
Capítulo 229
Assassino Atemporal
(Ponto de vista do Comandante Jackson – Centro de Investigação Temporário, Perímetro da Arena do Deus do Céu, Dia 2 de Isolamento)
Após quarenta e oito horas de investigação contínua, dezenas de interrogatórios com testemunhas, e duas noites sem dormir à frente da força-tarefa da Arena do Deus do Céu, o comandante Jackson finalmente consolidou seu relatório preliminar sobre o ataque terrorista.
Infelizmente, não foi muita coisa.
Como ele não encontrou nenhuma prova conclusiva. Nenhum nome de um mestre por trás da conspiração que tivesse maquiado o ataque. Nem pistas finais que ajudassem a rastrear os sequestradores de Darnell Nuna.
O que estava diante dele era uma carnificina meticulosamente planejada e executada com perfeição.
Parecia ter sido realizada por células de mercenários independentes que se autodestruíam após a missão, sem deixar fios soltos.
No entanto, apesar da ausência de testemunhas de cultos confiáveis para interrogar, a força-tarefa conseguiu extrair algumas informações críticas — nenhuma delas particularmente tranquilizadora.
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[1] Método de Infiltração: Completamente Desconhecido.
Apesar dos depoimentos extensos de guardas e patrulheiros sobreviventes, sem ligações conhecidas com cultos, ninguém conseguiu explicar exatamente como os sabotadores do campo de batalha central haviam agido.
As explosões que causaram o colapso do núcleo da arena foram plantadas nos encaixes estruturais dias antes do evento.
O mais chocante não foi serem plantadas com antecedência — mas sim que ninguém percebeu nada nos dias seguintes.
Nem um trabalhador de manutenção, nem um engenheiro, nem um supervisor de segurança notou algo fora do comum, e até as varreduras de segurança não detectaram nada.
As bombas não estavam envoltas em campos de furtividade avançada, nem escondidas em bolsos dimensionais.
Elas foram deixadas ao ar livre — mas ainda assim camufladas de forma tão eficaz que nenhum sistema de detecção as identificou.
E isso nos leva ao próximo ponto, ainda mais perturbador.
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[2] Camuflagem Além das Capacidades Atuais da Aliança.
Os materiais usados para disfarçar as explosivos eram de origem desconhecida, provavelmente não provenientes de nenhum fabricante ou facção reconhecida dentro da Aliança Universal.
Mesmo com filtragem de mana de alto nível e espectrografia térmica, não foi possível detectar resíduos das explosões após a detonação.
Ou seja, os explosivos estavam disfarçados mediante uma técnica que superava os padrões de detecção científica e mágica das melhores laboratórios e divisões tecnológicas das regiões aliadas.
Nem um ferreiro nem um engenheiro dentro da própria Aliança conseguiu replicar esse método de camuflagem, o que deixou claro uma coisa: o culto maligno não apenas sobrevive na sombra — mas também prospera na ciência e na tecnologia.
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[3] Falta de Evidências de Comunicação Cruzada Entre os Operativos.
Analisando as imagens de segurança da arena, registros de movimentação e dados de impressões de mana, outra revelação perturbadora surgiu: os atacantes não tinham contato entre si antes ou durante a missão.
Sem sinais. Sem gestos. Sem rotas cruzadas.
Cada operante atuava de forma independente — executando sua tarefa com precisão cirúrgica, completamente ciente de que não veriam o próximo amanhecer.
Suas instruções segmentadas garantiam a integridade operacional. Nenhum deles possuía informações suficientes para comprometer o plano todo, e mesmo que um ou dois falhassem ou fossem descobertos, o restante continuaria sem impedimentos.
A missão não tinha um ponto único de fracasso — apenas um sistema de fanáticos, criados para obedecer e prontos para morrer.
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[4] Alvo Principal: Darnell Nuna.
A sequência cronológica e múltiplos testemunhos confirmaram o que muitos já suspeitavam: Darnell Nuna — filho do Monarca Dupravel Nuna e prodígio em ascensão na Academia Militar de Genève — era o principal alvo daquele ataque.
A unidade de ataque responsável por capturá-lo demonstrou coordenação superior, possuía equipamentos melhores e operava sob uma cadeia de comando mais refinada.
Sua estratégia de saída envolveu tecnologia de deslocamento espacial muito além das capacidades civis, o que sugeria que essa equipe foi enviada pelos círculos mais altos do Culto Maligno.
Ao lado de Darnell, os que perderam a vida nesse ataque eram, principalmente, guerreiros veteranos, executores políticos e inimigos notorios do culto.
Somente após completar esses objetivos, os agentes sobreviventes entraram no caos, matando indiscriminadamente para criar o máximo de confusão possível.
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[5] Infraestrutura Governamental Comprometida.
Talvez a observação mais alarmante de todas fosse a dura verdade sobre a corrupção interna.
As bombas foram plantadas de forma excessivamente limpa.
As armas, suprimentos e disfarces foram facilmente contrabandeados.
A infiltração não foi um acaso — nem resultado de segurança negligente.
Foi facilitada.
As credenciais oficiais usadas durante o ataque foram autenticadas e liberadas por canais legítimos. Diversos operantes mortos tinham acesso à arena mediante registros de comando totalmente verificados.
O que só podia significar uma coisa —
O culto tinha aliados dentro do sistema.
Nem hackers furadores de normas. Nem freelancers subornarados.
Simpatizantes.
Agentes ocultos infiltrados na própria estrutura do Governo Universal.
E, se isso fosse verdade, nenhuma instância estaria segura.
Nem perímetro confiável.
Nem aliança segura.
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Jackson deixou o relatório cair na beira da mesa, sua projeção de luz forte tremulando suavemente enquanto ele se apoiava na cadeira, as têmporas pulsando pelo peso do que acabara de confirmar.
O incidente na Arena do Deus do Céu não foi apenas um ataque terrorista.
Nem mesmo uma carnificina.
Foi uma mensagem.
Uma demonstração do culto para a aliança justa.
Com a mensagem de que —
"Podemos alcançá-lo. Podemos levar seus filhos. Podemos fazer tudo isso sem que você perceba… e você nem saberá quem somos."
Só de pensar nisso, Jackson exalou fundo, os dedos se fechando firmemente na borda da mesa.
Não era o ataque em si que o perturbava.
Mas a corrupção sistêmica que ele representava.
A estrutura de governo atual era vazia, com milhares de simpatizantes do Culto Maligno ocupando cargos de alta patente, e eliminá-los certamente seria uma dor de enfrentar.
"Preciso começar a montar uma equipe na qual eu possa confiar… Pode levar de dois a três anos para chegar à verdade, mas dado o tempo suficiente, tenho certeza de que conseguirei descobrir toda a verdade."
O alcance atual do Culto Maligno vai muito além do que imaginávamos, e se não forem impedidos logo, vão tomar o controle do governo por dentro, sem que ninguém perceba até que seja tarde demais.
Isso não é mais uma ameaça isolada… É algo que os Generais de Guerra e os próprios Deuses Soberanos terão que se envolver, cedo ou tarde.
Porque, se deixado de lado, isso pode marcar o fim da Aliança Justa como a conhecemos."
Jackson sussurrou para si mesmo, acendendo um charuto com dedos lentos e deliberados enquanto o peso de tudo aquilo finalmente se abalava sobre seus ombros.
Por quase duas décadas, o Culto Maligno permaneceu silencioso, desaparecendo na obscuridade, com sua influência parecendo minguar após a morte do último Dragão.
E, por um tempo, parecia que eles tinham perdido a vontade de ressurgir.
Mas o que realmente fizeram foi ficar em dormência, acumulando força nas sombras, esperando o momento certo para atacar.
O ataque à Arena do Deus do Céu não foi um incidente isolado.
Foi uma faísca de sinal que marcou o começo do ressurgimento do Culto Maligno.
E agora, o universo estava à beira de mergulhar novamente no caos, enquanto a guerra eterna entre luz e trevas se preparava para explodir mais uma vez.
Desta vez, Jackson sentia no âmago que apenas um lado sairia da tempestade intacto — enquanto o outro… certamente seria destruído, pois este ataque era uma prova clara de que as duas facções não podiam mais coexistir, simplesmente ignorando a existência uma da outra.