conjuração.
Uma câmara do conhecimento.
Um relicário deixado por alguma raça que viveu ali por muito tempo.
Porém, o que Leo não conseguia entender era como?
Como uma raça conseguiu sobreviver nesse mundo parado no tempo?
Como tudo neste mundo tornaria a civilização impossível?
E ainda assim, apesar de suas dúvidas, o que se desenrolava diante dele era algo altamente real.
"Uau… isso é interessante," refletiu Leo ao iluminar novamente a pintura na parede, observando melhor as doze bestas retratadas.
A tinta era antiga, rachada e seca, mas a imagem permanecia intacta, provavelmente por alguma técnica de pintura especial criada para resistir ao tempo.
No lado direito mais distante, a primeira besta era uma enorme serpente com chifres, enrolada ao redor de uma montanha quebrada, suas escamas pintadas em traços alternados de preto e branco, olhos estreitos de um verde venenoso que parecia fitar qualquer observador, mesmo agora, com presas duplas gotejando um líquido dourado.
A segunda era um cervo prateado, com galhadas que se estendiam como galhos de uma árvore morta, cada ponta marcada com símbolos místicos, seu corpo emitindo um brilho tênue, como se a pintura tivesse capturado luminescência na tinta.
A terceira era um macaco, robusto, com braços desproporcionais, com chamas saindo das costas e ombros como se fossem asas. Seus olhos ardendo de vermelho, as mãos manchadas de sangue, como se estivesse no meio de uma batalha.
A quarta era uma ave magra, quase esquelética — asas rasgadas, ainda assim voando pelo céu, com bico aberto em um grito silencioso. Suas penas tinham traços finíssimos, que cintilavam sob a luz da tocha, como se estivessem vivas com estática.
A quinta era um lobo azul-marinho, em posição de ataque, com dentes à mostra e oito caudas abanando atrás dele como uma tempestade. Seus olhos estavam fixos na direção à frente, afiados e inteligentes, enquanto sua pelagem parecia exageradamente bem conservada comparada às demais.
A sexta tinha aparência de um lagarto humanoide de pé, com corpo revestido em armadura de pedra e cabeça coberta por um capacete rudimentar, com olhos de laranja que brilhavam intensamente.
A sétima era uma coruja — suas asas abertas, olhos arredondados, cada pena com pontas de prata e ouro. Ela pousava num obelisco quebrado, com a cabeça inclinada de lado, como se estivesse analisando o observador.
Quanto mais Leo olhava, mais incomodado se sentia.
A oitava era uma aranha, gigante, pintada em sombras. Seu corpo era de uma cor tão escura que, sob a luz da tocha, absorvia mais luz do que refletia, e Leo praticamente sentia o frio dela observando. As patas ocupavam metade do mural, e ao redor, outras figuras estavam envoltas em seda.
A nona era um boi, imenso e de aparência pacífica, com pele de mármore liso e chifres curvos como a lua. Estava em meio a ruínas, intocado, com os olhos fechados, parecendo estar meditando.
A décima era um leão voador, com asas em chamas, rasgando os céus com uma nuvem de fumaça branca atrás dele. As patas pareciam cravadas em uma nuvem de tempestade, seu rugido congelado no tempo, como se estivesse dividindo os céus.
A décima primeira era uma besta que Leo não conseguia nomear — uma criatura que mudava de forma, feita de anéis e espinhos sobrepostos. Tinha muitos membros, muitos olhos, mas nenhuma forma coerente, como se o artista tivesse pintado o próprio caos.
Pois a aura que essa criatura emitia não era apenas selvagem — era insana.
E, finalmente, a décima segunda…
A décima segunda fez com que ele parasse de respirar por um momento.
Era uma dragão.
Não do tipo das histórias da noite, ou dos livros infantis.
Mas uma besta rubra, majestosa e aterradora, com asas encolhidas como um manto, chifres curvados para trás, e fogo escapando de sua boca como se estivesse no meio de um rugido congelado.
Seus olhos estavam fechados, suas garras dobradas para dentro, mas a simples presença de sua figura irradiava um poder adormecido.
Diferente das demais, o olhar do dragão não se voltava para quem olhava.
Ele contemplava o sol.
O único entre os doze.
Leo recuou, a mente acelerada, sentindo na barriga que aquele mural era mais do que uma simples pintura aleatória.
Era um aviso.
Ou uma profecia.
E, pela primeira vez na vida, sentiu uma vontade intensa de desvendar o segredo por trás dele.