
Capítulo 124
Assassino Atemporal
(Academia Militar Rodova – Quarto de Leo no dormitório, meia-noite)
Nos últimos um mês e meio, Leo tinha desfrutado de um luxo raro: evitar qualquer episódio de Sono Fantasma.
Enquanto Su Yang, Mu Shen e os outros experimentavam esses episódios quase toda semana, assustados por vislumbres do passado, Leo tinha sido poupado—suas noites eram tranquilas desde a primeira vez que aconteceu.
Mas nesta noite—sua sorte acabou.
Ao invés do silêncio tranquilo que normalmente precede o sono, sua mente foi puxada de forma abrupta, sendo engolida à força pelas profundezas das memórias de sua linhagem.
E assim—o Sono Fantasma veio buscá-lo mais uma vez.
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(Uma floresta em chamas – tempos modernos)
Mais uma vez, Leo se viu pairando acima de um campo de batalha em ruínas, seu corpo sem peso e incorpóreo enquanto observava uma cena do passado.
O mundo ao seu redor era pura confusão.
Abaixo, uma floresta densa ardia, suas árvores gigantes reduzidas a cascas carbonizadas, chamas lamhiam as bordas de uma clareira repleta de inúmeros corpos.
Fumaça espessa e sufocante se enrolava no céu, carregando o cheiro de carne queimada, sangue derramado e morte.
E abaixo dele—eles corriam.
Oito figuras, machucadas, dilaceradas e desesperadas, corriam pelo campo de batalha, movidas apenas pelo instinto de sobrevivência.
Elas cortavam a floresta em chamas, serpenteando entre árvores em colapso e mato espinhoso, suas respirações ofegantes se misturando ao crepitar das chamas.
Mas não estavam sozinhas.
Logo atrás—inumeráveis perseguidores os seguiam.
Sangue manchava os uniformes rasgados, ferimentos abertos reluziam sob a luz do fogo—alguns frescos, outros quase fechado, deixando rastros carmesim enquanto avançavam.
Eles corriam até o limite, músculos gritavam de dor, pulmões queimavam a cada respiração.
E, mesmo assim—seus inimigos estavam conquistando terreno.
*Cruuuunch*
*Ofegante*
*Tropeçando*
Leo podia sentir a fadiga deles.
A forma como as pernas tremiam a cada passo.
A queima sufocante nos pulmões.
O medo puro enraizado em seus ossos.
Mas nenhum deles parou.
Porque atrás—
A morte vinha a galope.
Leo podia escutá-la.
Os passos trovejantes que quebravam a terra queimada.
O clangor de armaduras pesadas, cada vez mais alto a cada segundo.
Comandos ásperos e surdos gritados ao longe—ordens de uma morte rápida e implacável.
E então—um beco sem saída surgia à sua frente.
Uma muralha de rochas irregulares bloqueava o único caminho adiante.
Não havia como escapar.
Não havia rota alternativa.
Nem outra saída, enquanto o pânico dominava o grupo.
Desesperados, eles se entreolharam, buscando uma resposta. Uma chance milagrosa.
Mas não havia nenhuma.
O único caminho era escalar a terra rochosa, na esperança de chegar ao outro lado vivos.
"Vá—Vão—Vão!"
O primeiro homem não esperou. Chegou à base da parede de rochas e imediatamente começou a escalar, seus dedos procurando pontos de apoio, as pernas tremendo de esforço.
Mas ficou claro—eles não iam conseguir.
Leo podia ver. Os arqueiros estariam ali a qualquer momento, com suas flechas já carregadas, os perseguidores se fechando de todos os lados, como se alguém não ficasse pra trás para dar tempo—
Todos poderiam acabar mortos.
Até que—um deles parou de repente.
Um homem alto, poderoso, mais largo do que os outros, seu corpo rígido apesar dos inúmeros ferimentos que sangravam pela armadura rasgada.
Leo sentiu isso.
As costelas rachadas.
Os músculos rasgados.
A exaustão.
Mas ele não hesitou. Nenhuma dúvida. Nenhum medo.
Apenas determinação.
O homem olhou para trás, para seus companheiros, sua decisão já tomada.
"Eles vêm atrás de mim."
Sua voz foi firme, calma—quase resignada.
"Não vocês. Não os outros. Sou eu—the Dragão. Então deixem que eu fique para trás e lute."
Do lado dele, outro homem—quase tão alto, igualmente marcado pelas batalhas—parou, seu rosto contorcido de raiva.
"Não." Sua voz foi cortante, as mãos cerradas em punho.
"Você é o Dragão! Você é a esperança do nosso povo—não pode morrer! Deixe-me fazer isso, Noah. Deixe-me cobrir sua retirada."
Mas Noah apenas balançou a cabeça.
"Não, Noir. Você não é forte o bastante."
Seu tom era firme, mas não cruel.
Então, com um sorriso torto, ele fez um sinal de positivo com o punho.
"Aliás, tenho meus modos de sobreviver."
Era mentira.
E Noir sabia disso.
"Não."
Sua voz quebrou.
"Não faça isso, por favor. Precisamos de você. Estamos perdidos sem você. Nenhum de nós—ninguém—pode se tornar o Próximo Assassino Inkarnado—mas você pode! Sua vida vale mil vezes mais que a minha."
Noah estremeceria—não fisicamente, mas por dentro.
Talvez arrependimento.
Talvez culpa.
Talvez o peso de saber que Noir tinha razão.
Mas isso não mudava a verdade.
"Você precisa levá-los e ir embora."
Noir balançou a cabeça, ainda recusando, ainda resistindo.
"Não, Noah, cala a boca—"
"VAI, NOIR!"
A ordem não foi um pedido.
Foi um rugido. Uma ordem estrondosa, desesperada, que sacudiu o ar ao redor, deixando claro que não havia espaço para discussão.
Leo sentiu a dor no peito de Noah—a dor de saber que era um adeus.
Mas não havia outro jeito.
A respiração de Noir ficou ofegante. Entre lealdade e dever, entre irmão e sobrevivência.
Mas quando Noah colocou a mão no ombro dele, tudo se acalmou.
"Eu tenho meus modos de sobreviver." Noah mentiu de novo, mais suave. "Você só precisa confiar em mim."
Noir rangia a mandíbula.
Então—ele quebrou.
"Tudo bem."
Com uma inspiração forte, virou-se de lado, pegou o soldado ferido mais próximo e empurrou-o adiante.
"SE MEXAM!"
Os outros hesitaram—só por um segundo.
Depois, um a um, obedeceram, correndo pela face rochosa, desaparecendo na noite carregada de fumaça.
Leo podia sentir. A raiva deles. As orações silenciosas.
E enquanto Noir desaparecia na névoa, a última vista de Leo foi suas lágrimas nos olhos dele.
Então—
Os perseguidores chegaram.
Uma dúzia de figuras emergiu do escuro.
A armadura deles era preta.
Não apenas qualquer preta—preta obsidiana, com um sigilo gravado no peito.
O olhar de Leo fixou-se na imagem, queimando-a na memória.
Uma serpente enrolada ao redor de uma adaga.
Mas ele não tinha tempo para processar isso—
Porque Noah se moveu.
E Leo sentiu tudo.
A fadiga—sumiu.
A hesitação—desapareceu.
No instante em que o inimigo apareceu, Noah abandonou tudo, menos o instinto.
Seu corpo explodiu para frente.
Mais rápido que qualquer humano fosse capaz.
Mais rápido até do que Leo já tinha se movido antes.
E então—
A carnificina começou.
Um passo. 40 metros percorridos.
Um golpe. Uma cabeça rolando.
Um combatente de nível Transcendente apareceu na frente dele, mas a espada de Noah cortou sua garganta antes que pudesse reagir.
Sangue jorrou.
Um segundo inimigo avançou—Noah se virou, pisou na perna dele, deixando o joelho quebrou antes de cravar uma adaga no coração.
Um terceiro veio de trás—Noah sentiu.
Ele se abaixou.
Respondeu ao ataque.
Depois furou a cabeça do adversário com sua espada.
Três mortos em dois segundos.
E mesmo assim—eles não paravam de vir.
Dez, duas dezenas, depois vinte, quarenta…
E Noah continuava lutando.
Para cada inimigo que caía, mais surgiam.
Mais fortes.
Mais habilidosos.
Leo sentiu seu corpo ficando mais lento.
Seus golpes—menos precisos.
Suas esquivas—menos limpas.
Seus ferimentos—se acumulando.
Uma ferida nas costelas.
Uma adaga presa no ombro.
Um joelho batendo no esterno.
E então—
Uma nova presença avançou.
E tudo parou.
Os soldados inimigos recuaram.
Como atravessando a fumaça que se dissipava—ele apareceu.
O homem com o sigilo da serpente.
E no instante em que Noah o viu, Leo sentiu seu estômago cair.
Aquele homem era diferente.
Ele não se movia como os outros.
Não tinha a mesma presença.
Seu peso era sufocante.
Um guerreiro de nível Monarch.
Leo sabia—a morte tinha vindo por ele.
Mas mesmo assim—ele não vacilou.
Levou sua lâmina, ciente de que sua última batalha o aguardava.
Porém, mesmo confiante na própria morte, ele avançou contra o inimigo com um sorriso.
Como se fosse morrer, escolheu lutar como herói, e não fugir como covarde.
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Leo sentiu tudo que aconteceu posteriormente com clareza.
A batalha que se seguiu foi um borrão de velocidade, desespero e morte inevitável.
Noah lutou como uma fera.
Mas o homem—aquele com o sigilo da serpente—era algo além, brincando com Noah como Hen brincava com Leo durante o treinamento.
Devagar, mas seguro, os movimentos de Noah ficaram mais lentos.
Seus ferimentos sangravam mais fundo.
E finalmente—
Uma lâmina atravessou seu peito.
Leo sentiu.
O frio do aço entrando entre suas costelas.
O sangue enchendo seus pulmões.
A visibilidade se turvando…
Até que, por fim, Noah caiu de joelhos, respirando seu último suspiro.
"Vou te trazer de volta na próxima vida... Serpente Negra—" Ele disse antes de fechar os olhos para sempre, enquanto Leo sentia sua consciência se puxar de volta.
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Leo abriu os olhos bruscamente, respirando com dificuldades, com o peito latejando, os pulmões queimando e o corpo tremendo—como se fosse ele quem tivesse acabado de morrer, não Noah.
Como se seu corpo tivesse sido perfurado, sua força esgotada na terra.
E ainda assim—ele estava vivo.
Mas desta vez—
Ele tinha visto algo importante.
E desta vez—
Ele tinha um nome.
Um nome que conhecia demais.
Os Serpentes Negras!