Assassino Atemporal

Capítulo 294

Assassino Atemporal

(Mundo real, planeta Tithia, Sede do Culto Maligno, Escritório do Primeiro Ancião)

"Haha—"

O Primeiro Ancião soltou uma risada seca, sem humor, enquanto seus olhos percorriam o relatório recém-chegado disposto diante dele.

Quase não queria acreditar nela à primeira vista.

Pois acreditar significaria aceitar que tudo o que ele tinha construído, tudo pelo que tinha sangrado, tinha chegado a nulidade no final.

Significaria admitir que setenta e cinco anos de serviço, sessenta anos de planejamento e uma geração inteira de dedicação haviam se desfeito mais rápido do que ele conseguia conter.

Porém, negar não ia mudar a tinta gravada na página.

Assim como fechar os olhos não faria a verdade desaparecer.

Setenta e cinco anos.

Era assim que ele servia ao culto, há sessenta anos vestindo a túnica de ancião, um título conquistado não por antiguidade ou nascimento, mas pelo sangue, pela paciência e por uma devoção meticulosa em construir algo maior que ele mesmo.

Durante esses sessenta anos, ele suportou traições internas e cercos externos, mas nunca vacilou em sua missão.

Sobreviveu a guerras contra a facção dos justos e às politicagens dos anciãos dentro do conselho.

Espancou rebeliões com uma mão enquanto oferecia oliveiras com a outra, navegando com precisão as marés mudantes de guerra e diplomacia, chegando a negociar paz com representantes da facção dos justos sempre que o culto precisasse que ele fosse o mediador, trocando concessões menores e ativos periféricos de bom grado só para garantir mais alguns anos de crescimento e preparação ininterrupta.

E, mesmo assim, apesar de tudo isso, a crise diante dele agora parecia a prova mais perigosa de toda sua existência, não por ser repentina ou avassaladora, mas por estar enraizada na própria estrutura de tudo que ele tinha construído com as próprias mãos.

Nas últimas seis décadas, ele alimentou ativos secretos, infiltrando-os como parasitas sob a pele da Aliança dos Justos, e ninguém no governo universal suspeitava de nada.

Ele vinha corrompendo centenas de cargos e linhagens com subornos, segredos e conversões silenciosas, transformando oficiais leais após oficiais leais em ferramentas do culto. Agora, tudo começava a desmoronar.

Devagar, mas com firmeza, tinha criado um império de simpatizantes do culto dentro do sistema universal; entretanto, após o ataque à Arena do Deus do Céu, infelizmente, via tudo se desfazer diante de seus olhos.

Décadas de sabotagem paciente se dissolviam em semanas, enquanto agentes que ele treinara, subornara e chantageara ao longo de anos eram expostos e exibidos nas ruas como provas de uma purga há muito planejada.

Era como assistir a uma teia de aranha, que ele tecera fio a fio ao longo da vida, sendo rasgada numa tempestade repentina, com seus fios se rompendo em rápida sucessão, enquanto tudo que ele podia fazer era sentar, escutando o vento uivar.

[Trinta e dois agentes infiltrados revelados nas últimas quarenta e oito horas… seis operações comprometidas… quatro linhas de suprimento cortadas… e dezoito aliados neutros nos desassociaram publicamente]

O relatório dizia isso, enquanto o primeiro ancião não conseguia evitar uma risada amarga diante do humor sem humor.

'Sabia que isso ia acontecer,' pensou, sua voz seca até mesmo em sua própria mente.

Ele tinha alertado todos. Todos eles.

Avisou o Conselho de que mostrar suas cartas de forma tão pública e catastrófica e atacar a Arena do Deus do Céu não levaria à dominação, mas sim à retaliação.

No entanto, eles não seguiram seu conselho.

Os jovens anciãos que estavam sedentos por sangue incentivaram a violência, e agora ele se via tendo que limpar a bagunça, tentando minimizar as consequências daquele grande ataque.

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> Desmantelar a célula-13. Queimar todos os aparelhos de comunicação usados naquela operação e destruir qualquer prova que possa ligá-la ao culto.

> Reforçar a segurança dos planetas Juxta, Merdith e Rayon, enviando as melhores forças de segurança e armamentos o quanto antes.

> Ativar o Projeto Semente Oca, começar a espalhar rumores de que o próximo Candidato a Dragão foi identificado e está sendo avaliado pelo conselho.

> Recolher ou eliminar ativos expostos antes que possam ser interrogados pela facção dos justos, e retirar os guerreiros Transcendentes que ainda operam de modo clandestino no sistema universal.

> Informar a todos os anciãos que a presença deles será obrigatória em uma reunião de emergência em dois dias, aqui em Tithia.

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O ancião escreveu, enquanto enrolava os pergaminhos um a um e os entregava aos assistentes, que sabiam entregá-los às partes relevantes.

Expor e exibir alguns agentes do Culto Maligno escondidos no sistema nunca ia ser suficiente para a Aliança dos Justos, e o primeiro ancião sabia disso melhor do que ninguém.

Na sua quase cem anos de experência lidando com eles, qualquer humilhação era sempre retribuída por uma grande retaliação militar, o que significava que, cedo ou tarde, um grande confronto na fronteira de Juxta, Merdith ou Rayon era quase certo, pois esses eram os planetas fronteiriços que compartilhavam limites com a Aliança dos Justos.

"A questão não é se, mas quando… quando eles vão nos atacar, e quão forte será o golpe?" murmurou o Primeiro Ancião, a voz baixa e áspera, enquanto dobrava o relatório e se recostava na cadeira, olhando fixamente para a lanterna tremeluzente acima.

Normalmente, essas respostas vinham de sua rede — dos agentes que ele plantara dentro do governo, cujos sussurros e fragmentos sempre pintavam o quadro maior antes mesmo do golpe acontecer.

Mas agora, essa rede estava rompida.

Ele não podia mais confiar na sequência constante de avisos que uma vez carregava, pois esses ativos estavam mortos, comprometidos ou simplesmente em silêncio, enquanto a agressividade do Quarto tinha desfeito cada medida de controle que ele mantivera com tanto esforço ao longo de décadas.

"A imprudência do Quarto agravou tudo," suspirou, os dedos se cerrando levemente enquanto fixava o olhar na esquina vazia da sala. "Se não fosse por ele… e pela sede de guerra do Segundo, nada disso teria acontecido tão cedo, e o culto estaria à beira do colapso."

Sua voz tornou-se um sussurro, quase com medo de que as próprias paredes o traíssem.

"Preciso visitar Lorde Soron…"

Ele hesitou— porque sabia que não deveria.

Soron tinha dado ordem clara para não ser perturbado, a menos que fosse uma emergência absoluta e inquestionável. Mas, se aquilo não fosse uma emergência… então o que seria?

"Preciso consultá-lo… quer ele me veja ou não… tenho que fazer a jornada até Ixtal e encontrá-lo," murmurou o primeiro ancião, levantando-se com uma melancolia que refletia idade, peso e resignação.

Porque, embora o moral do culto ainda fosse forte, impulsionado pelo sucesso dramático do ataque à Arena do Deus do Céu, aquela moral era frágil — uma chama que podia se apagar facilmente.

Se mesmo um planeta fosse perdido.

Ou se a Aliança dos Justos avançasse rapidamente com vitórias decisivas.

Então, todo o progresso que haviam feito desapareceria numa noite, e o culto, por mais que tivesse glória e respaldo divino, começaria a se fragmentar por dentro.

E ele não podia permitir isso. Não enquanto fosse o primeiro ancião, ao menos, enquanto orava para que o Deus Soron tivesse um caminho para ele seguir quando suas próprias forças acabassem.

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