Assassino Atemporal

Capítulo 292

Assassino Atemporal

Após a crise de Cipher, Leo se perguntou qual poderia ser a razão por trás da crescente instabilidade mental do grupo.

Afinal, os livros que ele tinha lido alertavam que a loucura ia se instalando lentamente — ao longo de semanas, e não dias — mas a equipe já se bicava como cães selvagens.

No entanto, após pensar por alguns minutos, ele compreendeu exatamente o motivo.

Não era apenas a floresta.

Mesmo em um planeta normal, se uma pessoa fosse forçada a ficar acordada por vários dias consecutivos, correndo, lutando e sob ameaça constante, enquanto não tinha sono decente, comida, luz ou conforto, as rachaduras na sua postura surgiriam inevitavelmente.

Não porque quisesses ficar mal-humorado.

Mas porque simplesmente não tinha mais paciência para ser gentil.

A ameaça constante e a falta de descanso adequado causavam um impacto temporário no cérebro, e neste mundo amaldiçoado, esse cansaço era agravado dez vezes mais — contaminado por cada ciclo de mana corrompida que tinham que extrair, cada refeição mal cozida por causa do tempo apertado e cada segundo gasto andando em um ciclo que parecia nunca terminar.

A floresta não pressionava apenas o corpo.

Ela sussurrava ameaças na cabeça.

E sussurrava constantemente, até que o silêncio começava a parecer mais alto que palavras, mais alto que pensamentos, mais alto que a própria sanidade.

Não era de se surpreender que Cipher parecesse estar à beira de perder a cabeça.

Seus olhos tremiam aleatoriamente agora. Suas mãos tremiam mesmo sem usar mana. Seus lábios se mexiam às vezes mesmo sem falar, e Leo já tinha notado como seus dedos ficavam pairando sobre as lâminas durante as refeições.

Os sinais estavam aí.

'Talvez eu devesse matá-lo primeiro quando sairmos da floresta', Leo pensou, estreitando os olhos para Cipher do outro lado da fogueira. 'Talvez eu não precise matar o Raiden ainda.'

Raiden, apesar de todas as falhas, ainda parecia bem mais controlado do que Cipher.

Ele também estava escorregando, sim — mas ainda conseguia manter a compostura, o que significava que ele podia ser controlado.

Cipher, por sua vez, era selvagem. Sem previsão. Perigoso.

Uma responsabilidade.

'Um erro e ele vai apunhalar alguém enquanto dorme. Melhor silenciar esse risco antes que ele cresça presas.'

Leo nem percebeu que estava encarando até que Bob cutucou seu braço e indicou a pochete de comida. Leo piscou, assentiu de volta e voltou a mastigar, mas, no fundo da cabeça, uma decisão começava a se firmar lentamente.

A jornada até a beira da floresta seria a última que Cipher faria, pois cedo ou tarde Leo planejava eliminá-lo.


Do outro lado do círculo, Karl se sentava em silêncio, com os olhos baixos, a respiração lenta, mas seu interior ardia de raiva.

A bofetada que Cipher lhe dera há poucos minutos ainda ecoava na sua cabeça.

Aquela única humilhação se repetia como um disco arranhado, e por mais que Karl tentasse abafá-la com pensamentos sobre a missão, paciência ou táticas, a ferida permanecia e seu ego pulsava.

'Você me bateu', pensou Karl, com a mão tremendo levemente enquanto mexia sua comida. 'Você me ofendeu, ameaçou, pegou meu queixo como se fosse uma criança. E acha que vai sair impune dessa?'

Seus lábios não se moveram.

Mas suas pupilas se estreitaram.

'Você não é nada, Cipher. Uma barata. Um inseto fodido que não percebeu que rifou na frente de um Transcendente disfarçado.'

Na cabeça dele, já tinha imaginado dezenas de formas de como Cipher morreria.

Algumas lentamente. Outras rapidamente. Algumas na frente de todo mundo. Outras silenciosamente.

Mas o que tinha em comum entre todas?

Dor.

'Ninguém vai desconfiar de mim. Vou planejar sua morte perfeitamente.'

'Talvez eu use uma rajada de vento para empurrá-lo na direção de um monstro enquanto tenta fugir.'

'Quem sabe eu envenene sua próxima ferida ao invés de medicar.'

'Ou quem sabe eu te isole do grupo e te acerte com minhas próprias mãos.'

'Sem testemunhas por perto... quem vai questionar?'

Seus dedos apertaram um pouco mais a colher de madeira.

'Você nem sabe ainda, mas seu destino já está selado. Você bateu em alguém que não deveria ter ofendido e agora acabou para você—'

Ele não encarou. Não fez careta.

Sorriu — um pouco demais, e segurou o sorriso por tempo demais, aquele tipo de sorriso que não alcança os olhos.

E enquanto isso, os outros ainda se sentavam ao redor dele, mastigando mais uma refeição mal acabada feita às pressas entre batalhas, focados demais na sobrevivência para perceberem o peso de uma intenção assassina se espalhando pelo círculo como fumaça.

A mudança tinha começado.

O grupo finalmente começou a se virar contra si mesmo.


Menos de dez minutos depois de terminar a refeição, o grupo foi atacado novamente por um monstro — dessa vez, um camaleão quase invisível, que expulsava veneno e atacava com uma língua altamente corrosiva.

O ataque veio sem aviso.

O grupo não viu, nem sentiu o cheiro, nem ouviu antes de ser atacado.

Foi só quando um silvo agudo—quase como vapor escapando de uma chaleira—ecoou no ar, que perceberam a ameaça.

*Fssssssk—!!*

O ataque acertou, queimando o capuz da cabeça de Raiden e quase atingindo sua nuca, pois ele se abaixou na hora.

"Embaixo!” berrou Bob, com as lâminas já desembainhadas, enquanto todos se viravam para enfrentar a origem do ataque.

Mas não havia nada.

O camaleão permanecia oculto, seu corpo pressionado contra o tronco enorme atrás deles, escamas refletindo a luz, membros se fundindo ao padrão da madeira como se fosse parte da floresta.

E então, ele se moveu.

Uma pulsação percorreu a escuridão da floresta, e os olhos de Leo se estreitaram ao notar o mais sutil brilho contra o vento. Uma coisa alta. Enrolada. Observando-os.

"Na copa, às cinco horas!” ele gritou, já se posicionando pelo lado direito enquanto Cipher se abaixava e puxava suas adagas.

*Estalo*

Outra língua de ataque cortou o ar, visando o peito de Bob, mas errou por pouco, pois ele mergulhou e rollou, levantando um turbilhão de folhas secas.

Karl ficou na retaguarda da formação, imóvel.

Não por medo.

Mas por antecipação.

Ele não desembainhou a espada. Não lançou feitiço.

Apenas ficou parado, com os olhos arregalados e os lábios meio abertos, enquanto o caos se desenrolava ao seu redor.

E então—ele sorriu.

Um sorriso bem leve.

Justo o bastante.

Porque sentia que seu momento estava chegando.

O monstro era forte, claramente inteligente, e tinha um ataque letal que poderia derrotar um Grão-Mestre se conectasse. Então, Karl viu sua chance de pegar Cipher desprevenido.

Começou a observar Cipher com detalhes minuciosos.

Cada tremor. Cada respiração. Cada movimento, desde o jeito que seu calçado escorregava no musgo molhado até o breve sinal de nervosismo na mão esquerda ao tentar defender-se, enquanto os dedos de Karl se mexiam taticamente atrás das costas, pronto para agir.

Poderia usar um [Rajada de Vento] para desequilibrá-lo sem que ninguém percebesse.

Porém, não podia fazer isso agora.

Precisava esperar o momento certo surgir.

'Só preciso do instante perfeito…' pensou, com as pupilas dilatadas ao perceber outro movimento em alta velocidade, vindo de uma árvore — o monstro pulando para o ataque.

*Explosão*

Ele aterrissou.

Pesado.

Um gigantesco camaleão com membros retorcidos e pele como musgo ondulado, que caiu na clareira, sua camuflagem piscando como estática enquanto abandonava a furtividade e mostrava seu corpo monstruoso.

Cinco metros de altura. Ágil. Feito um predador.

A língua recuou para dentro da boca, agora gotejando veneno brilhante que zumbia a cada gota que tocava o chão.

*Fsshhh* *fsshh*

Ele voltou a sibilar, tremendo como se estivesse analisando cada um deles.

Raiden e Bob se moveram instantaneamente — um para a esquerda, outro para a direita — tentando dividir a atenção do monstro.

Cipher se posicionou perto do centro, com braços tremendo levemente ao levantar as adagas.

E Karl permaneceu imóvel.

Observando.

Aguardando.

E sorrindo, muito sutilmente, enquanto esperava a oportunidade de acabar com Cipher ali mesmo, se fosse possível.

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