
Capítulo 270
Assassino Atemporal
Após sair da loja dos Panteras Laranja, Leo retomou sua prática com o [Código de Revelação Setenfold], dando continuidade ao que se tornara um ritual diário de canalizar discretamente mana por trás dos olhos e percorrer, sem parar, as ruas de Twin Fang City.
E, como nos dias anteriores, não notou nada de especial.
Não descobriu segredos ocultos do universo, não percebeu a aura de emoções que girava ao seu redor, e não captou nem mesmo o mais tênue indício das revelações que o códice prometia revelar.
Sua mente, fortalecida pelo [Indiferença do Monarca], permanecia firme como sempre, mas, mesmo assim, havia um limite para quanto ele podia fingir que aquilo não o incomodava.
Porque, por mais mana que circularisse ou por mais tempo que deixasse se estabilizar atrás dos nervos óticos, por mais faces que estudasse, passos que rastreasse ou interações que presenciasse, os resultados eram sempre os mesmos.
No final, ele não via nada.
'Como diabos vou desbloquear verdades ocultas só de ficar olhando as pessoas? É pra eu ver magicamente na alma delas ou algo assim?' pensou de modo amargo, apertando a mandíbula enquanto saía do distrito comercial.
'Aah… droga. Essa técnica é uma furada.'
Reclamou baixinho, ao virar a esquina, pronto para retornar ao seu apartamento e pensar em outros métodos de treinamento, quando, de repente, algo chamou sua atenção.
Um relance.
Só por um instante.
No vidro de uma loja que acabara de passar, uma tênue ondulação de cor apareceu contra o reflexo de seu próprio corpo, um rastro avermelhado vindo de suas costas.
Desapareceu no momento em que ele virou para olhar, como um fantasma que se esconde na escuridão, mas, naquele breve segundo, ele tinha certeza do que tinha visto.
Vermelho.
Um vinho profundo, quase borbulhante, que parecia pulsar para fora de sua própria silhueta.
Ele estreitou os olhos um pouco, retratando seus passos e olhando novamente para o vidro, mas a cor não voltou.
Mesmo assim, a imagem permaneceu em sua mente. E, por mais que tivesse durado menos que uma respirada, Leo sabia que era melhor não descartar aquilo completamente.
Principalmente porque, pela primeira vez desde que se vinculou ao códice, ele tinha conseguido enxergar algo.
E não veio do mundo ao seu redor.
Veio de dentro.
'Não estou ficando maluco… ou estou? Não estou manifestando cores só porque minha cabeça está desesperada pra enxergá-las… certo?' pensou Leo, seu ritmo diminuindo um pouquinho enquanto continuava a lançar olhares às superfícies refletoras mais próximas… janelas, telas de exibição, painéis de portas de metal, qualquer coisa que pudesse trair até o menor reflexo daquela cintilação vermelha que tinha percebido.
Mas o momento nunca se repetiu.
Durante o resto do dia, ele passeou pelas ruas comerciais, circundou o anel de casas exteriores, até passou pelos jardins de meditação perto da praça da guilda, mas, nem em seu reflexo, nem no mundo ao redor, a pulsação vermelha retornou.
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Já era noite quando ele voltou ao apartamento, e, sem demora, começou a fazer as malas para a expedição do dia seguinte, preferindo terminar tudo naquela noite para poder dormir sem a pressa de correr contra o relógio na manhã seguinte.
Seus movimentos eram calmos, precisos e quase silenciosos: dobrando roupas extras em bolsas de compressão, verificando a firmeza das tiras da adaga, organizando as poções que tinha comprado mais cedo, e colocando suas pedras de mana de alta qualidade dentro de uma case reforçada, com revestimento de espuma.
Tudo tinha seu lugar. Tudo estava organizado.
E, mesmo esperando não ver novidades no manual de meditação jogado à beira da mesa, ao pegá-lo para guardar na argola de armazenamento, ele abriu de leve, e ficou chocado com o que encontrou ali.
Havia uma novidade.
As páginas, que antes estavam em branco após a última instrução, agora pulsavam suavemente com um brilho dourado, enquanto palavras emergiam lentamente na altura do pergaminho, com uma graça deliberada, como se alguém as estivesse escrevendo ali em tempo real.
> "Você viu o primeiro vislumbre."
> "Frustração. Ela obscureceu sua aura com um tom que só você poderia reconhecer — vinho, nascido da dissonância entre esforço e expectativa."
> "Essa é a essência do caminho."
> "Antes de procurar a verdade nos outros, primeiro deve descobri-la dentro de si mesmo."
Cada pessoa percebe a emoção através de uma lente pessoal, e nenhuma verá a mesma cor para o mesmo sentimento.
> "Mapeie seu espectro interior."
Os olhos de Leo estreitaram lentamente enquanto ele continuava a leitura, suas costas se endireitando inconscientemente.
> " Trace o mapa dos seus humores. Observe as suas oscilações."
Aprenda onde a culpa se aloja no seu peito. Como o orgulho altera sua postura. Como a suspeita faz sua respiração parar."
> "Você deve ver essas mudanças não com instinto —
mas com visão."
> "Só assim, ao rastrear os tons de suas próprias emoções, será capaz de penetrar o véu que envolve os outros."
O texto lentamente se desvaneceu depois disso, como se nunca tivesse existido de verdade.
Apenas o calor suave da página sob seus dedos permanecia, um lembrete sutil de que o códice realmente tinha respondido.
De que tinha, de fato, reconhecido seu progresso.
*Toque*
Leo fechou o manual cuidadosamente, expressão difícil de decifrar, e o jogou na argola de armazenamento.
'Então, o vermelho que eu vi era minha frustração… e eu não estava tendo alucinações.' pensou, ao obter a confirmação de que, de fato, tinha avançado um pouco naquele dia.
Ele não sabia o que viria a seguir, nem quanto tempo levaria para dominar sequer a primeira camada do Código de Revelação Setenfold.
Mas, pela primeira vez desde que se vinculou ao manual… sentiu que tinha um rumo concreto para trabalhar.
'Observe as emoções dentro do seu próprio corpo primeiro….'
Esse seria o primeiro passo.