
Capítulo 35
Assassino Atemporal
(Academia Militar de Rodova – Câmara de Avaliação Psicológica)
Ao entrar na sala de avaliação, o olhar de Leo imediatamente recaiu sobre um único homem sentado à frente de uma longa mesa de metal.
O homem vestia um jaleco branco impecável, sua postura era calma e composta, enquanto folheava um dossiê grosso.
Diferente dos instrutores lá fora, esse homem não transmitia ameaça ou autoridade. Sua expressão era neutra, quase agradável, como se estivesse prestes a conduzir uma conversa informal e não uma interrogação.
Mas Leo sabia que era mentira.
A própria sala denunciava a verdadeira natureza do que estava por vir.
As paredes eram de aço reforçado, sem janelas, e uma única luz central lançava um brilho clínico sobre as superfícies metálicas.
Por trás do psicólogo, uma máquina complexa emitia um zumbido suave, com cabos que se estendiam de sua base até a cadeira oposta — que Leo assume ser a configuração do detector de mentiras.
"Por favor, sente-se." disse o psicólogo, finalmente levantando o olhar e oferecendo um sorriso amigável.
Leo hesitou por um breve instante antes de se deixar cair na cadeira, enquanto o psicólogo lhe lançava um aceno de aprovação.
*Estalo*
Ao fechar o grosso dossiê, o psicólogo trocou olhares com ele antes de se inclinar para a mesa e dizer: "Por questões de protocolo, deixe-me me apresentar. Sou o Dr. Adrian Kessler, e farei sua avaliação psicológica hoje."
A fala dele era casual, quase amigável.
Mas Leo não se deixou enganar por sua gentileza.
Pelando pelo estado do aluno anterior, que fora arrastado para fora daqui visivelmente abalado, Leo entendeu que aquilo nada tinha de uma conversa amigável.
No entanto, para não antagonizar o instrutor, manteve a expressão impassível, fixando seu olhar firme no psicólogo, sem dar nada de bandeja.
Por alguns momentos, ambos ficaram em silêncio.
Então, o psicólogo recostou-se na cadeira e deixou escapar uma respiração, como se estivesse entretido.
"Sabrina, aplique o sérum da verdade e conecte-o à máquina. Use uma dose mais alta — essa pessoa tem uma mente forte."
Ao sinal dele, entrou uma assistente, movendo-se com prática. Um bandeja com suprimentos médicos repousava em suas mãos, enquanto o leve tilintar de frascos de vidro cortava o silêncio.
Ela mal olhou para Leo ao se aproximar.
"Braço direito", ela falou de forma monótona.
Leo obedeceu, arregaçando a manga enquanto ela passava uma toalhinha antisséptica fria sobre sua pele.
Enquanto isso, o psicólogo continuava falando.
"Quer saber por que destaquei que você tem uma 'mente forte'?" ele perguntou com tom divertido, enquanto Leo levantava uma sobrancelha.
"Veja bem, Leo, nem muitos alunos conseguem manter contato visual comigo. Ainda mais quando tenho minha habilidade de aura [Intimidação] ativada." Adrian disse com um sorriso, observando Leo atentamente, avaliado sua reação.
"A maioria dos recrutas começa a se encolher no momento em que sentam de frente comigo. Parecem ratos presos numa jaula com um gato faminto. Mas você? Não se mexeu. E isso… é bastante impressionante."
Nesse momento, Leo sentiu uma agulha perfurando sua pele.
"Sabrina está aplicando o sérum da verdade agora", continuou Adrian, com uma voz suave. "Isso vai diminuir suas inibições, fazer com que pense menos antes de falar. Daqui pra frente, vamos ter uma conversa honesta e aberta."
Leo permaneceu em silêncio.
Adrian sorriu como se também achasse aquilo engraçado.
"Sabe," ele refletiu, "há apenas dois tipos de pessoas que conseguem resistir à minha habilidade de [Intimidação]."
Ele levantou um dedo.
"Primeiro, aqueles que cresceram em ambientes difíceis — na rua, lutando pela vida, batalhando pela sobrevivência. Pessoas assim comem intimidação no café da manhã, almoço e janta. Elas não se assustam fácil."
Depois, levantou um segundo dedo.
"E o segundo grupo — aqueles que nasceram em casas nobres, criados ao redor de guerreiros de alto nível, que vivem produzindo aura de intimidação o tempo todo. Eles se tornam imunes a isso."
Ele inclinou levemente a cabeça, seu olhar afiado fixo em Leo.
"Então, qual é? Rato da rua ou nobre?"
Leo permaneceu em silêncio, sentindo o calor estranho do soro se espalhar por suas veias.
Porém, à medida que os segundos passavam, ele percebeu algo preocupante.
Sua mente começava a ficar… enevoada.
Um nevoeiro estranho se instalou sobre seus pensamentos, embotando sua percepção. Seus contornos ficavam borrados, uma sobreposição de imagens e cores se intensificava, e um zumbido suave resonava na parte de trás de seu crânio.
"Fiz uma pergunta, Leo."
A voz do Dr. Adrian cortou o silêncio, calma, mas expectante. Sua expressão permanecia perfeitamente composta, embora houvesse um brilho estranho em seu olhar.
"Qual é? Um ou dois?"
Leo o fitou, mas não respondeu.
O médico suspirou, batendo os dedos na mesa de metal.
"Sabrina, qual foi a dose? 0,75?"
A assistente balançou a cabeça. "0,9."
Adrian piscou, após o que soltou uma risada divertida.
"0,9 e ele ainda aguenta? Raro mesmo." Ele recostou-se um pouco, com um sorriso traçado nos lábios. "Tudo bem. Aplique mais 0,3ml de Sérum de Alucinação. Vamos ver quanto dessa força de vontade ainda resiste quando a realidade começar a fazer pouco sentido."
Sabrina não hesitou.
Mais uma picada afiada.
Outra injeção.
E então—
O mundo desabou.
Leo ofegou enquanto as cores ao seu redor se retorciam, se misturando de forma estranha.
As paredes pareciam pulsar. A mesa à sua frente se alongava e encolhia em ondas irregulares.
Seu campo de visão virou triplo — ele via três médicos, três assistentes, todos se movendo em velocidades diferentes.
Um zumbido baixos preenchia seus ouvidos, subindo e descendo como sussurros distantes.
Parecia que sua mente flutuava, desligada do corpo.
Mas—de alguma forma—bem lá no fundo, uma parte dele permanecia… consciente.
Apesar das drogas invadindo seu sistema, ele não soltava asneiras. Sua mente estava fragmentada, mas não perdida.
Porém, eles não sabiam disso.
'Se eu não agir como se as drogas estivessem funcionando, eles vão me bombardejar com mais.'
Percebendo isso, Leo deixou a cabeça cair de leve para o lado, as pálpebras pesando. Relaxou os ombros, seus dedos agitavam-se ligeiramente, como se lutasse para focar.
Um ato perfeito.
Adrian observava atentamente, esperando o efeito completo do serum.
Então, após alguns segundos, falou novamente.
"Então… qual é?"
Leo deixou o olhar desleixadamente retornar a ele.
E, então, com uma gagueira lenta e preguiçosa, finalmente respondeu:
"Eu… não sei…" sua voz era suave, distante. "Eu… não lembro. Minhas memórias… sumiram…"
Silêncio.
O sorriso de Adrian desapareceu.
Sua expressão não se tornou suspeita — não, era algo diferente.
Algo mais próximo de… interesse.
O médico fez uma concha com as mãos, os olhos penetrantes nunca deixando o rosto de Leo.
"Suas memórias… apagadas, você diz?"
Ele respirou lentamente.
"Ora, que coisa mais… fascinante?" Adrian afirmou, recostando-se enquanto se virava para sua assistente, esperando que ela também estivesse impressionada — mas ela parecia indiferente.
Levando as mãos em sinal de rendição simulada, fez uma expressão que dizia: 'Ei, não olhe pra mim. Sou só a assistente —' — o que fez o médico soltar uma risada antes de voltar seus olhos para Leo.
"Leo 'Skyshard'," ponderou, rolando o nome na língua. "É esse o nome que consta no seu arquivo. Me diga, foi assim que te chamaram ao nascer? Ou foi um nome que alguém te disse que era seu depois que suas memórias foram apagadas?"
Leo teve um pulo em seu cérebro, acelerado pela impotência e pelo esforço de manter a fachada.
Isso era perigoso.
Uma resposta errada aqui não apenas levantaria suspeitas — poderia desmoronar tudo.
Ele tentou manter a expressão distante, desfocada, como se estivesse lutando contra a névoa mental induzida pelos medicamentos.
De repente, lentamente, abriu os lábios.
"Um papel…" sua voz saiu rouca, como alguém buscando sobressaltos fragmentos de lembrança. "Estava… escrito em um papel. Quando acordei… disseram que era meu."
Um sinal suave do detector de mentiras confirmou que sua resposta passou por verdade.
O olhar de Adrian piscou levemente, uma centelha de algo indecifrável passando por trás de seus olhos.
"Então você nem tem certeza se é seu nome de verdade?"
Ele murmurou, intrigado.
Leo piscou lentamente, a insignificante névoa forçada em seus olhos o fazendo parecer mais atordoado do que realmente era.
Adrian exalou pelo nariz, batendo os dedos na mesa pensativamente.
"Bem, isso complica as coisas, não é?"
Ele folheou distraidamente a pasta à sua frente antes de continuar.
"Me diga, Leo… você se lembra de alguma coisa antes de acordar? Algum lampejo? Sons? Emoções?"
A pergunta não foi inesperada, mas Leo sabia que sua próxima resposta tinha que ser cuidadosamente calculada.
Deixou as sobrancelhas se franzirem sutilmente, como se estivesse tentando—lutando—lembrar de algo que não existia mais.
Finalizando, balançou a cabeça.
"Nada", murmurou, com a voz na medida certa de cansaço. "É só… vazio."
Outro bip suave. Outra verdade registrada.
Adrian inclinou a cabeça, observando-o como um espécime sob um microscópio.
"Entendo…" disse, após uma longa pausa.
"Um caso curioso, não é?" comentou, enquanto seus lábios lentamente se curvavam em um sorriso.
Um sorriso que, à primeira vista, refletia aquele que oferecera no início da conversa.
Mas desta vez—havia algo diferente nele, algo estranho.
Leo sentiu. Uma mudança no ar. Uma mudança na conversa.
Algo estava para acontecer.
Algo perigoso.
Ele podia sentir — como uma tempestade no horizonte. Silenciosa. Inescapável. E pronta para atacar.