
Capítulo 285
Assassino Atemporal
(Mundo parado no tempo, 21 quilômetros da entrada da floresta – Equipe do Leo, Dia 2)
Quase um dia inteiro tinha passado desde que Leo e os demais se separaram do grupo do Raiden – e, felizmente, nada de relevante aconteceu nesse tempo, enquanto as últimas vinte e quatro horas se passaram numa névoa de caminhadas silenciosas, olhares cautelosos e o peso constante da floresta pressiona-los de todos os lados.
Patrícia ajustou a alça da mochila com um resmungo irritado, enquanto suas botas afundavam ainda mais na folhagem a cada passo.
"Será que estamos indo na direção certa? Ou estamos apenas dando voltas de merda?" ela retrucou, olhando ao redor para as árvores aparentemente iguais que se estendiam sem parar em todas as direções. "Porque nada disso aqui parece diferente."
Leo não respondeu de imediato, seguindo em frente com a confiança de quem sabe exatamente o que está fazendo, e disse: "Estamos indo na direção certa, não se preocupe. Basta seguir meu ritmo—"
No entanto, enquanto ele mesmo tinha confiança nas próprias habilidades de orientação, tanto Bob quanto Patrícia pareciam desconfortáveis em continuar caminhando às cegas.
"Ela tem um ponto. Esse terreno não mudou há horas. Como você sabe que não estamos dando voltas?" perguntou Bob com tom firme, enquanto Leo fazia uma pausa e soltava um suspiro profundo.
"Olha só—" ele disse, enquanto tirava do bolso uma bússola cinza pálida que Raiden havia entregado a todos os integrantes do time e apontava para a leitura exibida no aparelho.
"Vocês também têm esse dispositivo, puxem para fora e observem a distância que aparece aqui."
Ela mostra que estamos a 161,0 quilômetros do ponto de referência de entrada, que instalamos," disse Leo, enquanto se aproximava de uma árvore próxima e marcava um "X" na casca.
Depois, deu alguns passos lentamente adiante.
"Viu? Agora está 161,1."
Ele deu alguns passos para o lado.
"Voltou para 161,0."
Olhou para os dois. "Essa é a linha reta, tenho acompanhado mentalmente enquanto ando, pois sempre que desviamos um pouco dessa linha, a distância se reseta."
Atualmente, levo cerca de 124 passos para cobrir 100 metros, então sempre que faço entre 127 e 130 passos para percorrer a mesma distância, faço uma pequena correção de rota para garantir que voltamos exatamente para a trilha de 124 passos, que é a menor distância linear direta para o Oeste."
Isso quer dizer que não estamos dando voltas. Ainda estamos indo para o oeste— em direção à saída da floresta."
Patrícia olhou para a marca, visivelmente mais calma, enquanto a explicação de Leo fazia bastante sentido para ela.
"Nossa... Nunca me senti tão molhada e excitada por causa da cabeça de alguém... Acho que os homens têm mais do que só um rostinho bonito" ela disse, quase sorrindo agora.
"Então, já que você sabe o que está fazendo, continue, Skyshard." Bob completou, enquanto retomavam a jornada.
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Após cada 8 a 10 horas de caminhada ininterrupta, a equipe fazia uma pausa rápida, criando uma clareira no chão, despejando musgo e terra ao redor para formar uma barreira, assegurando que suas costas não tivessem contato com árvores ou raízes.
"Deus, isso aqui tá seco," Patrícia comentou, quase engasgando com um pedaço duro de pão de nozes desidratado, enquanto comia as rações de emergência com uma expressão de desgosto visível.
"Durinho e sem graça. Antes eu pensava que comida boa não era nada demais lá em casa, mas agora percebo que é a única coisa que me mantinha sã nesse mundo amaldito." ela disse, enquanto rasgava uma mordida do pão com raiva e continuava mastigando de mau humor.
Leo não comentou. Bob também não.
Embora os dois também não gostassem das rações secas, ficaram gratos pela refeição de qualquer forma, sem reclamar como Patrícia.
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(Enquanto isso, equipe do Raiden, em uma parte diferente da floresta)
Ao contrário do grupo do Leo, que dependia de rações secas e comidas sem sabor, Raiden e Cipher comiam como reis.
As pedras de fogo que Karl havia preparado brilhavam em um sutil laranja sob a panela de ferro queima, enquanto ele colocava fatias finas de raízes e vegetais, deixando-os chiar e estalar, antes de acrescentar algumas garrafas de molho, transformando tudo em um caldo fumegante e aromático que enchia o ar de calor.
Cipher cuspia silenciosamente, com expressão impassível, enquanto Raiden estava a alguns metros de distância, de braços cruzados, encostado em uma árvore coberta de musgo, sem dizer uma palavra.
Os últimos dois dias desde que se separaram foram exaustivos, pois, ao contrário do grupo do Leo, que de algum modo escapou do caos maior, eles eram atacados quase a cada 2 a 4 horas, tendo que se defender de ondas sucessivas de criaturas deformadas que se escondiam na floresta.
Infelizmente, para Raiden, Cipher não era muita ajuda em combate real, e Karl era tão útil quanto um galho molhado— obrigando-o a suportar sozinho a maior parte da luta, empurrando-se com mais força e assumindo riscos que preferiria não correr.
Felizmente, até agora, não havia sofrido ferimentos graves, mas, se acontecesse, já sabia o que fazer: montar um abrigo temporário, se proteger e esperar a dor passar até que seu corpo se restabelecesse.
Sem mais ninguém para confiar por perto, ele não queria continuar se movimentando enquanto estivesse machucado.
Enquanto isso, Karl encarava o caldo, com pensamentos longe do momento.
'Raiden e Cipher são firmes, vou dar essa para eles, mas também são lentos, tolos, previsíveis e facilmente substituíveis.'
Sua mão tremeu um pouco ao segurar a concha.
Ele poderia ter feito isso ontem à noite. Uma gota de extrato de raiz em pó na sopa e eles já estariam fora do caminho—
Mas não fez.
'Ainda não. Aqui não.'
Porque a verdade era… ele não queria ficar sozinho.
Mesmo num mundo destruído assim, o silêncio que virava solidão não era algo que um assassino transcendente como ele pudesse se permitir.
Raiden e Cipher eram ferramentas. Imperfeitas. Mas que ainda o ajudavam a se sentir enraizado, mantendo sua sanidade.
Por ora, continuaram vivendo.
E ele seguiu mexendo a panela.