
Capítulo 249
Assassino Atemporal
(Quartel-General da Guilda das Serpentes Negras, Ala de Recuperação, Dois dias depois)
O homem sentado no canto da câmara reforçada parecia com Dupravel Nuna.
Ele falava como ele.
Mandava como ele.
Mas Antonio já não tinha certeza se ainda era realmente ele.
Dupravel estava encurvado no chão, não na cama. Seu olhar andava de um lado a outro, sem nunca encontrar o olhar de ninguém. Seus lábios se moviam mesmo quando em silêncio, como se estivesse murmurando para vozes que só ele conseguia ouvir.
Seu braço esquerdo—rasgado dias atrás por coçar compulsivamente—ainda sangrava em manchas, mas ele continuava a arranhá-lo, como se, ao arrancar pele suficiente, pudesse finalmente se livrar da mancha.
"Dupravel", disse Antonio suavemente, sentando alguns passos de distância numa banqueta. "Fale comigo."
"Eu estou falando", respondeu o homem, com uma voz fraca e irregular. "Você só não está escutando rápido o suficiente."
Antonio não o corrigiu.
Ao invés disso, esperou enquanto Dupravel buscava sob uma pilha de roupas rasgadas e puxava um pergaminho desfiado, manchado de sangue e deformado por mana corrompida.
"Eu mapeei", murmurou Dupravel. "Eu encontrei."
"O quê?"
"O castelo. Valdara. O centro do mundo. O Metal da Origem está lá." Sua mão tremia ao pressionar o pergaminho no colo de Antonio. "Você precisa ir."
Antonio lentamente desenrolou o pergaminho.
Dentro dele havia um mapa desenhado com traços irregulares.
Algumas partes pareciam cuidadosamente marcadas, anotadas com setas e coordenadas.
Outras estavam borradas, sobrescritas ou riscadas com símbolos infantis e espirais inexplicáveis.
"E esses aqui?" Antonio perguntou, levantando outra pilha de páginas dobradas, anotações, escritas na escritura inconfundível de Dupravel.
"Eles explicam tudo", disse Dupravel, com os olhos fixos na esquina. "Tudo. Absolutamente tudo. Escrevi para não esquecer. Esqueci? Já esqueci tudo?"
"Você está bem", disse Antonio suavemente. "Você foi ótimo."
Enquanto folheava a primeira página.
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Pontos a lembrar:
1. Ponto de entrada estável. A densidade de mana está aumentando, como previsto.
2. Evite árvores de raízes escuras—elas sugam seus pensamentos se você tocá-las.
3. Não siga a música. Não é música.
4. Vi Noah. Ainda está morto. Mas tentou falar.
5. As colinas próximas à sétima torre sangram quando cortadas. Evite.
12. A água é preta. Não é líquida. Parece cinza. Tem gosto de desespero.
23. As noites duram 30 horas. Dormir nelas é um erro.
35. Vi uma versão espelho de mim mesmo. Parecia mais forte. Deixei-a ir embora.
Ao chegar na nota 50, o tom começou a mudar.
52. O chão sussurra quando corro. Tentei pedir desculpas. Ele pediu meus olhos.
58. Esqueci meu nome hoje. Acho que começa com "D". Ou "Morto".
67. Enterrei meu coração batendo na terra para que nada o encontrasse. Ainda ouço ele gritar.
79. O sol piscou para mim hoje.
Na nota 100, a compreensão começou a se destruir completamente.
101. Os números não estão mais em ordem. Mas os dentes sim.
108. Ele usa uma coroa feita das minhas mágoas.
117. Não coma as nuvens azuis. Elas lembram que foram pessoas.
125. Risada continua me perseguindo. Parece o Antonio.
132. Pare de escrever. A tinta é feita de gritos.
139. Valdora não é um castelo. Valdora é uma ferida.
147. A porta sangra quando me aproximo. Acho que sou a chave.
150. Ela guarda o metal. Gosta de nomes. Não traga o seu.
Antonio fixou o olhar na última página, agora a tinta escorria mais desleixada, quase esculpida no pergaminho.
153. Não sou eu? Sou quem voltou!
Ele lentamente colocou as páginas de lado.
Dupravel não tinha se mexido.
"Programe uma expedição", murmurou Dupravel. "Logo. Envie homens. Não mais fortes que Mestres Grandes."
"Por quê?" perguntou Antonio em voz baixa. "Se é tão perigoso, não deveríamos enviar nossos melhores?"
Dupravel finalmente virou a cabeça, só um pouco, embora seus olhos permanecessem desfocados.
"Quanto mais forte, mais alto você grita", sussurrou. "Força atrai força. Todo mundo lá dentro é uma fera. E feras não lutam com ratos."
Ele coçou o braço novamente. Desta vez até o osso.
"Um leão pode não perseguir um rato que corre pela floresta", murmurou. "Mas ele nunca permitirá que outro leão caçe em seu território."
A garganta de Antonio apertou.
E, embora o homem na sua frente estivesse quase sem mente ou alma—
Dupravel Nuna parecia ainda tentar liderar a guilda, mesmo à beira da loucura.
"Entendido, Mestre da Guilda. Vou postar aviso na sala de recompensas, reunir participantes dispostos", disse Antonio, enquanto Dupravel começava a bater no peito como um macaco, de forma aleatória.
*Toca*
*Toc*
*Toc!!!*
Cada golpe mais forte que o anterior, fazendo Antonio temer que pudesse quebrar suas próprias costelas. Porém, ao terceiro, ele parou de repente.
"Ofereçam a eles tudo. Qualquer recompensa do tesouro, se conseguirem o Metal da Origem."
"Limite de 500 dias."
500 dias. Chega.
Nenhum Mestre Grande deve passar mais de 500 dias lá dentro sem enlouquecer.
E diga para que levem suas próprias pedras de mana antes da expedição.
Que parem de reciclar mana do ambiente e só absorvam das pedras, isso vai ajudar a diminuir a deterioração mental deles." aconselhou Dupravel, com a voz quebrada.
"Entendido, Mestre da Guilda..." disse Antonio, enquanto saía rapidamente da cabana de Dupravel, abafando a lágrima que insistia em surgir.
Não suportava ver seu velho amigo assim.
Sempre que o via nessas condições de descontrole, não conseguia deixar de sentir um ódio profundo por Darnell e sua mãe miserável, que Dupravel continua idolatrando mesmo tendo perdido seu próprio sentido de si.
"Sempre soube que aquela vadia da Jessica era mais podre que a mana de um Mundo Parado."*
Levaram 11 anos até o mundo tão podre corromper a mente de Dupravel, contudo, a vadia fez mais estragos em apenas 3 anos.
O veneno que ela despejou na cabeça de Dupravel — e o filho amaldiçoado que ela deixou— são as correntes que arrastaram meu melhor amigo para a loucura.
E por esse crime, jamais os perdoarei." disse Antonio, caminhando para o centro de missões para publicar a missão mais lucrativa que a guilda já ofereceu até hoje.