Assassino Atemporal

Capítulo 287

Assassino Atemporal

(Mundo Congelado no Tempo, 49 quilômetros da Entrada da Floresta, Equipe do Leo, Dia 4)

Tudo começou algumas horas após Patricia acender a fogueira.

Por um tempo—exatamente duas horas—parecia que seu pequeno ato tinha passado despercebido.

Talvez, bem talvez, os avisos tivessem sido exagerados, e a floresta não se importasse com uma faísca que queimou por menos de quinze segundos.

No entanto, essa ilusão se quebrou quando, sem aviso prévio, uma aranha de madeira caiu das copas das árvores como uma maldição.

BUM—

Um som agudo veio de cima, como o estalo de um galho—só que mais pesado, e Instintivamente, Patricia olhou para cima.

—Que porra é essa?— ela pensou, enquanto observava o ventre de uma criatura de seis tentáculos cair sobre ela.

Ela queria evitá-la, porém já era tarde demais, pois, no momento em que percebeu sua descida, ela já estava no chão diante dela.

A criatura parecia uma aranha, se é que isso poderia ser chamado assim, pois claramente era feita de madeira e tinha buracos vazados onde deveriam estar os olhos.

Suas patas eram longas e articuladas como lanças, e todo o corpo reluzia com o brilho insalubre de seiva viscosa.

"Que diabo é essa coisa horrorosa?" Patricia pensou alto, enquanto a criatura não hesitou e avançou direto nela.

"SEU, MOVA!" Leo gritou, reagindo num piscar de olhos ao puxar Patricia pelo pulso para o lado, enquanto a faca de Bob cortava de baixo para cima—atravessando uma das patas da aranha, que escorregou para o lado enquanto roía um chiado semelhante ao ranger de madeira podre.

A luta dali em diante durou meros segundos.

Enquanto Leo arrancava mais duas patas, imobilizando completamente a criatura, Bob introduzia a faca no núcleo de mana dela.

"Que porra... foi aquilo?" Patricia tossiu, com a respiração acelerada, enquanto encarava a carcaça sem vida.

Leo não respondeu imediatamente.

Nem Bob.

Porque nenhum dos dois tinha sentido antes quando ela aterrissou.

E isso os assustou mais do que a própria criatura.

"Eu não ouvi," Bob murmurou. "Não senti. Não vi. Nem sinal."

"Aquilo ficou escondido lá em cima o tempo todo?" Leo perguntou em voz baixa, com tom firme e uniforme, enquanto lentamente olhava para o denso topo das árvores acima deles, onde nada se movia nem qualquer sombra se remexia.

"A gente vem checando o chão o tempo todo," Patricia sussurrou.

"E se a ameaça vinha de cima?" ela perguntou, enquanto, pelos próximos minutos, os três trocavam de turno de vigilância para ameaças vindas do alto, mas nada apareceu.

Sem ranger de galhos.

Sem barulho de folhas.

Apenas aquela mesma quietude esticada, que vinham experimentando na floresta desde o dia em que entraram.

"Acredito que esteja tudo tranquilo... Pode ser um predador isolado," Patricia sugeriu enquanto percorriam mais um quilômetro, mas então—


*CRACK*

...

...

*THUMP*

Mais uma aranha caiu.

Depois outra...

Depois outra...

*CRACK-THUMP*

*CRACK-THUMP*

Uma.

Duas.

Seis.

Nove.

Doze.

De todas as direções, elas caíam sobre eles como neve sob uma tempestade de granizo, enquanto dezenas daquelas mesmas aranhas de madeira começavam a se mover e atacar Patricia de forma descontrolada, em sincronia.

"Se preparem!" Leo rugiu, já avançando para interceptar, enquanto uma aranha se lançava na direção do rosto dela.

Bob jogou sua adaga na cota torácica de outra e puxou uma segunda do cinturão com um movimento fluido.

O trio se moveu como um só. Ou melhor—duas pessoas se moveram para proteger uma.

Patricia tentou lutar, mas seu pânico atrapalhou a mira. Ela lançou feitiços ofensivos de forma selvagem, em arcos que mais queimavam o chão do que atingiam os inimigos, enquanto as aranhas se tornavam ainda mais coordenadas, agressivas, sem jamais desviar o foco.

Nenhuma delas atacou Leo.

Nenhuma atacou Bob.

Era só ela.

Uma delas até passou raspando pelo ombro de Leo, ignorando completamente a presença dele, tentando pular para o peito de Patricia.

E foi aí que tudo fez sentido.

Bob percebeu primeiro.

"Elas não estão aqui por nós," ele rosnou, enfincando sua lâmina nas costas de uma aranha.

Leo seguiu um instante depois, puxando Patricia para trás de si.

"Elas estão caçando ela."

Mesmo assim, eles lutaram.

Mesmo assim, não a deixaram cair.

E após três minutos de violência, troncos quebrados, estilhaços de madeira e respiração pesada, a última aranha caiu, Bob pisando com força na cabeça torcida dela, que estalou com um som alto no silêncio que se seguiu.

Patricia caiu de joelhos, suando ao ponto de escorrer, com os braços trêmulos.

Ela olhou para eles, com a voz quebrada por um acesso de pânico.

"Por quê... só comigo?" ela sussurrou.

Ela tentou rir, fingir que tudo não passava de uma brincadeira, mas a voz saiu frágil demais.

"Por que vocês dois não? É coisa de gênero? Ou esses monstros são loucos por ruivas?"

Leo permaneceu calado.

Simplesmente encarou.

Bob, por sua vez, limpou o sangue da faca e olhou para ela com uma expressão fria.

"Talvez," disse, com voz seca como pedra, "porque você é uma vadia burra que acendeu a fogueira."

As palavras caíram pesadas, como um golpe.

Patricia congelou.

Seus lábios se abriram, mas nenhumas somes saíram.

Eles viajaram juntos por tanto tempo e nunca tinham sido atacados por aranhas antes.

O fato de só estar acontecendo agora, depois que ela acendeu a fogueira, e de ser ela a única alvo, parecia indicar que estavam caçando ela especificamente por causa disso. Afinal, entre os três, eles tinham feito quase tudo juntos, exceto aquele crime idiota.

"Ridículo! Elas não estão atrás de mim por isso... Diga algo, Leo! Ele está falando loucura, só pode!"

“E como você ousa me chamar de vadia burra? Sua mulher deve estar acostumada a esse tipo de insulto, mas eu vou cortar seus ovos fora se mostrar essa atitude!” Patricia retrucou, tentando manter a postura forte, mas só conseguiu parecer ainda mais patética aos olhos de Leo.

"Você? Cortar meus ovos? Vadia, você não conseguiria nem arranhar se seus antepassados passassem as próximas sete gerações tentando—"

“Não teste minha paciência, porque se eu perder a cabeça, não serão as aranhas que terão que te matar, serei eu!” Bob retrucou, inflando o peito e dando um passo na direção dela.

"L-L-Leo! Leo, ele tá me intimidando!" Patricia reclamou, claramente em pânico, enquanto Leo soltava um suspiro longo e levantava a mão em sinal de paz.

"Bob, desculpa a grossura, ela está claramente sob muita pressão."

"Patricia, pare com essa de vítima. Aqui somos apenas nós três, e se você continuar sendo um incômodo, nem eu nem o Bob teremos problema em acabar com você."

“Então, a sua melhor opção é assumir seu erro e começar a procurar soluções para ajudar a si mesma."

"Porque, se a próxima leva de aranhas enviada para te eliminar for de 144 criaturas, nem eu nem o Bob conseguiremos te salvar—" Leo disse, deixando Patricia sem palavras.

Por um momento, ela abriu a boca em protesto, como se quisesse expressar o quanto se sentiu ofendida por Leo chamá-la de 'vadia'.

Mas logo desistiu, percebendo que Leo tinha razão.

Ela só tinha eles dois para confiar, e antagonizá-los não iria ajudá-la em nada.

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