
Capítulo 247
Assassino Atemporal
Assassino Atemporal, Volume 3
(Um Mundo Intocado pelo Tempo)
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Eu e meus colegas tivemos uma oportunidade única de estudar uma criatura Corrompida que, acidentalmente, saiu de um Mundo Parado.
O que nos impressionou não foi sua força, nem a degradação de sua forma — mas a nitidez de sua loucura. Ela falava de memórias que nunca existiram, guerras que nunca aconteceram e deuses que já haviam morrido.
Para os Corrompidos, a verdade é uma coisa maleável — dobrada pela ilusão, remodelada pela dor e afiada até se tornar fé.
Eles não gritam porque estão sofrendo.
Gritam porque querem que você acredite que é bonito.
— Professora Alin Drex, Anomalias Crono-Biológicas e Degradação de Mana, Volume 112.
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(Quartel-General do Guilda Serpentes Negras, Planeta Dente-Gêmeo)
*Clack*
*Clack*
As botas de Antonio ressoavam ritmicamente contra as pedras de mármore preto do piso de seu escritório, o som ecoando suavemente nas paredes antes de se perder na quietude.
Ele andava com propósito, mas sem rumo, percorrendo o mesmo caminho invisível repetidas vezes, como um prisioneiro deitado na cela, exceto que essa estava decorada com cortinas de veludo, armas antigas e uma mesa que não era tocada há mais de uma semana.
Fazem quarenta dias.
Quarenta dias desde que Dupravel Nuna — o homem que até outros Monarchs temiam enfrentar em batalha — entrou naquela maldita fenda no espaço.
E ainda não tinha voltado.
Mais ninguém sabia.
Os demais da Guilda Serpentes Negras passavam seus dias com obediência treinada e silêncio ignorante, sem perceber que o coração do covil havia ficado em silêncio.
Não houve anúncio, nem protocolos de emergência, nem mudança de comando.
Apenas Antonio sabia onde o Mestre da Guilda tinha ido, e mais importante, quanto tempo ele deveria ficar fora.
Porque, ao contrário do que o nome sugeria, um mundo parado no tempo não estava realmente congelado.
Não — o tempo ainda passava lá, mas de uma forma errada.
Mais devagar.
Mais denso.
Como caminhar por melaço enquanto o resto do universo corria à frente.
Um dia fora da fenda equivalia a cem dias dentro. Um paraíso para quem queria treinar em isolamento, condensando décadas de progresso em semanas — se estiver disposto a arriscar tudo o mais, é claro.
Porque o que as pessoas não entendiam, ou melhor, o que a maioria se recusava a entender, era que um Mundo Parado não era um campo de treinamento.
Era um cemitério.
Uma ferida semi-morta no espaço, isolada do resto do universo, e um mundo onde a mana há muito tempo parou de fluir e começou a apodrecer.
O que um dia foi energia pura, como a mana encontrada no rio arco-íris de energia cósmica, ao longo dos séculos, tornou-se estagnada nos mundos parados no tempo e fermentou, virando algo venenoso.
A mana dentro de um Mundo Parado deixou de ser um rio e virou uma poça estagnada, há muito tempo não limpa, esquecida, com águas espessas de decadência, impróprias até para as criaturas mais simples.
Ela não mata de imediato, mas infiltra-se nas fissuras da alma, alterando pensamentos, corroendo memórias e enterrando o que restava abaixo, deixando uma aparência humana — mas sendo tudo menos humano.
E essa era a principal razão de que, assim que a consciência dos perigos de um mundo congelado no tempo começou a se espalhar, quase ninguém mais entrava voluntariamente nessas fendas espaciais.
Porque, ao circular aquela mana contaminada, o corpo ficava mais forte do que o normal — mas também passesava a ser instável.
Primeiro vinha a raiva. Depois a obsessão. Em seguida, o delírio.
E então, vinha o silêncio —
Aquele que se instala na mente como uma névoa, até que a pessoa esquece por que entrou naquele mundo parado no tempo.
Quem viveu tempo suficiente dentro de um Mundo Parado muitas vezes esqueceu seu próprio nome, esqueceu o som da própria voz e, na maior parte das vezes, esqueceu que existia um mundo além daquele.
Com o passar do tempo, o mundo os corrompia por completo, transformando-os em algo que não eram — aquilo que os do universo exterior chamavam de "Os Corrompidos".
Os "Corrompidos" eram criaturas de enorme poder, mas sem moralidade.
Uma forma poderosa, mas sem memória consciente.
Eles não sabiam mais quem eram, apenas pelo que haviam se tornado.
E Dupravel… agora tinha estado em um mundo assim por quarenta dias. O que, para ele, já equivalia a mais de quatro mil dias passados.
*Clack*
*Clack*
*Pausa—*
Antonio parou de andar, o peso daquele número pesando mais do que nunca no peito. Quatro mil dias. Sozinho. Cercado apenas por mana envenenada e pelos uivos dos perdidos.
'Nem mesmo um Monarch consegue suportar isso ileso. Nem mentalmente. Nem espiritualmente—' pensou Antonio, enquanto balançava a língua com arrependimento.
Ele tinha confiado que Dupravel sairia daquele reino amaldito em menos de três dias.
Acreditava que um período assim seria suficiente para mapear o mundo, entender as ameaças e montar um plano para recuperar o metal primordial que lá estava.
Mas estava errado.
Já se passaram 40 dias, e se Dupravel não voltar em mais alguns dias, Antonio será forçado a considerá-lo uma causa perdida.
"Nem sei o que vou fazer sem você," murmurou Antonio, frustrado, sentindo-se realmente perdido sem Dupravel.
Ele era o primeiro amigo e seguidor de Dupravel, acompanhando-o desde antes de alcançar o nível Transcendente.
Estava lá quando Dupravel fundou a Guilda Serpentes Negras e quando matou o Dragão Noah, conquistando seu tesouro.
Nunca tinha se preocupado se Dupravel voltaria vivo de uma batalha, pois ele nunca falhara em uma batalha sequer, apesar de ser um guerreiro Transcendente.
Porém, desta vez, pela primeira vez em quase um século seguindo Dupravel, Antonio não tinha certeza se o veria novamente.
Pelo menos, não como antes.
Pois, enquanto tudo no Mundo Parado se movia lentamente, a loucura, como se sabe, sempre era rápida para se apoderar de lá.