
Capítulo 220
Assassino Atemporal
(Ponto de vista de Muiyan Faye, alguns segundos atrás)
Enquanto Faye observava Jishan desembainhar sua lâmina, seu coração travou na garganta, um grito silencioso preso entre dentes cerrados enquanto seus olhos fixavam o brilho do metal quase acima do pescoço de Leo.
Seus punhos golpearam a barreira dourada com mais força, numa última tentativa desesperada, instintiva mais do que lógica, porque a lógica já lhe dissera há muito tempo que essa parede não poderia ser destruída pelo que ela tinha.
Pelo menos, não sozinha—
E, ainda assim, ela tentou.
Continuou gravando sua lâmina na mesma ranhura que havia feito uma dúzia de vezes antes, como se a persistência pudesse desafiar o feitiço onde a força não podia.
Mas era tarde demais.
A lâmina estava desembainhada. O ângulo tinha mudado. Jishan estava pronto para terminar o serviço.
E ela não podia fazer nada além de assistir enquanto a ameaça que ela jurara proteger estava prestes a ser executada.
Porém, então— Leo se moveu.
Um leve movimento de pulso. Um aperto nos ombros. Uma estranha proximidade da coxa de Jishan, que parecia deliberada.
Enquanto os olhos de Faye se estreitavam.
"O que você—?"
E foi aí que aconteceu.
O pico de mana foi pequeno, quase imperceptível para quem não estivesse atento ao que se passava. Mas ela percebeu.
E ela sentiu.
Aquele pico repentino de energia bruta, invasiva, que Leo enviou ao corpo de Jishan, era uma técnica que ela nunca tinha visto antes, e os resultados foram, no mínimo, chocantes.
"Guh— GAAAAAAAAH—AAAHHHHH—!!!"
O grito que saiu da garganta do cultista não era dor, mas sim o som de um homem descobrindo uma espécie de agonia que nem sabia que existia.
Jishan cambaleou. Desmaiou. Convulsionou.
Enquanto Leo— ensanguentado e quebrado— permanecia de joelhos, ofegando por entre um sorriso ensanguentado.
E Faye só podia olhar, enquanto metade dela queria chorar de alívio…
…enquanto a outra metade olhava ao redor desesperada, lançando um olhar na direção do mesmo Dupravel Nuna que seu culto odiava, esperando que ele quebrasse a barreira logo, para que ela pudesse mergulhar e salvar Leo.
*PALHADA*
*PALHADA*
Nesse momento, outros dois Monarcas entraram na luta, incluindo o Patriarca da Família Mu e o Enigma Wade, que também chegaram.
Ambos deram um aceno de entendimento para Dupravel, enquanto os três ficavam em formação, aparentemente prontos para reforçar os ataques uns dos outros e trabalhar juntos para quebrar a barreira.
Auras de Dupravel começaram a subir primeiro, enquanto uma torrente violenta de energia negra-violeta se expandia ao redor dele em espirais serpenteantes.
Perto dele, o Patriarca Mu respirou fundo, e ao expirar, runas douradas spiralavam de seu peito, dançando pelos braços e na espada Talwar curva que empunhava.
E, por fim, Wade— sempre silencioso, sempre enigmático— apenas ergueu uma mão, e o espaço ao redor de sua palma se curvou de forma anormal, como se a própria realidade estivesse se preparando para ceder.
Então—
*EXPLODIU*
Todos os três liberaram seu poder em um único golpe coordenado.
Dupravel seMoveu como uma fera descontrolada, seus punhos atingindo a barreira em uma enxurrada de golpes precisos e brutais, que racharam as camadas externas da cúpula.
O Patriarca Mu seguiu com uma estocada divina de sua lâmina, um arco dourado cortando o tecido do feitiço, aprofundando-se no núcleo da estrutura.
E, por último, Wade apenas tocou a barreira com o indicador e o médio—
Enquanto o mundo ficava silêncio por meio segundo, até que um estalo agudo como vidro quebrado ecoou de dentro do próprio feitiço.
Em microssegundos, rachaduras se abriram na superfície da cúpula, espalhando-se como veias, brilhando com mana instável, até que a luz dourada começou a piscar, até se destruir completamente, e a barreira se desfez.
*CRACK*
A barreira quebrou, e centenas de guerreiros caíram no poço ao redor de Leo, enquanto várias dezenas de ataques atingiam Jishan, que virou uma pilha de ossos e cinzas em questão de momentos.
"PAREM… NINGUÉM SE MOVA—" comandou Dupravel, assim que aterrissou no poço, com voz grave, parecendo desesperado para fazer algo antes que as pessoas ali arruinassem tudo.
Estendeu a mão e conjurou algo estranho— uma antiga urna de prata, gravada com runas brilhantes em branco, que pairava diante dele, suspensa no ar pelo fluxo de mana que ele alimentava nela.
Não parecia surgir de uma bolsa espacial nem de um anel de espaço— não, esse não era um objeto que ele carregava, mas algo que ele conjurava de um espaço selado, conhecido apenas por ele, como um relicário sagrado ligado à sua alma.
E então começou a entoar um feitiço.
Baixo de início— tão silencioso que nem Faye, a alguns passos de distância, conseguiou ouvir claramente— mas quanto mais ele avançava, mais o universo parecia responder, enquanto o vento se acalmava e a temperatura caía, como se a urna estivesse sugando a vitalidade do próprio cosmos.
*SHINGGG—*
A urna trepidou.
A tampa se abriu lentamente com um apito de ar pressurizado que exalava aroma de sangue antigo e incenso queimado, enquanto as cinzas que antes eram Jishan— fragmentos de ossos, fios de tendões, até as últimas lascas de seu robes preto queimado— levantaram do chão como poeira carregada por um vento reverso, flutuando para cima antes de serem sugadas para dentro da urna.
Faye só pôde assistir enquanto cada partícula de seu corpo era recolhida pela relíquia, consumida em silêncio, até que a tampa se fechou com um baque profundo e final que ecoou como uma lápide se encaixando no lugar.
Só então— após o ritual terminar e o artefato retornar à imobilidade— o vento começou a mover-se novamente, e a temperatura voltou ao normal, enquanto Dupravel, coberto de suor da cabeça aos pés, soltou um suspiro profundo.
"Não consigo sentir os outros dois", disse Wade, sua voz áspera, cansada, mas carregada de certeza.
"Nem neste setor. Nem mesmo neste sistema estelar."
Ele fez uma pausa, com as sobrancelhas mais franzidas, a expressão ficando severa.
"Qualquer que seja o nexo espacial que os Sacerdotes do Mal usaram para escapar… Não foi um salto simples. Eles cobraram uma distância enorme, e rápido."
Seus olhos se voltaram lentamente para Dupravel agora, e embora sua voz não demonstrasse emoção, havia peso em suas palavras.
"Desculpe, Líder da Guilda… parece que os bastardos do culto pegaram seu filho." disse Wade, enquanto Dupravel não respondeu de imediato.
Ele permanecia ali, uma mão ainda descansando na urna selada, o peito subindo e descendo sob o peso da fadiga de mana, com os olhos estreitos sob os fios úmidos de cabelo grudados na testa, não por medo ou tristeza, mas por uma pura e ardente estratégia— como um homem que já começava a dissecar os próximos cem passos na mente antes mesmo de as primeiras palavras saírem de sua boca.
"Não se preocupe com isso." disse com uma voz sem hesitação ou dúvida, apenas olhando para a urna, e por um breve instante, exibiu um sorriso escuro e frio.
"Eu tenho um deles agora," disse, elevando a urna levemente com um movimento de dedos, "e tenho meus modos de fazer os mortos cantarem como canários."
Seu tom não era vanglório.
Não era teatral.
Era a promessa objetiva e direta de um homem que já tinha feito isso antes— muitas vezes— e faria de novo sem piscar.
"Vou descobrir tudo," continuou, sua voz baixa mas carregada de propósito, cada sílaba caindo com intenção. "Quem mandou, quem autorizou, onde levaram meu filho, o que planejam fazer em seguida. Tudo."
E então, lentamente, sua cabeça se virou para cima— além da arena destruída, além dos guerreiros atordoados tentando entender o que tinham acabado de ver— até que seu olhar se travou no belo céu azul acima.
"Vou encontrar meu filho," disse novamente, mais suave desta vez, mas nada menos assustador. "E assim que eu conseguir..."
Ele não terminou a frase.
Nem precisava.
Pois, no silêncio de sua promessa, havia um peso maior do que qualquer voto que ele poderia ter feito.