Assassino Atemporal

Capítulo 230

Assassino Atemporal

(Darnell Nuna’s POV – Planeta Desconhecida, Prisão do Culto Maligno, Dia 3)

“Achava que a base do Culto Maligno seria algo parecido com uma masmorra de necromante… paredes de pedra úmida, correntes de ferro, o cheiro de carne podre e crânios dispostos como decoração,” refletiu Darnell enquanto se sentava ao lado da janela, observando o skyline cintilante de uma cidade que parecia bastante bem estruturada.

Mas, para sua surpresa, nenhum desses clichês de fantasia sombria se aplicava.

Ele não estava amarrado. Não estava sendo torturado. Muito pelo contrário, nem mesmo o observavam o tempo todo. Seu quarto tinha um colchão de verdade—de alta qualidade—, almofadas macias, lençóis limpos e uma vista panorâmica de uma cidade extensa, banhada pela luz quente do entardecer.

Ocasionalmente, pessoas batiam educadamente na porta antes de entregar suas refeições.

“Será que isso é mesmo o Culto Maligno?” pensou novamente, franzindo a testa enquanto levava a colher à boca.

A comida era boa. Um pouco pesada para o seu gosto, mas bem temperada.

*Bati.*

*Bati novamente.*

O som o tirou de seus pensamentos, e ele rapidamente se virou na direção da porta enquanto ela se abria com um suave sussurro.

Um homem idoso entrou—baixo, bem vestido, com linhas de riso profundas nas bochechas e um brilho suave nos olhos que não condizia com a reputação da facção que alegadamente servia.

“Boa noite, jovem senhor Nuna,” disse o homem calorosamente, com um tom tão descontraído que quase parecia um avô cumprimentando um neto.

“Chamo-me Mighty Mouse,” acrescentou, oferecendo uma leve reverência.

Darnell piscou. “Mighty o que agora?” falou, soltando uma risada. “Esse é seu nome?”

“Bem,” o velho riu junto, “é um apelido, na verdade. Um que carrego há algum tempo. As pessoas se lembram melhor dele do que do meu nome verdadeiro, então acabei pegando gosto por ele.”

“Vocês do Culto realmente não são o que eu esperava,” admitiu Darnell, ainda rindo. “São mais educados do que metade dos instrutores da academia que tive.”

“Fazemos o possível para fazer os convidados se sentirem à vontade,” disse Mighty Mouse, puxando uma cadeira e sentando-se com um leve barulho. “Me diga uma coisa, Darnell—posso chamá-lo assim?”

“Claro.”

“Conte-me… como foi sua infância? Que tipo de memórias você criou com seu pai?”

O rosto de Darnell se iluminou imediatamente, seu sorriso se abrindo largo enquanto se inclinava para frente, entusiasmo transbordando na voz. “Ele é o melhor. O homem mais forte do universo, sem dúvida. Costumava assistir ele treinando membros da guilda às escondidas, achando que era uma fera mítica. Mas ele não é só assustador, sabe? Em casa, era... carinhoso. Engraçado, até. Aquele jeito que ele tinha de pentear meu cabelo ou de me xingar quando eu roubava doces da cozinha…” a voz dele suavizou, “Tenho certeza de que está morrendo de preocupação por mim agora mesmo.”

Uma onda repentina de culpa passou pelo rosto de Darnell, e seus olhos caíram para a mesa, o sorriso desaparecendo lentamente.

Mighty Mouse observou tudo calmamente, assentindo com um murmúrio pensativo, mas internamente, sua avaliação era fria e clara.

‘Sem preparo emocional. Este garoto demonstra suas emoções na cara, e tem a maturidade de uma criança de sete anos.

Mesmo que esteja fisicamente desenvolvido, mental e emocionalmente é pior que a maioria das crianças de cinco anos. Dupravel realmente falhou em lhe dar uma educação adequada.’

Mesmo sorrindo externamente, ele se inclinou para frente e tocou suavemente a mesa com os dedos.

“Você sente falta do seu pai?” perguntou, gentilmente.

“Claro!” respondeu Darnell instantaneamente.

“Então, vamos fazer alguma coisa a respeito,” disse Mighty Mouse, puxando um pequeno pergaminho e um cristal de comunicação cintilante de seu manto. “Vou te passar as coordenadas deste planeta. E com esse cristal, você pode gravar uma mensagem. Avisar onde você está. Nós encaminharemos para ele, e se ele quiser, vem te buscar.”

Os olhos de Darnell se arregalaram.

“Espera, sério? Você vai me deixar mandar uma mensagem? Assim, de repente?”

“Não somos monstros, meu jovem,” disse o velho, sorrindo enquanto colocava os dois objetos à sua frente.

Darnell os pegou lentamente, a voz cheia de surpresa. “Uau, vocês são gente boa!”

Mighty Mouse riu de novo, embora seus olhos permanecessem imóveis enquanto observava Darnell começar a gravar, o brilho avermelhado do cristal capturando cada palavra.

“E aí, pai! Sou eu, Darnell! Estou bem, não se preocupe! Essas pessoas do culto não me fizeram mal algum... na verdade, me deram um quarto ótimo, com comida e tudo, e tem um cara chamado Mighty Mouse—risos, sim, nome engraçado—que foi muito legal comigo. Ouça, estou te enviando as coordenadas que me deram. Pode vir me buscar neste planeta, tá? Tenho saudade de você. Por favor, venha logo…”

Enquanto Darnell continuava falando, Mighty Mouse se recostou um pouco, cruzando os dedos com um sussurro de satisfação silenciosa, tudo saindo exatamente como planejado.


(Algumas horas depois, Planeta Dente Gêmeo)

Uma encomenda aleatória foi entregue ao planeta Dente Gêmeo algumas horas depois, contendo uma cópia da mensagem que Darnell gravou para seu pai.

A encomenda, após verificação pela segurança da Guilda da Serpente Negra, rapidamente chegou ao escritório dos mestres da guilda, onde Dupravel a assistiu com a desesperança de um homem agarrado ao último fio de sanidade.

No momento em que o rosto de Darnell apareceu na projeção— sorrindo, vivo e ignaro da tempestade que sua ausência tinha causado— a compostura de Dupravel se desfez.

Enquanto a gravação tocava com inocência alegre:

> “Oi, pai! Sou eu, Darnell! Estou bem, não se preocupe! Essas pessoas do culto não me fizeram mal… na verdade, me deram um quarto ótimo, com comida e tudo, e tem um cara chamado Mighty Mouse—risos, sim, nome engraçado—que foi muito legal comigo. Ouça, estou enviando as coordenadas que me deram. Pode vir me buscar neste planeta, tá? Tenho saudade de você. Por favor, venha logo…”

Quando as palavras terminaram e a luz da projeção piscou, Dupravel ficou paralisado na cadeira, encarando o vazio, enquanto o silêncio em seu compartimento se impregnava como uma densa fumaça.

Então, seus ombros começaram a tremer.

Um suspiro. Dois.

E de repente— ele quebrou.

O primeiro soluço saiu de sua garganta como um rugido, enquanto lágrimas corriam livremente pelo rosto. Ele não tentou escondê-las. Não se incomodou em limpá-las. Seu coração, endurecido por décadas de sangue derramado, quebrou como vidro frágil diante da voz do filho.

“Antonio…” conseguiu gaguejar, a voz rouca. “Onde ele está? Quais são aquelas coordenadas?”

Antonio, que estava quieto na beira da sala, imediatamente deu um passo à frente e digitou os números em seu data-slate.

Bip. Bip. Bip.

A tela pulsou uma vez, então exibiu um nome.

As mãos de Antonio pausaram no ar, a cor sumindo de seu rosto, enquanto o nome que apareceu o aterrorizou.

“I—I—É–” Antonio gaguejou enquanto Dupravel fazia uma careta.

“O que é? O quê?” insistiu Dupravel, enquanto Antonio finalmente escancarou o nome.

“Ixtal…”

“Ele está em Ixtal… Deus nos ajude… ele está em Ixtal.”

A cabeça de Dupravel virou rapidamente em sua direção.

“O quê?” berrou, embora o medo já começasse a penetrar em suas veias.

No fim, Ixtal era a terra sagrada do culto. O berço do Assassino Sem Tempo… a morada atual do Deus Mal Soron.

Por um momento, até mesmo Dupravel pareceu atônito, ficando pálido e paralisado sob o peso do que aquele nome significava.

Qualquer outro planeta no universo, e ele já teria marchado ali com a fúria total dos Serpentes Negros— queimar nações, quebrar santuários, arrasar o solo se fosse preciso.

Mas não Ixtal.

Ixtal não era um lugar para atacar.

Ixtal não era um lugar para infiltrar.

Ixtal… não era um lugar para deixar alguém vivo.

E ao perceber toda aquela realidade, Dupravel soltou um rugido monstruoso e jogou o data-slate na mão de Antonio pelo cômodo, quebrando-o contra a parede oposta.

*ESTOURO—*

Ele virou sua escrivaninha de obsidiana, destruindo-a ao meio, mesmo tendo sido entregue naquela manhã.

*TRIPIDAR—*

Uma estante dourada caiu sob seus punhos, livros de registros de assassinato espalhando-se como corpos no chão.

*SOM DE CAMPANHA—*

As lâminas ancestrais montadas na parede caíram com o impacto enquanto ele batia de ombro na porta de aço.

Antonio não se moveu.

Sabia que interromper a tempestade só pioraria tudo.

O peito de Dupravel arfava, os dentes cerrados, os punhos sangrentos pelos destroços.

“Ele está cercado por monstros,” rosnou, com a voz baixa e venenosa. “Sabiam que eu não podia alcançá-lo ali. Planejaram tudo desde o começo. Mandaram essa mensagem só para me provocar!”

E, pela primeira vez em décadas—talvez séculos—Dupravel Nuna sentiu algo que raramente admitia até a si mesmo.

Desamparo.

Porque seu filho não foi apenas sequestrado.

Ele estava em Ixtal.

E ninguém—absolutamente ninguém—entra em Ixtal sem ser convidado e volta vivo.

Nem mesmo os Reis.

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