
Capítulo 103
Assassino Atemporal
Leo pairava silenciosamente, com o olhar fixo no antigo pergaminho aberto diante dele, tentando desesperadamente memorizar seu conteúdo.
A primeira vista, parecia ser apenas uma teia caótica de padrões geométricos sobrepostos—complexos, mas aparentemente sem sentido. Mas, à medida que o homem que se parecia misteriosamente com ele começou a falar, as peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar.
"Essa formação não é apenas uma tática de combate—é uma corda dimensional," explicou o pai, sua voz profunda repleta de certeza e reverência.
Seus filhos, com os olhos arregalados de admiração, pendiam de cada palavra.
"Esse desenho foi criado especificamente para prender seres além do nosso plano mortal," continuou, traçando o espiral intrincado de linhas. "E eu já o testei em mim mesmo para garantir que funcione."
A respiração de Leo travou.
Testou em si mesmo?
Foi só então que Leo percebeu a verdade arrepiante—the homem à sua frente não era apenas mais um guerreiro ou mestre em táticas.
Ele era um deus.
Um calafrio percorreu a espinha de Leo, apesar de seu estado incorpóreo. Ver uma divindade era uma coisa, mas olhar para uma que tinha uma semelhança tão quase assustadora com ele fazia o coração congelar de inquietação.
"Mas como nós, simples mortais, podemos segurar seres que manipulam dimensões que nem conseguimos perceber?" perguntou o filho mais velho, a incredulidade crescendo na voz.
Um sorriso orgulhoso surgiu nos lábios do pai. "Sobrecarregando seus sentidos dimensionais," respondeu simplesmente.
Ele tocou exatamente o centro do espiral.
"Na sua essência, dois semi-deuses servirão como os principais âncoras—seus imensos poderes forçarão um deus a descer para nossa realidade tridimensional, cortando sua capacidade de ascensão para dimensões superiores."
Os olhos de Leo acompanharam a mão que se movia para fora, atingindo a próxima camada complexa.
"Ao seu redor," prosseguiu o pai, "cinco guerreiros do nivel Monarca formarão uma malha dimensional impenetrável—uma barreira esférica que selará todas as possíveis saídas. Nenhuma fuga. Nenhuma retirada."
Somente agora o verdadeiro significado do diagrama começou a se formar na mente de Leo.
"Apoiado por essa malha," continuou ele, "haverá doze guerreiros do nível Transcendente. Seu papel é fundamental—they reforçam a estabilidade da formação e evitam qualquer ruptura dimensional."
A coordenação deles deve ser perfeita.
Um deslize—e a formação desaba.
O dedo do pai traçou ainda mais para fora, até a última e mais elaborada camada.
"E, por fim, os Grande Mestres e Mestres tecem o labirinto sensorial—" continuou. "Vinte e quatro Grande Mestres e quarenta e oito Mestres, cada um distorcendo o espaço, torcendo a percepção, criando camadas de ilusões e distrações."
Ele fez uma pausa, trocando olhares entre seus filhos.
"Um deus preso nesse labirinto ficará confuso, incapaz de distinguir a realidade da ilusão e—mais importante—incapaz de montar uma contra-ofensiva eficaz."
A mente de Leo corria.
A complexidade da formação era esmagadora. Requeria disciplina inabalável, sincronização perfeita e uma coalizão de guerreiros de vários níveis atuando em harmonia.
Era um plano que, se executado sem falhas, poderia subjugar até as entidades divinas mais poderosas.
Mas, então, surgiu uma pergunta crucial.
"Pai, e se o deus que estiver preso na formação conseguir se libertar?" perguntou o filho mais velho, preocupação na voz.
A expressão do pai desapareceu. Sua feição se endureceu.
"Eles não podem," afirmou, com firmeza total.
O olhar penetrante se fixou nos filhos, sua presença exalando uma confiança inabalável.
"Eu sou o deus mais forte. E se não consigo defender essa formação de forma aceitável, então ninguém mais terá chance."
Os olhos de Leo se dirigiram ao topo do pergaminho, onde um nome tinha sido gravado com traços fortes e deliberados.
"ChakraVyuh."
Era um título escrito em uma língua antiga, mas, de alguma forma, Leo entendeu seu significado instinctivamente.
'A Formação Inescapável.'
O pai respirou fundo, orgulho brilhando nos olhos.
"Esse é meu presente aos mortais deste universo," declarou, "para que o equilíbrio de poder entre deuses e mortais possa ser restaurado."
Com isso, cuidadosamente, rolou o pergaminho e o entregou ao filho mais velho.
"Kaelith, meu filho," disse, colocando uma mão firme porém carinhosa no ombro do garoto. "Confio essa formação a você."
Sua voz carregava autoridade e uma responsabilidade profunda e não dita.
"Transmita-a às clãs e casas em quem confia. Forme uma aliança de retidão, com essa formação no centro."
"Nenhuma casa sozinha pode reunir todos os guerreiros necessários para completá-la—então eles devem aprender a cooperar.
Só assim os mortais poderão realizar o impossível."
O filho mais velho, Kaelith, endireitou a postura, com expressão resoluta.
"Farei conforme sua vontade, Pai," conseguiu dizer.
E, assim que essas palavras saíram, o mundo ao redor de Leo começou a distorcer.
O pátio ficou turvo.
O estudo vacilou.
E, num instante—Leo sentiu-se sendo puxado para frente novamente, a visão mudando, arrastando-o mais fundo numa memória passada que estava testemunhando.
Enquanto a próxima cena se desdobrava.
************
(Um Campo de Batalha Desolado, 2000 anos atrás)
A visão de Leo se voltou novamente. O calor do estudo, o silêncio reverente da descoberta—tudo desapareceu num piscar de olhos.
Agora, ele pairava acima de um campo de batalha mergulhado no caos.
Relâmpagos rasgavam o céu em arcos tortuosos, iluminando uma terra devastada, cheia de armas quebradas, bandeiras rasgadas e cadáveres de inúmeros guerreiros ainda fumegantes. O cheiro de sangue e carne queimada pesava no ar—sufocante, avassalador.
No centro de tudo—um homem acorrentado.
O coração de Leo apertou ao fixar o olhar, percebendo a formação geométrica incrivelmente precisa que cercava o prisioneiro.
Ele a reconheceu instantaneamente.
Era o ChakraVyuh!!!
'Não…' pensou, ao prender a respiração.
Estava perfeitos, uma manifestação impecável da formação inviolável. Mas algo estava terrivelmente errado.
A pessoa presa era justamente seu criador.
O mesmo pai que, com orgulho e propósito, havia explicado seu poder—agora, acorrentado na sua presa impiedosa.
"Por quê, Kaelith? Por quê?"
A voz do homem ecoou pelo campo de batalha, não em raiva—mas em angústia.
Seus pulsos estavam presos por correntes luminosas, ardendo em branco-quente com sigilos de supressão divina.
Sua postura, antes orgulhosa, estava curvada, a respiração ofegante. Sangue escorria de ferimentos profundos no rosto, manchando a barba antes imaculada com riscas de vermelho.
E ainda assim, seus olhos—mesmo nublados de dor—não demonstravam medo.
Somente traição.
"Por que, entre todos, você me traiu, meu filho?"
Leo sentiu.
Uma onda de emoção o invadiu—uma agonia tão visceral que quase o fez ajoelhar, mesmo na incorporeidade. Era como ser despedaçado por dentro, como se ele mesmo fosse o que estava sendo traído, acorrentado, abandonado.
E então, o primeiro ataque chegou.
BOOM!
O corpo do pai convulsionou enquanto uma explosão de fogo celestial o engoliu, queimando sua pele enquanto chamas divinas lambiam sua carne.
A força foi suficiente para destroçar montanhas—mas a formação manteve-o no lugar.
Leo piscou, sentindo a dor. Cada crepitar, cada brasa encravada na carne—era real.
Mas o ataque mal começara.
Da borda do ChakraVyuh, seis figuras divinas permaneciam na posição.
Deuses.
Não mortais.
Essa formação—que, uma vez, foi criada para permitir que mortais derrubassem seres divinos—havia sido torcidas para algo completamente diferente.
Seis deuses agora a usavam contra seu próprio criador.
O pai cuspia sangue enquanto uma segunda explosão rasgava seu lado, quebrando ossos com um estalo horrível.
Outro deus avançou, arremessando uma lança retorcida envolta em relâmpagos.
Ela perfurou seu ombro.
Ele soltou um gemido engasgado, seu corpo reagindo violentamente contra as correntes, mas elas não o deixaram cair. Manteram-no na posição, garantindo que fosse atingido por cada golpe sem poder escapar.
BOOM! BOOM! BOOM!
Golpe após golpe implacável caiu sobre ele.
Punhos. Lâminas. Feixes de energia divina.
Cada ataque foi cronometrado meticulosamente para que a dor nunca cessasse—para que cada ferimento permanecesse aberto, incapaz de cicatrizar antes do próximo golpe.
Não era uma batalha.
Era uma execução.
No entanto, ele ainda não quebrou.
Com hematomas, sangue e golpes pelo corpo, o pai levantou o olhar—seus olhos cinza escuro fixos naqueles que orquestraram tudo isso.
Kaelith.
Seu filho mais velho.
Aquele garoto que, uma vez, o olhava com admiração… agora estava entre os carrascos.
No entanto, ao contrário dos outros deuses, Kaelith não atacou.
Ele ficou logo fora da borda da formação, expressão indecifrável, suas vestes intocadas pela batalha, olhos dourados ardendo com algo muito mais frio que ódio.
"Você é minha carne e sangue…" murmurou o pai, sua voz rouca, com dificuldades sob o peso da dor. "Tudo que construí… cada lição que te ensinei… foi para proteger o povo comum."
Ele tossiu, mais sangue escorrendo por sua queixo.
"Onde errei?" perguntou, ao mesmo tempo em que Kaelith se moveu pela primeira vez.
Ele avançou, passou pelos deuses, até ficar bem na frente do pai.
Ele não se gabou. Não zombou.
Simplesmente olhou fixamente para o homem que lhe deu a vida.
E então—Kaelith falou.
"Você me ensinou que deuses e mortais devem ser iguais."
"Você estava errado." declarou, e, sem mais uma palavra, levantou a mão.
De sua palma, surgiu uma lâmina de energia divina pura, e, com um golpe rápido e impiedoso—
Kaelith atravessou o peito do pai.
Por um breve instante—não houve som.
Apenas um suspiro suave de um deus morrendo.
O guerreiro outrora grandioso, o mais forte de sua espécie, olhou para a lâmina enterrada fundo no coração.
Os lábios tremularam—não de dor, mas de incredulidade.
Como se, mesmo agora… ele não pudesse aceitar que seu próprio filho deu o golpe final.
Seu corpo convulsionou uma última vez—
Então, a luz em seus olhos piscou.
E finalmente—apagou-se.
O maior deus de sua era—não existia mais.
O mundo de Leo desabou.
Tudo ficou turvo enquanto ele sentia-se sendo arrancado da visão, sua mente incapaz de processar o peso do que acabara de testemunhar.
E então—
Sua visão escureceu novamente.