
Capítulo 316
Assassino Atemporal
Até o décimo segundo dia, as folhas de pergaminho de Leo estavam cheias de linhas de símbolos desenhados à mão e traduções rudimentares anotadas ao lado.
O brilho da lanterna tremia sobre a escrivaninha desordenada que ele havia conquistado como seu espaço, iluminando um caos de rolos de pergaminho, pena quebrada e rações semi-consumidas espalhadas pela superfície de pedra.
Ele estava perto.
Sentia isso.
Mas ainda faltava alguma coisa.
Alguns símbolos — especialmente aqueles gravados na parede ou escritos repetidamente nos pergaminhos mais antigos — continuavam surgindo, sem parar. E, no entanto, nenhuma combinação de cruzamentos entre o livro infantil, o vocabulário que construíra ou os anotações que fazia dava uma tradução limpa.
Não eram palavras simples, não representavam objetos simples como fogo ou água, nem ações básicas como comer ou correr.
Eram conceitos.
Ideias.
Fundamentos.
Então, Leo fez algo que nunca tinha feito antes: começou a nomear as coisas por conta própria.
"Este aqui…" murmurou, traçando um glifo em espiral que tinha visto esculpido ao lado de quase toda figura humanoide. "Este aqui faz sentido em frases quando leio como 'nós, o povo desta terra', pois parece ser um símbolo de civilização. Mas, para facilitar, vou chamar os habitantes desta terra de 'antigos'."
Escreveu ao lado do símbolo:
[Símbolo em espiral] – Antigos
O próximo glifo era uma linha curva que terminava em um pico agudo — frequentemente aparecia perto de figuras caídas ou ossos, e só fazia sentido numa frase quando ele interpretava como morte. Então, Leo decidiu chamá-lo assim.
[Símbolo de gancho] – Morte
Outro símbolo, mais suave, que se repetia perto de plantas crescendo, mãos abertas e círculos de crianças. Esse transmitia calor — toda vez que o via, instinctivamente, pensava em respiração e coração pulsante.
[Triângulo em laço] – Vida
Um a um, Leo nomeava vários desses símbolos, começava a lê-los em frases complexas para verificar se faziam sentido, aos poucos construindo seu próprio vocabulário.
Embora ainda não soubesse exatamente quais eram as palavras originais para esses conceitos, seu cérebro não rejeitava mais os símbolos como meros sinais estranhos.
Pelo contrário, começava a aceitá-los. A conectá-los. Passava a associar cada glifo repetido à ideia mental que havia forçado nele, até que ler uma página deixasse de ser uma espécie de decifração de loucura e se tornasse como olhar para uma folha codificada que só ele poderia entender.
Porém, ele não parou por aí.
Continuou avançando.
Atribuiu uma palavra para cada emoção, objeto, ação que conseguiu reconhecer, às vezes até inventando sílabas que soavam apropriadas para refletir o tom do que ele imaginava que esses Antigos poderiam ter chamado no passado.
E, lentamente, de forma metódica e obsessiva, a língua deixou de parecer algo estranho.
Deixou de parecer morta.
E, embora nunca se considerasse um linguista ou alguém o bastante curioso para se dedicar a algo acadêmico por tanto tempo, após 16 dias de trabalho árduo, ele finalmente dominava o suficiente a língua dos Antigos para desvendar os segredos que eles deixaram para trás.
"Certo… hora de descobrir o que aquela maldita pintura realmente significa," murmurou Leo, estalando o pescoço ao se recostar na escrivaninha, afastando a confusão de pergaminhos soltos, tecido manchado de tinta e embalagens vazias de ração.
Começou a organizar os rolos que ainda não tinha aberto, separando-os pelo ritmo da escrita, margens ilustradas e pistas de contexto que já havia começado a perceber, como símbolos de reinos, marcos geográficos, datas e dividores estranhos que lembravam etiquetas de temas modernos.
História, Geografia, Ciências, Língua, Cultura e Rituais.
A primeira categoria que mergulhou foi História — porque achou que ali estaria a melhor ligação com o mural.
Aberta o manuscrito mais bem conservado que encontrou, com capa rasgada e lombada torta pelo tempo, mas ainda firme pela determinação de quem o havia escrito.
Quando seus olhos caíram na primeira página, seu coração pulou.
Aquele primeiro glifo? O espiral. Aquele que ele havia rotulado como "Antigos".
E ao lado, em padrões repetidos, o símbolo do lagarto divino ereto, aquele vestindo armadura de pedra no mural, com olhos pontilhados de laranja.
Leu devagar, murmurando em suas próprias sílabas fonéticas, buscando entender o significado além do texto, até que a imagem fosse ficando mais clara em sua mente.
Era um registro deixado por criaturas humanoides bestiais.
Seres que se assemelhavam assustadoramente aos lagartos modernos, embora com algumas diferenças marcantes.
Os "antigos" que um dia prosperaram aqui eram inteligentes, eretos e fervorosamente devotados ao lagarto divino, que acreditavam não ser apenas seu criador, mas a centelha de sua consciência. Conheciam-no como Zharnok, um nome que Leo destacou mentalmente três vezes enquanto continuava a tradução.
Cidades inteiras levavam seu emblema.
Cerimônias eram realizadas a cada solstício para renovar o vínculo de sangue com ele.
Recém-nascidos eram testados quanto aos sinais de "pureza nascida do fogo", uma expressão que Leo interpretou como o potencial de usar magia ou carregar traços divinos.
E quanto mais lia, mais se surpreendia ao perceber uma coisa enorme —
Essas pessoas… esses Antigos… não estavam sós em sua adoração.
Eles tinham rivais.
Tribos guerreiras que dedicavam sua lealdade a diferentes deuses-bestiais — doze ao todo, exatamente como mostrava o mural.
Leo leu relatos de templos queimados, conversões em massa, duelos divinos entre campeões de tribos distintas — guerras rituais travadas não apenas por território, mas para provar qual linhagem de divindades era mais favorecida.
Não demorou a aparecer outra frase que chamou sua atenção.
A Escuridão.
Ele releu aqueles dois símbolos várias vezes, rabiscados em uma escrita cada vez mais frenética à medida que o texto avançava. Parecia até que a própria tinta começou a entrar em pânico.
"A luz do céu… cessou."
"Os deuses-bestiais não atenderam mais às orações."
"A mana escureceu."
As sobrancelhas de Leo se franziram enquanto ele virava a página, apenas para encontrar a próxima seção rasgada, com as bordas queimadas, como se quem a tivesse escrito entrasse em loucura e a rasgasse antes de queimá-la.
Mas o que restou do livro foi suficiente para que ele compreendesse que este mundo nem sempre esteve em silêncio.
Que esse espaço não foi criado junto com o universo, como muitos historiadores modernos acreditam.
Parecia que ninguém fora do mundo exterior realmente sabia como mundos parados no tempo surgiram — se é que tinham origem antes de se tornarem isolados ou se continham civilizações anteriores.
O que Leo leu aqui era uma prova irrefutável de que esse mundo já fora vivo e florescente.
Cheio de sol, deuses antigos e guerra.
E então — algo aconteceu.
Algo que transformou tudo nisso aqui, um mundo parado no tempo.
Mas o que poderia ter sido?