Assassino Atemporal

Capítulo 278

Assassino Atemporal

(Mundo Congelado no Tempo, 70 quilômetros do ponto de entrada, acampamento temporário)

Após sobreviver ao encontro com o homem-bestia, a equipe continuou a jornada por mais alguns quilômetros, avançando em silêncio cauteloso, até finalmente atingir o ponto de descanso previamente combinado após quase oito horas de caminhada sem interrupções.

Eles não montaram tendas, nem acenderam fogo quando chegou a hora de acampar, pois todos sabiam que acender uma chama neste mundo era como colocar um alvo nas costas — então, ao invés disso, encontraram uma cavidade natural entre duas cristas e se sentaram em círculo frouxo, descansando pela primeira vez desde a luta.

O silêncio no ar só era quebrado pelos suaves tico-tacos de armadura sendo ajustada e armas sendo colocadas de lado, enquanto o grupo removia as caneleiras e botas, permitindo que os pés respirassem por um momento de raro conforto.

Karl, que de alguma forma parecia mais bem-disposto que os demais, cantarolava baixinho enquanto montava uma laje de pedra negra sobre três pedras de fogo que brilhavam em um laranja tênue sob a grelha, emitindo calor silencioso sem liberar chama alguma — criando uma superfície perfeita para cozinhar sem atrair atenção indesejada das matas ao redor.

Quando a laje atingiu a temperatura ideal, Karl untou a superfície com óleo e colocou fatias finas de carne e raízes desidratadas, assistindo-as chiar lentamente enquanto amoleciam, enquanto uma leve fumaça de vapor se levantava no ar ainda calmo.

*Suspiro*

Patrícia exalou fundo, apoiando-se com os braços enquanto bebe água de uma pochete, com os olhos semicerrados, observando a carne cozinhar com uma mistura de alívio e fome.

"Isso sim é sobrevivência," ela murmurou preguiçosamente, sua habitual flirtar desaparecida, substituída por um sorriso cansado que mal escondia o quanto parecia exausta.

A fadiga, na verdade, não vinha da caminhada, mas da pressão psicológica lenta e constante que este mundo parecia impor a todos que ficavam nele por mais de algumas horas.

Enquanto isso, Cipher se encurvava à frente, uma mão envolta na bandagem do pescoço enquanto murmurava uma sequência de palavrões baixinho.

"Porra, macaco idiota, filho da mãe... me arranhou o pescoço—" reclamou, a dor claramente ainda presente, mesmo depois de Karl ter limpo, costurado e medicado com duas poções diferentes para acelerar a cura.

"Deuses, ainda dói pra caramba," acrescentou, massageando cuidadosamente o lado do pescoço, enquanto Raiden sentava ao seu lado, ouvindo com um sorriso tênue que oscilava entre compreensão e diversão, assentindo de vez em quando, mas dizendo pouco, fazendo o possível para deixar Cipher desabafar o quanto precisasse.

No canto, Bob se apoiava de costas numa pedra, com as pernas esticadas e uma lâmina repousando sobre o colo, enquanto despejava água e óleo sobre uma pedra de amolar retangular e passava a ponta de uma faca alta nela com movimentos longos e constantes — cada passada acompanhada de um leve som de moagem que reverberava no silêncio como o ritmo de um tambor de guerra.

"Você realmente usa essa faca gigante?" perguntou Patrícia de repente, olhando na direção dele, "Ou é só para aparecer? Porque só te vi lutar com as mãos."

Bob não respondeu de primeira. Franziu a testa, trocando o palito de dente de um lado para o outro, antes de, por fim, responder com seu tom áspero de sempre, sem desviar o olhar da lâmina.

"Ainda não precisei usar essa fera," disse ele, com voz baixa e arrastada, "mas, depois de ver seus punhais rebaterem naquela carne, prefiro não descobrir no meio da batalha que o meu não está afiado o suficiente."

Leo, que estava sentado perto, soltou uma risada abafada com o comentário e deu uma gargalhada discreta.

"Isso é a maior conversa que já ouvi de você," afirmou, com uma expressão neutra, enquanto Patrícia sorria, esticando as pernas à sua frente e lançando um olhar de canto para Leo, sua centelha de provocação retornando à vida.

"Tenho jeitinho com os homens, Skyshard," ela sussurrou, com a voz suave e sedutora, "eles sempre me contam coisas que não diriam para mais ninguém."

Leo não respondeu. Sua expressão permanecia impassível, fixada na garrafinha de poção na mão, enquanto Patrícia ria baixinho consigo mesma e voltava sua atenção para a grelha ferva, o aroma da comida lentamente preenchendo o ar e misturando-se ao cheiro persistente de cinzas e mana que nunca deixava completamente este mundo.

Logo, a comida terminou de cozinhar e Karl cuidadosamente colocou porções em pratos de aço finos, entregando-os com um sorriso ansioso que, no entanto, não condizia totalmente com a fadiga de seus olhos.

"Espero que gostem crocante," ele disse, colocando uma fatia de carne queimada ao lado de raízes macias no prato de Leo, antes de passar adiante para o próximo.

"Você ganhou seu lugar neste time, novato, está delicioso," comentou Patrícia enquanto mordia, mandando um joinha na direção dele.

" Que bom que gostou," respondeu Karl com alegria, claramente feliz por estar sendo útil.

Por um tempo, o grupo comeu em silêncio relativo, o ocasional tilintar de talheres no metal ou os sons suaves de mastigar quebrando a monotonia, enquanto lentamente se entregavam a conversas casuais, compartilhando histórias e brincadeiras, cada um conhecendo um pouco melhor o outro.

Falavam de seus interesses, trocavam relatos das caçadas mais memoráveis e riam mais de uma vez — não porque algo fosse realmente engraçado, mas porque às vezes, a única arma contra o medo crescente era a risada, e por um breve instante, ela funcionou.

Por alguns minutos, as planícies cinzentas, o sangue e a loucura do Mundo Congelado no Tempo desapareceram no fundo, enquanto tudo parecia quase normal.

Quase.

Porque, por mais que tudo parecesse tranquilo naquele momento, o mundo ao redor deles nunca mudou.

A grama permanecia cinza, o ar pesado e a mana ainda grudava na pele deles como uma película de cinzas.

A risada era verdadeira, a comida quente e a companhia tolerável —

mas o silêncio que vinha após as palavras sempre parecia demasiado longo,

e as sombras que rastejavam além do acampamento nunca pareciam deixar de observar.

E, embora ninguém dissesse a palavra em voz alta, todos sabiam: essa paz não duraria….

Não haveria como.

Nem neste mundo amaldiçoado.

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