
Capítulo 231
Assassino Atemporal
"Não há outro caminho, Antonio? Tenho que implorar até o próprio diabo pelo meu filho?" Dupravel murmurou com um suspiro derrotado, sua voz quase um sussurro enquanto se afundava mais na cadeira, uma mão segurando a têmpora, a outra tremendo ao redor da borda do assento.
Antonio, de pé a poucos passos de distância, com os braços cruzados, tinha uma expressão igualmente sombria.
"Somente deuses podem enfrentar deuses, Dupravel. Você e eu sabemos disso." Sua voz era baixa, firme, resoluta.
"O Deus Mal Soron não é alguém que possamos enganar, assassinar ou montar uma emboscada. Não podemos invadir Ixtal sozinhos... Muitas forças muito mais poderosas que nós tentaram e fracassaram ao longo dos anos, pois a menos que um Deus esteja disposto a nos ajudar a invadir, não podemos fazer nada sozinhos—"
"Além disso, nem todo Deus serve… Soron sobreviveu à Grande Traição. Ele enxerga através das falsas promessas como enxergamos através do vidro, e para enfrentá-lo só precisamos do apoio dos mais fortes."
Dupravel não respondeu imediatamente às palavras de Antonio.
Ele ficou ali, com a mandíbula cerrada, raiva e poder pulsando em seus ossos, sem ter como liberar toda a energia acumulada.
Antonio continuou, sua voz agora mais dura. "As únicas entidades que podem enfrentar Soron são seu irmão, Kaelith, o Soberano Eterno, ou o próprio diabo—Mauriss, o contratante."
"Mas Kaelith não levantará um dedo contra seu irmão. Não há nada que você possa oferecer a ele que ele não já possua, nem preço que ainda não tenha visto ser oferecido."
"E então... Mauriss é nossa única esperança."
O nome pairou no ar como uma maldição, fazendo até a pele de Dupravel arrepiar.
Mauriss.
O Enganador Eterno. O Diabo do Contrato. Aquele que até os demais deuses temiam invocar.
A simples ideia de pedir ajuda a ele—de ir até ele de cabeça baixa e mão estendida—enojava Dupravel até o âmago.
Ele passou toda a vida gravando seu nome na história com lâmina, veneno, sangue e cinzas. Nunca implorara. Nem uma vez. Mesmo cercado de inimigos ou encarando a morte de frente.
Mas agora?
Agora não lutava mais por reputação, poder ou política.
Ele lutava pelo seu filho.
E isso mudava tudo.
Dupravel olhou para seu próprio reflexo nas pedras polidas do chão, com os olhos vazios e distraídos.
'Para salvar Darnell... Preciso agora vender minha alma ao diabo.'
"Preciso de um tempo para pensar," murmurou primeiro, mais para si mesmo do que para qualquer outro.
Mas esse tempo durou apenas seis segundos.
"Esquece isso," rosnou, levantando-se de repente, com um movimento violento. "Ative a porta de teletransporte. Configure as coordenadas para o Planeta Granoda."
As sobrancelhas de Antonio se contraíram.
"Você está sério?"
Dupravel não respondeu.
Ele não precisava.
Simplesmente se virou e começou a caminhar em direção à câmara central de teletransporte da guilda, com as costas pesadas pelo peso do que estava prestes a fazer.
"Informe os demais," acrescentou de forma fria, "que, se eu não voltar em doze horas... a Guilda da Serpente Negra deve me considerar morto."
Antonio assentiu uma vez, o clima pesado de tensão não dito no ar.
Pois ambos sabiam.
Que ninguém visitava Mauriss esperando misericórdia.
Que alguém o procurava porque não tinha outras opções.
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(Ponto de vista de Dupravel – Planeta Granoda, O Pico da Solidão)
O céu rugia.
Essa foi a primeira ideia de Dupravel ao sair do portal de teletransporte, o vento quase arrancando sua capa de seus ombros no momento em que pisou na borda do planeta assolado por tempestades.
Granoda não era mais que um oceano. Um planeta engolido por ondas furiosas e turbilhões incessantes que nunca dormiam, onde relâmpagos dançavam entre as nuvens como espíritos inquietos e a chuva não caía em gotas, mas em lâminas.
Não havia civilização ali. Nenhuma cidade. Nenhuma casa.
Apenas um pico solitário atravessando o mar planetário como uma lança esquecida de um deus—seu cume rochoso quase do tamanho de uma terra.
E foi ali que o Diabo escolheu morar.
'Que tipo de homem... escolhe viver aqui de bom grado?' Dupravel se perguntou enquanto voava em direção ao pico.
"Que tipo de deus faz de sua morada o caos em si?" perguntou às estrelas, mas não obteve resposta, apenas ouviu o trovão em troca.
*TROVOADA*
Aterrissando aos pés do pico, Dupravel não voou até o topo, embora pudesse, pois sabia que era uma armadilha — e fazia questão de evitar esse erro.
Por mais que a loucura de Mauriss fosse notória, ele seguia a uma antiga etiqueta— regras mais antigas que a maioria dos impérios. E, segundo suas regras, se alguém buscava sua graça, precisava escalar.
Passo a passo.
Pedra por pedra.
Com um pé na frente do outro.
Embora a subida não fosse muito longa, as condições ao redor dela também não eram normais.
Quanto mais perto do topo, mais pesada ficava a atmosfera, como se uma vontade invisível estivesse pesando sobre ele, por cada pecado que cometera.
A montanha onde o diabo morava automaticamente rejeitava quem a escalava com orgulho no coração.
Era uma artefato divino, que só permitia passar aqueles cujo coração transbordasse de desespero.
E Dupravel... por acaso, tinha bastante disso.
Quando atingiu o cume, suas pernas ardiam, as costas doíam e a respiração vinha em intervalos entrecortados, mas ele ainda mantinha-se firme.
De lá de cima, via uma cena surreal—
O grande Deus Mauriss descansava no topo de uma colossal raposa de nove caudas, cujo pelo reluzia como ouro líquido, as caudas balançando preguiçosamente em movimentos rítmicos.
Duas belezas celestiais— descalças, com roupas quase inexistentes, pele brilhando como a luz da lua—massageavam suavemente o corpo tatuado do diabo, espalhando óleo divino pelo peito e ombros enquanto ele se deleitava com o toque, de olhos fechados.
O corpo de Mauriss estava coberto de runas e selos tatuados que se moviam por vontade própria.
Seus longos cabelos de ébano flutuavam de forma sobrenatural, dançando com o vento e desafiando a gravidade, como se a própria natureza se curvasse diante dele.
E seu sorriso—
Aquele sorriso malicioso e cheio desegredos—
Dividiu seu rosto antes mesmo de abrir os olhos.
"Bem… bem… bem…"
Sua voz era aveludada, embebida em vinho, divina e indulgente, como se pertencesse a um ser demasiado poderoso para agir com pressa.
"Se não é o sempre orgulhoso Monarca Dupravel..." Mauriss disse, com os olhos ainda fechados. "Que gentil de sua parte... visitar minha humilde morada."
Então seus olhos se abriram.
E o mundo se curvou.
Dupravel caiu.
Não por fraqueza, nem de vergonha.
Mas porque nenhum mortal—nem mesmo um Monarca—suportaria o olhar do Diabo repousando sobre si.
*CADADEIRA*
Ele caiu de joelhos no chão, os joelhos rachando as pedras sob si enquanto a gravidade aumentava mil vezes, o corpo todo tremendo sob o peso do olhar divino de Mauriss.
"Saúdo você... Ó Enganador Eterno," Dupravel conseguiu dizer, a testa grudada na rocha, sangue escorrendo das mãos onde seus punhos apertavam a superfície da montanha.
Os olhos de Mauriss piscaram, divertidos.
"Ahhh. Você ainda se lembra dos antigos títulos. Quanta graça."
Disse com leveza, com um movimento casual do pulso, a pressão desaparecendo.
"Pode se levantar, minha pequena cobra."
"Você veio longe para me encontrar. Agora fale." Ele sorriu maliciosamente enquanto Dupravel se levantava lentamente, os ombros tremendo de vergonha pelo que estava prestes a dizer a seguir.
"Vim implorar pela vida do meu filho," começou Dupravel, com a voz baixa e firme.
"Ele está preso em Ixtal pelo culto. Não consigo alcançá-lo. Não posso salvá-lo. Por isso, venho até você—"
Ele se ajoelhou novamente, mais fundo desta vez.
"—e ofereço minha alma em servidão. Pague-a completamente e sem condições. Apenas ajude-me... a salvá-lo."
Silêncio.
Então—
Riso.
Não zombeteiro. Não alto.
Mas divertido. Como alguém que acabou de receber uma espada de papel numa guerra.
"Sua alma?" Mauriss disse, as palavras mergulhadas em humor. "Dupravel... você me magoa. Você acha que sua pequena alma de Monarca vale alguma coisa pra mim?"
A mandíbula de Dupravel se cerrava, o rosto ainda baixo, a humilhação corroendo-o como ácido.
"Não tenho interesse em covardes na minha seara," continuou Mauriss, afastando as garotas com um movimento de mão enquanto se levantava, com os pés descalços tocando a pedra suavemente. "Você acha que um pouco de sangue, um pouquinho de matar e jogos de sombras fazem de você digno do favor do Diabo?"
Ele sorriu ainda mais largo.
"Não, não, não... Se você quer minha ajuda—Monarca Dupravel Nuna, você terá que me oferecer algo mais...."
Algo mais raro…..
Algo… delicioso."
Avançou, sua aura agora apagando o próprio céu acima, enquanto mesmo as tempestades continham a respiração.
"Me diga," Mauriss falou suavemente. "Até onde você está disposto a ir para salvar seu filho?"