
Capítulo 261
Assassino Atemporal
(Biblioteca da Guilda das Serpentes Negras, Seção Zeta-9 — Arquivos do Círculo do Crono)
*TROCA*
Leo virou a página.
O aviso ameaçador na primeira página desapareceu ao virar para a próxima folha, revelando apenas o começo de um registro estilo diário de memórias.
A caligrafia era elegante, mas firme, a tinta ligeiramente borrada pelo tempo, enquanto um título em negrito estava gravado na parte superior da página:
"Registro de Campo, escrito pelo Capitão Aelric Vonn"
Logo abaixo, um subtítulo cuidadosamente escrito:
Dia 0: Briefing da Missão
"Nossa equipe foi enviada sob a diretiva confidencial 47-XJ.
Nosso objetivo é rastrear e eliminar o Indivíduo D, um criminoso de guerra procurado que escapou para um Mundo Paralizado pelo Tempo através de uma fenda instável no Vórtice de Kael.
A entrada foi autorizada para sete pessoas: cinco assassinos do culto sob meu comando e um prisioneiro de alta sensibilidade empática, que recebeu promessa de liberdade condicional em troca de nos guiar até o fugitivo.
O alvo provavelmente está armado, mutante e possivelmente insano. Entramos às 05h00, esperando recuperar o corpo dentro de dez dias após a entrada, ou aproximadamente em três horas de passagem de tempo na realidade."
---
Dia 1
Assim que atravessamos o limiar do portal, consigo sentir uma mudança sutil na pressão, como ao entrar num domo selado em alta altitude, embora não haja desconforto — apenas uma diferença.
O mundo do outro lado está preso no crepúsculo eterno, banhado por um brilho estranho entre o pôr do sol e a verdadeira noite.
Não há noite de verdade aqui, nem dia, pois o mais escuro que já vi o ambiente ficar é aproximadamente tão escuro quanto logo após o pôr do sol, enquanto o mais claro ocorre pouco antes do pôr do sol, com uma modulação muito baixa.
Não há vento.
Nem o mais suave sussurro de uma brisa.
O ar permanece quieto e morno, artificialmente constante, como se o mundo todo não tivesse mudanças climáticas de modo algum.
Isso dito, dentro dos limites desta dimensão de bolso, o tempo flui normalmente para nós, mas toda comunicação externa cessa assim que entramos.
Por mais que tentem, é impossível entrar em contato com o mundo exterior uma vez lá dentro, o que dificulta pedir ajuda ou evacuação se algo der errado.
Feitiços lançados aqui parecem ressoar com uma nitidez sobrenatural.
Em média, a equipe relata um aumento estimado de 15 a 20 por cento na potência dos feitiços e na clareza do controle.
Como lançar feitiços neste mundo nos faz sentir mais fortes — e de forma enganosa.
O chão aqui é firme, a gravidade segue a regulamentação padrão do planeta, e nada, à primeira vista, parece hostil. Mas essa ilusão de calma é o que mais me assombra.
---
Dia 2
A equipe está de bom humor. Nossa reserva de pedras de mana purificada está se sustentando. Nenhum deles está extraindo a mana ambiente do mundo ainda, exceto o prisioneiro, que não possui reservas pessoais.
Ele vem silenciosamente usando o ambiente local para manter suas habilidades, embora eu tenha começado a perceber algo estranho.
Ele parece... tensionado. Seus olhos estão vermelhos, mesmo descansando as mesmas horas que nós. Sua pele ficou pegajosa, seus movimentos um pouco mais lentos, como se seu corpo estivesse travando uma luta silenciosa contra algo invisível.
Ele insiste que está bem, mas conheço os sinais de exaustão, e isso parece algo além de fadiga.
Parece que sua mente está escorregando, se desintegrando lentamente a cada respiração do ar que respira e a cada instante de mana que absorve.
---
Dia 7
A tensão aumentou.
Hoje, toda a equipe admite um sentimento de inquietação persistente. As sombras parecem maiores do que deveriam. Não há estrelas, lua, nem marcadores celestiais no céu, mas temos a sensação constante de estar sendo observados. Nosso prisioneiro começou a agir de forma cada vez mais errática — coçando os braços, murmurando besteiras em línguas que tenho certeza que ele nunca aprendeu.
Ele ri em momentos estranhos, chora enquanto come e fixa o olhar demais em pontos vazios.
Querem que eu o sedie, mas ele ainda é nossa única ligação com o alvo.
Porém, noto uma tendência preocupante: quanto mais alguém depende da mana deste mundo, mais a insanidade se instala.
Os efeitos não são rápidos, mas sim uma descida lenta e corrosiva à alucinação. Ainda tenho medo do que pode vir a seguir.
---
Dia 14
Terminamos com ele.
Não me traz prazer escrever isso, mas foi preciso neutralizá-lo. Ele atacou o membro da equipe Darrin durante o turno da noite, avançando sem arma, mas com uma ferocidade doentia que ignorava toda lógica.
Mesmo após Darrin ter amputado seu braço direito no cotovelo, ele não gritou — ele riu.
Lutou como um animal, mordendo e arranhando, com os olhos marejados de alegria, como se fosse possuído por algo indescritível.
Depois de garantir o acampamento, descartamos o corpo longe do perímetro principal. Nenhuma palavra foi dita durante o sepultamento. Todos estamos abalados.
—---
Dia 17
Começamos a rastrear o alvo por conta própria, mas o progresso estagnou. No entanto, descobrimos algo mais assustador.
A fauna e as criaturas que habitam este mundo não se comportam de acordo com a natureza que conhecemos no resto do universo normal.
Predadores ignoram presas se elas parecerem fracas, mas qualquer sinal de força, confiança ou poder chama sua atenção.
Parece que este reino pune a ambição.
A flora local lentamente drena mana, esgotando-a durante o sono, como se o solo em si fosse resentido com invasores.
E mesmo que a água pareça limpa e pura, quem a prova fica gravemente doente em poucas horas.
Hoje, até lagos transparentes passaram a ser considerados armadilhas.
---
Dia 20
Finalmente, encontramos o fugitivo.
O Indivíduo D está em uma clareira afundada, repleta de ossos e sussurros que não correspondem a nenhuma voz do nosso grupo.
Ele parece... irreconhecível. Esquelético, rastejando de quatro, com olhos completamente negros e rachaduras brilhantes que percorrem suas veias como rios flamejantes sob a pele.
Ele fala, mas é como se algo mais estivesse falando através dele. Diz que está aqui há mais de um ano, embora a distorção no tempo torne impossível confirmar isso. Toda a humanidade que ainda restava nele desapareceu. Sua capacidade de combate é... aterrorizante. Usa técnicas que nunca vimos antes, lutando como uma fera, mas com estratégia, timing e maldade.
Finalmente, conseguimos dominá-lo, embora isso tenha custado a vida de dois homens.
---
Dia 22
Nossas pedras de mana começaram a ficar ruins.
Mesmo guardadas em anéis espaciais ou carregadas perto de nossos corpos, tornaram-se inutilizáveis. Sua energia ficou rançosa, vibrando numa frequência que queima ao invés de curar. Parece que o limite de 22 dias é o máximo — depois disso, qualquer fornecimento de mana pura fica corrompido só por estar neste mundo.
Sem técnicas adequadas de desintoxicação, extrair sua energia agora é suicídio.
---
Dia 25
A equipe não é mais uma equipe.
Discussões surgem do nada.
Ações de sabotagem, traição e loucura voam como lâminas, e não consigo acalmá-los.
Não estão apenas paranoicos — estão perdendo o juízo. Ouço passos durante a noite quando ninguém se move, vejo brilhos em espelhos que não pertencem a nós. O próprio mundo está sussurrando, testando nossa sanidade.
E assim, neste dia, registro que sou o último.
---
Dia 30
Eu saio.
Só oito horas se passaram aqui na Terra. Oito horas. E, mesmo assim, sinto o peso de oito anos.
A cabeça do Indivíduo D está na minha mochila, mas não traz conforto algum. Volto para casa não como um herói, mas como uma casca vazia. Não consigo mais ouvir o silêncio sem esperar gritos.
---
Três anos depois
Se você estiver lendo isto e pensando em aceitar uma missão em um mundo parado no tempo, eu imploro: volte atrás.
Se tiver o luxo de escolher não entrar num Mundo Paralizado pelo Tempo, não entre. Mas se for inevitável, que minha experiência sirva para sua sobrevivência.
1. Leve dez vezes mais comida, água e remédios do que acha que vai precisar.
2. Não confie em nenhuma planta, animal ou brisa.
3. Viaje somente com companheiros de equipe iguais a você. Nunca com superiores ou guerreiros de nível mais alto, pois atraíram oponentes mais fortes.
4. Não acenda fogueiras no mundo para cozinhar ou por luz.
5. Não aceite nada que fale com você na sua própria voz.
6. Nunca absorva mana local.
7. Considere 22 dias seu limite máximo com pedras de mana padrão. 44 dias com pedras de grau médio e 88 dias com pedras de alto grau, mas nunca passe de 100 dias nesse mundo.
8. Não se aventure muito fundo, fique perto da saída, pois o terreno dentro muda rápidamente e sua mente começa a pregar peças quanto mais tempo permanecer lá dentro.