
Capítulo 295
Assassino Atemporal
(Planeta Ixtal, A Floresta Perdida, Portal Exterior da Residência de Soron)
Mavern caminhava descalço pela floresta perdida, em respeito ao Grande Deus Soron.
Sem roupas caras adornando seu corpo, sem escoltas atrás dele e sem guardas ao seu lado, enquanto avançava pelo belo terreno da Floresta Perdida em um estado de transe calmo.
Seus passos eram lentos, muitas vezes parando para admirar a beleza daquele cenário único, antes de seguir adiante, pois sabia que não podia permanecer ali para sempre.
Há décadas não vinha aqui, nem sozinho, e nunca sem convite.
Porém, desta vez, não esperou aprovação ou protocolo. Movia-se como um homem que já sabia que o peso de sua carga justificava a quebra de regras, caminhando pacientemente até chegar à clareira que conhecia muito bem.
Lá estava… A fortaleza do deus!
Residência de Soron.
Simples e sem adornos, sem guardas na entrada, sem tochas ao lado das paredes, e sem pressão espiritual visível de dentro. Parecia nada mais do que uma cabana esquecida de um nobre, enterrada sob heras e do tempo. No entanto, Mavern sabia, melhor do que ninguém, que nenhum lugar no universo era mais sagrado do que aquele que se encontrava diante dele agora.
Ele não bateu.
Não anunciou sua presença.
Nem sequer olhou para cima.
Simplesmente deu passos até a entrada, ajoelhou-se e colocou a cabeça contra a pedra externa da porta, ajoelhando-se em absoluto silêncio, permanecendo imóvel, ciente de que, se Soron quisesse vê-lo, a porta se abriria muito antes dele chegar a ponto de perturbá-la.
E, como previsto—
Ela se abriu.
A porta se moveu lentamente, silenciosa, enquanto o ar se ajustava suavemente e um aroma familiar de cobre e incenso se espalhava, enquanto do interior da escuridão emergia uma figura que Mavern não via há anos, mas que nunca esquecera.
O grande deus Soron.
Alto, mas magro, vestindo vestes extraordinariamente grandes, que pareciam várias tamanhos maiores que seu corpo ressecado, com pele pálida, bochechas fundas e fios longos de cabelo negro que caíam sobre os ombros como seda morrendo, embora não se parecesse com o deus da guerra que fora um dia, a pressão no ar mudava da mesma forma.
"Pode entrar", disse Soron suavemente, virando-se e voltando para dentro, sua voz baixa e sem força, mas ainda assim clara o suficiente para atingir a alma de Mavern, enquanto o Primeiro Ancião finalmente ergueu a cabeça e se levantou.
Não disseram mais nada.
Seguiu seu senhor para dentro.
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Soron caminhava à frente com a graça de um guerreiro veterano, passos leves e descontraídos, seu corpo balançando rítmica e naturalmente. Apesar da idade avançada e de inúmeras questões de saúde, o velho deus não demonstrava sinais de dificuldades de mobilidade, como se seu corpo tivesse feito as pazes há muito tempo com seu estado constante de dor e decadência.
O Primeiro Ancião Mavern seguia alguns passos atrás, descalço e com uma leve reverência, não por obrigatoriedade ou medo, mas por instinto. Estar na presença de Soron fazia até os anciãos mais orgulhosos se sentirem como estudantes novamente, enquanto o peso da reverência se mostrava mais forte do que qualquer comando poderia impor.
O ar dentro do castelo era quente, porém seco.
Um leve aroma de ervas cristalizadas e cobre parecia pairar por toda parte, como se estivesse fundido a cada pedra das paredes.
E, embora os corredores não tivessem grande ostentação, sem ouro, sem murais, sem tetos abobadados, ainda assim sentia-se uma poderosa energia contida ali, como se as próprias paredes irradiasssem pressão divina após abrigar Soron por mais de um milênio.
Devagar, dirigiram-se a uma mesa baixa, circular, no centro de uma sala de hóspedes, onde uma chaleira de barro repousava sobre brasas ardentes, a água já quente, mas sem ferver, como se estivesse esperando por eles.
Soron não falou.
Ele não chamou as xícaras com um estalo de mana ou acendeu o fogo com o calor divino.
Pelo contrário, agachou-se lentamente, com a graciosa cautela de um idoso acostumado com dor, e com as próprias mãos levantou a chaleira para servir o chá, num gesto desacelerado, próprio de um mortal.
*Trrrr—Fshhh!*
O vapor subia em finos fios que dançavam no ar, capturando leves raios de luz de uma janela próxima. Quando a xícara ficou cheia, Soron deslizou-a pelo tampo da mesa na direção de Mavern, sem olhar para ele.
"Beba", disse suavemente, com a voz calma e firme, carregada daquela sutileza que nunca precisava de volume para ordenar obediência.
Mavern obedeceu, pegando a xícara com cuidado, deixando o calor penetrar seus dedos antes de levá-la aos lábios.
O sabor era levemente doce, quase medicinal, mas o que mais o impressionou foi o efeito residual do chá!
Quase imediatamente após o primeiro gole, Mavern sentiu como se um nó em seu peito fosse desfeito, sua respiração ficou mais leve, os ombros relaxaram, e a névoa que envolvia seus pensamentos parecia se dissipar.
Seus olhos brilharam lentamente, encontrando os de Soron por um instante, e naquele breve momento, todo o peso do culto, da liderança, do sofrimento e dos segredos parecia menor.
"Você mesmo fez o chá, meu senhor?" perguntou Mavern, sua voz mais baixa do que pretendia, enquanto a pergunta escapava sem pensar.
Soron sorriu suavemente, ainda sem olhar diretamente para ele, enquanto se servia de uma xícara.
"Claro. Tenho um jardim de chás no meu quintal, e gosto de preparar e fazer infusões com minhas próprias mãos", respondeu, tomando um gole. "É um dos meus hobbies que me lembra o que é ser humano."
Mavern concordou lentamente, sem saber exatamente como reagir, o chá ainda aquecendo-lhe o peito como uma lembrança de tempos antes das responsabilidades.
"Deveria sentar, tomar chá e relaxar mais às vezes", disse Soron após uma pausa, finalmente olhando para ele com um olhar firme e sem idade.
"Sua saúde está se deteriorando mais rápido do que a minha, criança... E não tenho certeza se o culto pode perder mais um primeiro ancião por um tempo."
Mavern baixou um pouco os olhos.
Envergonhado por estar envelhecendo a passos largos.
"Vou lembrar disso, meu senhor", respondeu, enquanto Soron assentia.
"Então… o que te traz aqui hoje? Você parece bastante preocupado… Pequeno", perguntou Soron com uma voz tranquila, enquanto Mavern soltava uma risada seca.
No caminho até aqui, ele tinha um discurso preparado sobre como iria explicar seu problema ao grande deus.
No entanto, ao chegar e sentar para um pouco de chá, não conseguiu mais se expressar de forma tão conservadora. Simplesmente desabou como uma criança perante um pai.
"Meu senhor… o culto volta a estar em guerra.
Apesar de não haver ataques, eles são uma questão de tempo, e tenho medo que não tenhamos força para reprimir a facção righteous.
O moral dentro do culto está no auge, e os jovens estão clamando por luta, mas não tenho certeza se somos fortes o suficiente para vencê-la.
Sem você liderando na linha de frente… realmente não tenho esperança de sobrevivermos a essa guerra…" começou Mavern, quando Soron sorriu suavemente.