Assassino Atemporal

Capítulo 38

Assassino Atemporal

(Academia Militar de Rodova – Sala de Recuperação, Pós-Avaliação Psicológica)

Depois de carregar Leo para a sala de recuperação, Sabrina injetou nele uma série de soros de recuperação, garantindo que os medicamentos em seu sistema se dissipassem mais rapidamente.

Seu toque era treinado, eficiente, mas havia uma hesitação na forma como ela permanecia por um momento — seus olhos varreram seu rosto uma última vez antes de, finalmente, virar-se de costas e sair da sala.

A porta se fechou suavemente atrás dela com um clique, e só então Leo permitiu-se respirar fundo, soltando a tensão que não tinha percebido estar segurando.

O teste psicológico havia acabado. E parecia que ele havia passado sem levantar suspeitas.

Foi a avaliação mais perigosa até então — uma em que uma palavra mal colocada, um pequeno deslize no controle, poderia significar a diferença entre estar seguro ou exposto. Ainda assim, apesar da forte dopagem, da visão distorcida e das sensações de estar flutuando, algo dentro dele permanecia firme.

Seu corpo tinha sido comprometido, seus sentidos entorpecidos, mas sua mente — seu raciocínio consciente — permanecia intacto.

Isso sozinho tinha garantido sua sobrevivência.

Pressionando a mão na testa, Leo lembrou-se de como, mesmo quando o mundo ao seu redor se torcia e embaçava, ele nunca tinha perdido completamente o controle.

Seus instintos assumiram o comando, moldando suas palavras com precisão, garantindo cada resposta fosse sutil o suficiente para evitar suspeitas, mas deliberada o bastante para não levantar dúvidas.

Era como se sua mente tivesse uma espécie de mecanismo de segurança embutido — algo profundamente enraizado que o mantinha estável, mesmo quando tudo mais era despojado.

'Uma pessoa comum teria desmoronado com esse nível de dopagem,' refletiu. 'Então por que eu não?'

Outra dúvida. Outra anomalia. Mais uma peça inquietante no quebra-cabeça em constante crescimento da sua existência.

Mas não havia tempo a perder com isso.

Uma hora passou num piscar de olhos. Os efeitos dos medicamentos foram desaparecendo gradualmente, a clareza retornando à sua mente enquanto seu corpo recuperava sua agudeza habitual.

Seus membros não estavam mais pesados, a visão tinha se esclarecido e a neblina mental se dissipara completamente.

Então—

Clique.

A porta da sala de recuperação se abriu.

"Hora do teste físico, cadete. Faça fila."

Um instrutor estava na entrada, seu tom curto, sem espaço para hesitação.

Sem dizer uma palavra, Leo se levantou e saiu para o corredor, onde o restante de sua turma já estava reunido.

O tempo de descanso acabou. O próximo teste ia começar.

**********

(Academia Militar de Rodova, Departamento de Monitoramento Físico, Preparação Pré-teste)

Leo não fazia ideia de como Rodova planejava realizar seus testes de aptidão física.

Ele tinha assumido que seria algo tradicional, como correr uma maratona brutal para testar resistência, uma prova de levantamento de peso para medir força, ou até uma luta de boxe para avaliar reflexos.

No entanto, ele não poderia estar mais errado — sua suposição foi rapidamente desfeita assim que entrou no Departamento de Monitoramento Físico, sendo lembrado de que Rodova era uma das principais escolas militares do universo.[1]

A instalação de testes não se parecia nada com um ginásio de treinamento. Em vez disso, parecia um centro de pesquisa médica de ponta — seu interior era elegante e clínico.

As paredes eram imaculadas, revestidas por detectores diagnósticos embutidos que piscavam com pulsações suaves e rítmicas.

Fileiras de bioquirodinas — cada uma inscrita com runas brilhantes — estavam posicionadas em formação precisa, enquanto as únicas pessoas se movendo eram o pessoal da academia, vestindo jalecos brancos impecáveis.

O ar emitia um leve zumbido, uma sinfonia de máquinas ritmadas e sistemas automatizados funcionando em perfeita sintonia, e até o piso brilhava, polido ao extremo, como se nunca tivesse visto uma poça de poeira.

Um grupo de recrutas, todos de sua turma, estava perto da entrada, com expressões que refletiam sua própria confusão.

"Skyshard, Leo."

Uma voz chamou seu nome, fazendo-o sair de seus pensamentos.

Virando-se, Leo viu uma assistente com uniforme branco ajustado, segurando um quadro de dados na mão.

Ela mal olhou para cima antes de fazer um gesto convidando-o a acompanhá-la até uma área de preparação separada.

"Despire-se até o underwear. Fique na zona de escaneamento," ela instruiu, ainda focada nos dados do quadro.

Leo hesitou por um instante.

Despir-se na frente de uma mulher não era exatamente algo que ele tinha planejado fazer hoje, mas as alternativas eram escassas.

Ele não tinha vergonha do próprio corpo, tinha se visto no espelho ao se arrumar essa manhã e sabia que estava em boa forma.

No entanto, despir-se na frente de uma desconhecida ainda o deixava meio envergonhado, suas bochechas adquirindo um leve tom avermelhado ao se despir.

Ao puxar a camiseta sobre a cabeça e tirar as botas e as calças, ele percebeu que ela estava observando seu corpo, com uma avaliação rápida, prática.

Ela não parecia particularmente incomodada — isso claramente fazia parte do trabalho dela — mas deu um sorriso sutil, como quem já viu muitos corpos impressionantes, e, embora não estivesse maravilhada, também não estava decepcionada.

Leo era magro, com um corpo bem torneado, que parecia feito para agilidade e não para força bruta.

Praticamente sem gordura, a pele grudada aos músculos, como se tivesse moldado seu corpo ao longo de anos de treinamento que nem ele próprio conseguia lembrar.

Ao terminar de se despir, a assistente deixou escapar um leve suspiro antes de voltar ao quadro de dados.

"Entre na zona de escaneamento." ela instructou, enquanto Leo se posicionava numa plataforma circular, onde um laser vermelho fino começou a escanear seu corpo de cabeça aos pés imediatamente.

Um suave ronronar ressoou no ar, enquanto medições holográficas surgiam em um monitor próximo — altura, peso, densidade muscular, flexibilidade articular, alcance de braço e até distribuição de mana eram anotadas.

Em questão de segundos, o escaneamento terminou.

Antes que Leo pudesse descer da plataforma, a assistente se aproximou novamente — desta vez, segurando um pequeno recipiente com um gel azul cintilante.

"Fique parado," ela disse, mergulhando os dedos no gel antes de passar as mãos por sua pele.

Leo ficou tenso diante da sensação inesperada. O gel era frio ao toque, mas, assim que entrou em contato com seu corpo, sentiu um calor estranho se espalhar pelos músculos, como se pequenas correntes de mana estivessem infiltrando-se na pele.

Na verdade, em outros postos, os estudantes eram instruídos a aplicar o gel eles mesmos. Era um processo simples — só para garantir a condutividade adequada para os testes.

Mas aqui?

A assistente tomava seu tempo.

Seus movimentos eram hábeis, espalhando o gel frio de forma metódica pelos braços, ombros, costas, até o peito e o abdômen — certificando-se de que estava "adequadamente aplicado".

Leo deu uma olhada nela, percebendo o mais sutil sorriso que se formava nos cantos dos lábios dela.

E, naquele momento, ele entendeu —

Ela não estava apenas cumprindo seu trabalho.

Embora não fosse especialmente inadequada nem fizesse avanços claros, havia algo na maneira como ela trabalhava — como seus dedos permaneciam por um instante a mais do que o necessário, e como ela alisava as mesmas áreas com uma precisão exagerada — que deixava claro.

Ela estava se entregando ao momento.

Uma apreciação inocente. Uma distração passageira numa tarefa que, de resto, era rotineira.

Se ela percebera a subtlya consciência de Leo, não deu sinal disso.

Ao contrário, simplesmente continuou, suas mãos nunca parando, enquanto começava a conversar casualmente.

"Sabe, você tem sorte de estar na Rodova," ela comentou, suas mãos ainda espalhando o gel por sua pele. "Só nós e Geneva temos essa instalação de testes."

O olhar de Leo virou para ela. "Sério?"

Ela reconheceu, com um sorriso auto-satisfeito. "Rodova e Geneva são as únicas academias militares no universo que possuem um Departamento de Monitoramento Físico. Os outros ainda usam métodos ultrapassados."

Ela se deslocou para trás dele, agora passando as mãos pelas costas, pressionando o gel nas omoplatas e na parte inferior da coluna.

Leo tentou segurar a tensão, mantendo a expressão neutra.

A assistente, aparentemente desfrutando de sua própria explicação, continuou.

"A maioria das academias ainda aposta em testes físicos tradicionais — correr maratonas, levantar pesos, desviar de facas... Mas esses testes não medem realmente o potencial verdadeiro do aluno. Medem uma combinação de condição física e resistência mental, o que os torna imprecisos."

Ela tocou ligeiramente sua parte inferior das costas, sinalizando para que ele se virasse para que pudesse terminar de aplicar o gel no peito.

Leo se virou, franzindo levemente os olhos.

"Impreciso? Como assim?" ele perguntou, enquanto ela dava uma risadinha.

"Impreciso sim, porque esses testes não medem seu potencial físico bruto — medem sua mentalidade, força de vontade e respostas ao adrenaline, misturadas com os atributos físicos," ela respondeu, enquanto suas mãos deslizavam para os antebraços de Leo, massageando o gel na pele.

"Pegue, por exemplo, uma corrida de resistência," ela continuou. "Se um aluno for mandado a correr uma maratona, não está apenas testando sua resistência — também está avaliando sua força de vontade.

Se aquele mesmo aluno estivesse correndo por sua vida, iria avançar o dobro antes de desmoronar. Ou seja, num teste tradicional, não se mede só resistência — mede-se também um fator mental."

Ela tocou o seu templo. "O mesmo acontece com levantamento de peso. A força máxima de alguém em uma situação de batalha, com adrenalina alta e instintos de sobrevivência, é totalmente diferente do que consegue levantar sob condições normais."

Leo refletiu sobre suas palavras e, apesar das dúvidas, teve que admitir... fazia sentido.

Testes físicos tradicionais não conseguiam separar a pressão mental do desempenho físico puro. Por isso, os resultados sempre tinham uma margem de erro.

A assistente apontou para as câmeras de teste que brilhavam, radiantes.

"É aí que a Rodova é diferente."

Seu sorriso se alargou levemente, com uma certa satisfação ao dizer o que vinha a seguir.

"As Bioquirodinas desta instalação não apenas registram quão forte você é."

"Elas medem os limites reais da sua fisiologia."

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