
Capítulo 80
Assassino Atemporal
(Academia Militar Rodova, Subterrâneo B-1, Aula de Noções de Furtividade e Assassinato)
A última aula do dia, após Combate Prático, era de Noções de Furtividade e Assassinato, a única palestra que Leo ainda não tinha assistido sequer uma vez, pois ocorria apenas em alguns dias selecionados, alternando com as aulas de Reconhecimento, Movimento e Planejamento.
Ela acontecia no porão, em um ambiente escuro e úmido, que transmitia uma sensação perturbadora. Porém, como se o ambiente já não fosse ruim o suficiente, o instrutor dessa aula era ainda pior.
Ao contrário das demais, conduzidas por oficiais militares experientes ou professores acadêmicos, essa era ministrada por alguém completamente alheio às regras de ordem e disciplina.
Um criminoso.
Alguém que se apresentava diante deles com pesadas algemas nos braços, mãos atadas por cadeias reforçadas, pernas pesadas por correntes encantadas—e ainda assim, nada parecia reprimir a farpa de maldade que cintilava em seus olhos.
O instrutor da aula era Severus Maximus, o infame 'Assassino da Agulha', que a Academia Militar de Rodova havia contratado especialmente como professor, para oferecer aos estudantes a melhor educação possível.
Severus, no entanto, era um homem tão perigoso que dois tenentes de alta patente o escoltiavam o tempo todo, monitorando cada movimento seu, pois, apesar das algemas, ele não podia ser confiado sozinho perto de ninguém.
E ainda assim—
Apesar das correntes e guardas atentos a cada passo seu, a loucura nos olhos de Severus permanecia intacta, como se seu ambiente nada tivesse a ver com ela, encarando os estudantes como se fossem sua presa, e não seus discípulos.
"Keh… hehehe… Kekekeke!" Uma risada ofegante, quase desumana, preenchia o ar enquanto ele começava a sua aula, sua voz estridente e estranha causando calafrios na espinha de muitos.
"Olá, meus pequenos filhotes," gabou-se, sua voz transbordando zombaria, enquanto os lábios se estendiam em um sorriso perturbador.
"Sou Severus Maximus, também conhecido como 'Assassino da Agulha'. Kekeke…." Disse, enquanto seus ombros tremiam de uma adrenalina quase palpável, como se só de se apresentar ele já entrasse em frenesi.
"Estou aqui para ser seu professor nesta aula deliciosa e pervertida— Não porque eu tenha uma vontade profunda de compartilhar meu conhecimento… Ah não, não, não."
Sua cabeça se contorce de maneira anormal enquanto ele se inclina para frente.
"Estou aqui porque isso corta anos valiosos da minha sentença ridiculamente longa—Kekekeke!"
A risada dele ecoou pelas paredes de pedra geladas da sala de aula no porão, fazendo muitos homens adultos suarem frio.
Alguns pareciam visivelmente desconcertados. Outros, totalmente perturbados.
E Leo?
Ele não ligava.
Se um homem tinha fama suficiente para ganhar um apelido, então seu conhecimento era valioso.
Sua instabilidade mental? Seu histórico de crimes? Nada disso importava para ele, que estava ansioso para aprender.
"Tenho certeza de que vocês estão estudando a teoria do assassinato nas suas aulas militares elegantes, aprimorando técnicas de combate em outra disciplina, praticando seus pequenos golpes e facadas como bons soldados."
O nariz de Severus se enrugou de desprezo, as algemas tilintando enquanto ele gesticulava dramaticamente.
"Bah. Inútil. Previsível. Básico." Ele escarneceu. "Qualquer um com uma faca e um pouco de memória muscular consegue apunhalar alguém. Mas isso não é assassinato—é carnificina."
Ele sorriu de forma maligna, seus dentes brilhando na iluminação fraca do recinto.
"O que vou ensinar a vocês é assassinato de verdade. Aquele que não deixa rastros."
Ele se abraçou, os dedos estremecendo contra as costelas, como se revivesse uma memória escura e prazerosa.
"A arte dos acidentes. A arte de fazer assassinatos parecerem suicídios. A arte de montar um homicídio que parece que um namorado ou namorada brigou até a morte."
Ele respirou fundo, rindo baixinho, sua voz caindo em um sussurro sinistro.
"Como fazer um pai matar o próprio filho na fúria do álcool."
"Como fazer um padre morrer em oração, com uma adaga cravada na garganta de forma tão perfeita que chega a parecer… poético."
"Como fazer uma vítima parecer que entrou na própria morte de livre vontade—Kekekeke!"
A risada dele aumentou, ofegante e satisfeita, o corpo inteiro tremendo de pura diversão, deixando os estudantes extremamente desconfortáveis.
Alguns instintivamente recuaram. Outros não ousaram olhar diretamente, assustados com o brilho selvagem em seus olhos, enquanto os tenentes ao lado, armados até os dentes, pareciam também um pouco desconfortáveis em deixá-lo continuar.
Porém, como tinham ordens e ele não havia feito nada que quebrasse as regras, eles só podiam esperar, em silêncio, pelo momento certo.
"A aula de hoje é sobre algo simples. Algo prazeroso. E… letal."
Ele lambeu os lábios, alongando as palavras.
"Poções."
"Vou ensinar vocês a matar com um sussurro. Como acabar com alguém sem nunca levantar uma lâmina. Como manipular a respiração da pessoa de forma que ela morra achando que foi uma simples gripe." Severus falou, soltando uma respiração satisfeita, como se estivesse saboreando a própria frase.
"Vamos passar pelos tipos de venenos, seus efeitos em assassinatos, como prepará-los na selva, e como extrair de criaturas vivas."
"Mas claro… tudo isso é só para demonstração, kekeke…! Se vocês realmente prezam suas vidas,devem sempre—sempre—comprar seus venenos de um fornecedor confiável."
Sua voz caiu num sussurro doce e repugnante.
"A menos que, é claro, vocês queiram acabar como alguns dos meus ex-alunos…"
Ele fez uma pausa.
Então, jogou a cabeça para trás, rindo de forma insana e arrepiante, enquanto as gargalhadas malucas preenchiam a sala mais uma vez.
Quando a aula de fato começou.
"Vamos começar com algo simples, mas eficaz—Veneno de uso estratégico." Severus disse, levantando um frascinho pequeno contendo uma substância negra como tinta, que girava entre os dedos.
"Este aqui? Uma mistura encantadora chamada 'Presas de Víbora'. Mata instantaneamente ao entrar na corrente sanguínea. Um arranhão, um corte com ela, e em três segundos—" Ele estalou os dedos, o som agudo ecoando na sala silenciosa.
"Morto. Sem antídoto, sem remédio. Apenas morto."
Severus riu baixinho, balançando a cabeça.
"A melhor parte? O corpo fica intacto. Sem espuma na boca. Sem convulsões violentas. Apenas uma saída silenciosa e discreta do reino mortal."
Com uma suavidade assustadora, ele abriu o frasco e mergulhou a ponta de uma adaga, cobrindo a lâmina com o líquido viscoso.
"Para fazer assim, basta usar as glândulas de veneno de uma Víbora de Seis Dentes e o suco de uma Planta Lua Sombria. O veneno paralisa, enquanto o suco acelera a dispersão pelo corpo. Uma combinação perfeita."
Ele lambeu os lábios.
"Um arranhão, e o inimigo nem terá tempo de perceber que já virou uma vítima."
Os estudantes engoliram em seco, mudando de posição nervosamente ao perceberem o quão letal era o conhecimento que estavam prestes a adquirir.
Porém, Severus não tinha terminado.
Sua expressão se aprofundou ao pegar outro frasco, cheio de um líquido transparente e incolor.
"Agora, se a morte instantânea for demais… pouco criativa para vocês, deixem-me apresentar algo mais divertido—Cativeiro da Viúva."
Ao contrário do que fazia antes, ele manuseou o frasco com veneração, quase com afeição, como se fosse uma posse preciosa.
"Essa belezinha aqui é um veneno de ação retardada. Sem odor. Sem sabor. Ingerível em alimentos ou bebidas."
Ele inclinou o frasco, observando o líquido girar.
"A vítima ingere… e nas próximas 22 horas, não sente nada. Nenhum sintoma. Nenhum tontura, náusea ou aviso prévio."
Sua voz caiu no tom do sussurro.
"Mas depois… chegam as últimas duas horas. E é aí que a diversão começa."
Ele respirou dramaticamente, colocando a mão no peito, como se fosse dominado pela beleza de sua própria criação.
"A dor começa de forma sutil. Uma queimação leve no estômago. Então, ela se espalha. Em dez minutos, parece que os órgãos estão se liquefazendo. O corpo aquece, as veias rompem, e os nervos pegam fogo—e tudo o que a vítima consegue fazer é gritar."
Severus riu de maneira sombria.
"Ah, e antes que perguntem—não há antídoto. Não há cura após 20 horas, quando o veneno se espalha totalmente pela corrente sanguínea."
Se detectado cedo, pode-se usar magia de cura de alto nível para impedir que o veneno faça efeito e removê-lo lentamente.
Porém, se os efeitos se manifestarem, já é tarde demais para salvar quem foi atingido.
Seu olhar passou pela sala, analisando as expressões—alguns pálidos, outros horrorizados.
"E aí, quem quer aprender a fabricá-lo?"
Silêncio.
Depois, relutantemente, algumas mãos se levantaram.
Leo, no entanto, já vinha anotando tudo com entusiasmo.
Utilizar venenos não parecia seu estilo, pois se via mais como um lutador de linha de frente, sem frescuras, mas ter conhecimento sobre o assunto não era uma má ideia, e ele absorvia cada palavra de Severus como uma esponja.
Até ali, essa tinha sido a aula mais interessante até agora, já que, apesar de só estar anotando, era de longe a mais informativa e prática de todas as disciplinas teóricas que estudava.