
Capítulo 277
Assassino Atemporal
Com [Visão Absoluta] falhando ao mapear a área com precisão, Leo foi forçado a confiar na percepção tradicional, no faro aguçado e no foco periférico para vasculhar a encosta à sua frente em busca de sinais de presença inimiga.
Seu ritmo de respiração desacelerou enquanto ele centrava sua posição na encosta irregular, segurando uma adaga firmemente em uma mão enquanto fixava o olhar exatamente no ponto que lhe parecia mais suspeito.
*Deslizar*
Então aconteceu: ouviu um som vindo de trás dele, enquanto
*BAQUE*
Uma mancha de carne e velocidade explodiu pelo flanco esquerdo da encosta, pelo seu lado cego, enquanto uma figura pálida saía disparada de trás de um matagal de flores espinhosas e se movia com uma rapidez cegante em direção a Cipher.
"Cipher!" Patricia gritou, tentando alertá-lo sobre a armadilha, contudo, já era tarde demais.
A criatura contaminada se movia como uma fera, não como um homem, cruzando o chão de quatro, com a coluna encurvada e os membros dobrados em ângulos pouco naturais, sua velocidade superando o que a maioria dos mestres demais poderiam sonhar em acompanhar.
*SUSSURRO!*
Cipher virou, sua lâmina brilhando ao estender-se reflexivamente. Mas a criatura se contorceu no ar com um movimento errático, evitando por pouco o golpe enquanto envolvia seus membros ao redor do corpo de Cipher.
*GROTA!*
Um som nojento rasgou o ar enquanto sangue explodia do pescoço de Cipher, a mandíbula da criatura fechada sobre uma porção de carne, arrancando um pedaço limpo enquanto Cipher gritava de dor.
"Arghhhh—!"
Leo reagiu instantaneamente, lançando uma adaga em direção ao crânio da criatura com precisão mortal, enquanto Patricia também atacava, sua própria lâmina voando pelo ar em um arco espelhado.
*BANG!*
*BAQUE!*
Ambas as adagas acertaram, mas, surpreendentemente, ricochetearam sem causar dano, como se a pele da criatura fosse blindada.
"Que diabo—?" Patricia murmurou, confusa, pois sua força de Grande-Mestre geralmente era suficiente para até embutir pedras, mas de alguma forma, hoje, não conseguiu penetrar a pele mortal.
Por sorte para Cipher, porém, Bob já avançava, como—
*EXPLOSÃO!*
Ele bateu seu ombro na criatura, derrubando-a das costas de Cipher e fazê-la cambalear pelo chão.
A criatura escorou, rolou e caiu agachada de quatro, começando a chiar como uma fera selvagem.
*SIIIRRR*
Ela advertiu, seus pelos faciais se arrepiando como uma besta que sente a presa por vibração.
Agora que podiam vê-la claramente, os olhos de Leo se estreitaram ao examinar os detalhes.
Parecia... quase humana. Mas a pele esticada sobre músculos finos, e veias verdes pulsando sob sua superfície pálida eram evidentes.
Ela vestia apenas um cinturão de utilidade surrado, pendurado de forma desigual na cintura, claramente de outra época.
Em um pé, ainda usava meia sapatilha de combate disintegrada, enquanto no outro estava totalmente exposta às intempéries.
Seus órgãos genitais estavam disformes e roídos, como se o que restava deles não fosse funcional, mas, de algum modo, aquele amontoado de carne não era a pior característica que tinha, pois seus olhos eram ainda piores.
Ferozes e com um brilho fraco de tonalidade anormal, o olhar da criatura não transmitia inteligência ou malícia, mas apenas loucura.
Como se tivesse olvidado há muito o que significava ser humano e agora fosse movida apenas por instinto e raiva.
"Ele ficou completamente selvagem..." Leo murmurou.
"Esqueça conversar. Mata ele," Raiden ordenou, já avançando.
A criatura silvou e avançou zigzagueando de quatro, como um macaco sob efeito de remédios.
Dessa vez, ela deu um bote em Patricia, que se abaixou e rolou enquanto Leo tentava se posicionar ao seu lado.
Raiden cortou na horizontal, forçando a criatura a recuar, enquanto Bob já contornava por trás para derrubá-la inconsciente.
No entanto, quando a besta finalmente veio na direção dele, ela desviou do golpe com uma rotação anormal do corpo e caiu sobre seus ombros, imediatamente tentando morder seu rosto.
*KHAIIIIAASS*
A fera rosnou, enquanto saliva e germes do seu rugido espirravam na cara de Bob, deixando o veterano assassino realmente bravo.
"Sai daqui!" Bob rosnou, agarrando a criatura no ar e jogando como se fosse um saco de carne, enquanto ela caía forte, mas rolava para uma posição agachada novamente, ilesa.
"Esse negócio não quebra de jeito nenhum," Patricia reclamou, com uma voz um pouco nervosa agora.
Leo avançou de lado, fingindo ir para a esquerda e girando com um corte para trás, enquanto a fera escapava por um fio, mas esse movimento deu a Raiden uma abertura.
"[Corte de Fase]" anunciou Raiden, enquanto sua lâmina tremulava com mana e cruzava o ar, formando um arco verde.
Ela roçou as costelas da criatura, fazendo sangue preto jorrar e vaporizando no ar frio.
*Grito agudo*
A criatura gritou e saltou em direção a Raiden, só para ser interceptada no ar pelo punho brilhante de Bob, enquanto—
*EXPLOSÃO!*
O soco atingiu o lado da criatura, lançando-a através das flores, com a mandíbula quebrada, enquanto Leo ativava [Troca de Lâmina] e reaparecia atrás dela, suas adagas rasgando em um X para abrir o back da criatura.
*RISQUE!*
A primeira tentativa não penetrou sua pele, mas a segunda atingiu seu ombro, cortando até a metade antes de parar contra o osso do ombro.
"Agora!" Leo ordenou, enquanto Raiden avançava com um golpe vertical e Patricia liberava sua habilidade carregada [Chuva de Agulhas].
Em um microsegundo, centenas de projéteis finíssimos, conjurados com mana, despencaram sobre a besta, enquanto o humano selvagem silvou e tentou pular, mas Bob a derrubou por trás, imobilizando-a com força bruta enquanto as agulhas perfuravam seu corpo.
*Grito*—
A fera gritou mais alto agora, enquanto a lâmina de Raiden descia uma última vez, cortando sua cabeça do corpo.
*Plop*
A lâmina de Raiden encravou-se fundo no pescoço, parando bem antes de degolar completamente, ficando a meio caminho do osso.
Por sorte, aquilo foi suficiente, pois a criatura se esforçou uma última vez, convulsionando.
Depois, parou de se mover completamente, seu corpo caindo no chão com uma expiração final que soou menos como morte e mais como alívio.
O time manteve-se imóvel, com as armas erguidas, olhos atentos e respiração entrecortada, enquanto monitorava a criatura por qualquer último suspiro ou sinal de movimento que sugerisse que pudesse se levantar de novo, porém nada aconteceu.
Somente silêncio reinava ao redor, exceto o gemido de Cipher, que tentava estancar o sangue do pescoço.
Alguns segundos depois, os olhos da criatura, ainda com um brilho fraco, finalmente se apagaram e começaram a rolar para trás nas órbitas, enquanto sangue preto se acumulava sob sua bochecha.
Leo não guardou a lâmina. Ficou ali, observando, seu olhar fixo na meia-boreta de utilidade ainda presa à cintura do cadáver.
Era do mesmo tipo que todos usavam.
Mesmo material. Mesmo modelo.
Pois, com certeza, era uma cinta de assassino, o que implicava que o homem que haviam acabado de matar foi, um dia, um assassino.
*Suspiro*
Leo respirou fundo lentamente, o peito se apertando com algo mais frio que o medo.
"Ele não nasceu monstro. Tornou-se um neste mundo, ao absorver a mana contaminada," pensou Leo, à medida que a dura realidade do Mundo Congelado finalmente se instalava sobre ele e sua equipe, como uma segunda pele.
Este lugar não apenas matava um. Corrigia um, transformando-o em algo irreconhecível.
E, se não tomassem cuidado, o mesmo destino os aguardava.
Pois, aparentemente, a morte não era a pior coisa que poderia acontecer a alguém num mundo congelado no tempo.
De certo modo, a morte era uma bênção.
Pois, se você vivesse tempo suficiente, coisas muito piores que a morte o aguardavam neste lugar amaldito.