
Capítulo 248
Assassino Atemporal
(Quartel-General da Guilda das Serpentes Negras, Planeta Lobo Gêmeo, dois dias depois)
O tumulto começou como um sussurro.
Um tremor distante no chão.
Um estranho brilho de mana surgindo enquanto uma figura desarrumada vagava em direção aos portões da guilda, trajando vestes rasgadas e manchadas de sangue que já não tinham forma ou distinção.
O homem parecia imundo, mancando de quatro patas como um macaco, coberto de sujeira negra e sangue seco — o rosto escondido sob uma barba desgrenhada e sombras profundas onde deveriam estar os olhos.
Os guardas exteriores pararam, confusos.
Nunca tinham visto alguém assim em Planeta Lobo Gêmeo, onde não havia mendigos, e, por isso, imediatamente ficaram em alerta.
"Senhor, o senhor não pode estar aqui. Esta é propriedade da Guilda das Serpentes Negras, identifique-se ou será detido," alertou um, avançando com a mão na arma.
No entanto, a figura não respondeu nada.
O guarda elevou a voz. "Última advertência. Identifique-se ou será detido—!"
E foi então que veio o impacto.
Não de luz, mas de morte.
Um único corte, silencioso e sem esforço, que rasgou o ar como um julgamento divino, dividindo a metade frontal do prédio da guilda como se fosse de papel.
*Explosão*
O céu tremeu. Paredes desabaram. Seções inteiras do complexo ruíram, levando dezenas de funcionários e soldados de elite na onda de destruição.
"AARGGHH—-"
*Caos*
*Gritos*
*Pânico*
Gritos seguiram-se. Então, alarmes.
Sirenes vermelhas ecoaram pelo complexo enquanto os protocolos defensivos se ativaram. Feitiços foram lançados. Auto-turrets travaram.
Em segundos, os elites internos da guilda chegaram ao local com suas espadas em punho, mana pulsando forte, cada um pronto para derrotar o intruso que acabara de massacrar seus colegas e demolir metade de seu santuário.
Até que viram o Vice-Guildmaster Antonio, surgindo com o manto voando e os olhos arregalados de descrença.
"FICAM PARADOS!" Antonio berrou, a voz trovejando pelo pátio como um trovão.
"TODOS VOCÊS, FICAM PARADOS, AGORA!" Ele repetiu, enquanto os soldados da Serpente Negra hesitavam, confusos.
"Mas, Vice-Guildmaster, é—"
"É ele!" Antonio gritou, ofegante. "É o mestre da guilda!"
Ninguém se moveu. Até que a criatura que permanecia entre os destroços virou a cabeça, criticando os dentes, soltando um rosnado baixo, gutural, mais animal do que humano.
Antonio deu um passo à frente, lentamente e com cuidado, com as mãos estendidas.
"Dupravel," disse suavemente, a voz trêmula. "Sou eu. Sou o Antonio."
Outro rosnado. Ainda mais baixo. Mais afiado.
Antonio continuou andando. "Não vim para te machucar, irmão. Agora você está em casa. Você conseguiu voltar. Vamos consertar isso. Você verá."
Por trás dele, os elites observavam horrorizados enquanto o Mestre da guilda das Serpentes Negras, o monarca supremo que alguma vez veneraram— permanecia curvado, com os olhos selvagens, o corpo tremendo com surtos de mana selvagem, como uma fera em meio à fome e à fúria.
"PEGUEM AS POÇÕES DE CLAREZA MENTAL!" Antonio ordenou sem se virar. "TODOS, CORRAM, TRAGAM OS CURADORES MENTAIS AGORA!"
Ele não se importava com quantos estavam vendo. Não se importava com o quanto aquilo era humilhante.
Isso não era mais sobre a guilda.
Era sobre salvar o pouco que sobrava do seu amigo.
(Câmara de Cristal, Ala Médica – 3 horas depois)
Dupravel estava enrolado no centro da câmara reforçada, tremendo a cada poucos segundos, enquanto os olhos se deslocavam para inimigos invisíveis.
Suas unhas estavam rachadas, irregulares e cobertas de sangue seco.
Os lábios estavam fendidos.
As vestes—antes reais—agora pendiam em pedaços rasgados ao redor do corpo, queimadas por mana contaminada.
A pele dele estava descascada em partes, músculos crus e ossos visíveis por baixo, enquanto sua aura piscava e desmoronava como uma chama morrendo, tentando se reacender.
Ele se recusava a deixar alguém se aproximar, obrigando os curandeiros a trabalhar de longe, lançando feitiços suaves de calmaria mental.
Antonio permanecia logo ali fora, tentando de tudo: palavras, memórias, promessas, ameaças, insultos e desabafos, mas nada parecia funcionar, pois Dupravel parecia ter esquecido a linguagem humana.
Toda vez que Antonio tentava entregar uma poção de clareza mental, Dupravel as rezingava com um rosnado, berrando incoerentemente.
Até que, na desesperança, Antonio pegou uma tigela de cachorro e despejou a poção nela, ajoelhando-se e empurrando-a pelo vão para a câmara de contenção.
*Sniff*
*Sniff*
"Grrrr—"
Dupravel cheirou. Rosnouu. E lentamente—tremente como um animal febril—arrastou-se até lamber a tigela até ficar limpa.
Antonio não se mexeu. Não hesitou.
Mesmo com a garganta apertada e o peito vazio. Mesmo com vergonha e dor apertando seu coração.
Ele apenas… esperou.
Os curandeiros aumentaram a dose. Mais duas garrafas foram administradas. E novamente, Dupravel as bebeu do mesmo jeito.
Só depois de dez doses, e mais de duas horas de cura à distância, é que a criatura que fora Dupravel começou a… mudar.
Seus olhos deixaram de piscar.
A respiração se estabilizou.
E então—quase imperceptivelmente—ele falou.
"Eu… eu estava… perseguindo… ela… ela falou comigo na voz de Noah… usava o rosto da minha esposa… mas ela morreu… morreu faz tempo… quanto tempo faz…?"
A voz dele era frenética, fina, um sussurro que se movia mais rápido que o pensamento.
Cada palavra acumulava-se numa confusão de trauma e linhas do tempo embaralhadas.
"Eu a matei. Depois ela riu. Eu sangrei… sangrei preto por semanas. Então o chão gritou. Então o teto virou olhos. Vi Antonio. Mas não era você. Não era você. Não era você."
Antonio sentiu seu coração parar de bater.
Mesmo após lhe ter dado tantas poções de clareza mental, Dupravel ainda parecia destruído.
Mesmo após horas incontáveis de cura, parecia que só poderiam restaurar sua mente contaminada até certo ponto.
"MAIS! TRAGAM MAIS POÇÕES DE CLAREZA MENTAL PARA ESTE HOMEM… CURANDEROS, DOBREM A PRODUÇÃO, O GUILDMASTER PRECISA DE VOCÊS!
NINGUÉM PODE DESCANSAR!
TEMOS QUE SALVÁ-LO HOJE, OU NUNCA MAIS PODEREMOS SALVÁ-LO!" Antonio gritou desesperadamente, sabendo exatamente o que estava em jogo.
Precisavam resgatar Dupravel antes que a mancha da mana do mundo estacionário corrompesse sua mente para sempre.
Quanto mais tempo a mancha permanecesse, maior o dano. Por isso, o tempo era essencial aqui.
O fato de Dupravel de alguma forma ter conseguido voltar até aqui mostrava que ainda tinha alguma sanidade — porém, precisava desesperadamente de salvação.